Fashion Revolution

Os excessos, a superprodução e o consumo consciente na moda com a chegada do Natal

É natural querer presentear pessoas queridas, mas eu realmente me pergunto se precisa ser dessa forma e nessa quantidade

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Mal saímos da loucura e dos excessos causados pela Black Friday (que já não se resume a uma sexta-feira, mas a todo o mês de novembro), e entramos no período de compras que antecede o Natal que, por sua vez, ocupa todo o mês de dezembro que, por sua vez, antecede o período de promoções pós Natal. Ótimo para o comércio, mas ruim para a natureza e para as milhões de pessoas ao redor do mundo que se encontram em condições de trabalho precárias para suprir nossa ânsia pelo consumo. Já ouvimos isso, mas vale sempre lembrar: “não existe crescimento infinito em um planeta de recursos finitos” e “alguém em algum lugar está pagando por isso.”

O bombardeio de propagandas nos convencendo de que precisamos aproveitar tantas excelentes “oportunidades” de compra nos distrai do fato de que não precisamos de quase nada do que está sendo ofertado. Especialmente porque o Natal não é sobre acúmulo material, certo? É natural querer presentear pessoas queridas, mas eu realmente me pergunto se precisa ser dessa forma e nessa quantidade. Quantas vezes não nos sentimos obrigados a comprar “qualquer coisa” no meio da correria do fim de ano para não chegar de mãos abanando na festa de família, ou para garantir aquele presentinho de última hora do amigo secreto?

Independente da crença e das tradições, o Natal pode ser sim sobre família, gratidão, amor, votos de fé em um mundo melhor, mas ele é mais ainda uma data muito importante para as vendas. Coleções são feitas especialmente para atender às festas de final de ano, com as cores e os modelos certos para esse período. Quem não quer passar o ano novo com uma roupa branca nova? Tem que ser nova, lembra? Senão dá azar. A calcinha tem que ser nova também, senão dá azar. E tem que ser da cor certa, a cor que representa a vibração que você deseja para o ano que se inicia, senão pode dar azar também. Não me coloco aqui numa posição de julgar as tradições de cada um, mas acho importante refletirmos sobre isso.

No mês passado, circulou bastante a imagem de montanha de lixo tóxico da moda descartada pelos países “desenvolvidos” no deserto do Atacama no Chile, que, por motivos óbvios, chocou a todos (mas talvez nem tanto). São roupas feitas na China ou em Bangladesh e compradas, por exemplo, em Londres, Berlim ou Los Angeles, antes de serem jogadas “fora” (leia-se no país dos outros). O sistema capitalista, que prega o acúmulo, continua criando novos artifícios publicitários para nos fazer acreditar que a maior prova de amor que podemos dar (comprar) a alguém é um belo presente.

Foto: Martin Bernetti / AFP

As boas ações incentivadas nesta época, as doações, a filantropia também podem encobrir os excessos da nossa sociedade, desde que nos façam sentir melhor. Uma amiga que mora em Londres me ligou para dizer que entrou em contato com uma entidade filantrópica porque precisava doar algumas peças de roupa, e que eles disseram que ela não precisava levar somente as peças em bom estado, mas tudo o que tivesse para doar, mesmo que em condições ruins, já que isso seria enviado para a África (alô colonialismo!) ou reciclado. Quem quer ajudar o próximo pode começar dando atenção, apoio e outros tipos de recursos que não um sapato estragado. Além disso, sabemos que os sistemas e tecnologias de reciclagem existentes não são suficientes para garantir a reciclagem das toneladas dos mais variados materiais descartados diariamente ao redor do mundo.

Este período do ano gera impulsos, que geram consequências que passam longe da realidade de quem compra. O alto custo da superprodução, do hiperconsumo e do descarte excessivo pode não chegar para os consumidores, mas chega para os trabalhadores mal remunerados, para a mão de obra infantil e para as condições degradantes ​​que suportam a produção em massa dessas roupas, chegando também para o meio ambiente, cada vez mais explorado, poluído e contaminado.

A análise do Índice de Transparência da Moda Brasil (ITMB) do Fashion Revolution, lançado recentemente, mostra que não somente a superprodução e o consumo excessivo são prejudiciais ao planeta e às comunidades, mas que as grandes marcas e varejistas não estão fazendo o suficiente para resolver a questão. Muitas vezes, as discussões sobre sustentabilidade na moda acabam girando muito em torno da inovação no design, de novos materiais e, principalmente, da crença de que podemos “consumir de forma consciente” para escapar da crise ambiental e climática. Porém, existe uma grande questão por trás de tudo isso que precisa ser trazida para o centro dos debates: os modelos de negócio em si, que têm como meta produzir mais e mais.

Não temos números precisos, mas é estimado que entre 80 e 150 bilhões de roupas sejam produzidas e consumidas por ano no mundo. Nesse sentido, o ITMB mostra um aumento na quantidade de marcas que divulgam o volume total de peças que produzem anualmente, de 18% em 2020 para 30% em 2021. Mas, apenas 18% delas divulgam a forma como investem em soluções circulares, permitindo a reciclagem de peças e indo além da reutilização e do downcycling (um aumento de só três pontos percentuais em comparação com 2020).

Embora haja um aumento na divulgação de modelos de sistemas permanentes de devolução de peças em lojas, de 20% para 24% neste último ano, ainda são poucas as marcas (22%) que divulgam o que acontece com as roupas recebidas por meio desses sistemas. Além disso, somente 18% das empresas oferecem novos modelos de negócios que sustentem a longevidade e reduzam o consumo de roupas novas. Apenas 4% oferecem serviços de conserto a fim de prolongar a vida útil das roupas e desacelerar o consumo de novos produtos.

Ainda que investir em iniciativas circulares e na reciclagem de têxteis seja uma boa alternativa, isso, por si só, também não resolverá os problemas de superprodução e hiperconsumo da indústria. Desacelerar, produzir menos, com mais qualidade, e prolongar a vida útil das roupas e materiais existentes é essencial para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, conter o descarte e mitigar a degradação ambiental.

Somente 1 em cada 5 marcas analisadas no ITMB divulgam uma estratégia para a gestão de materiais sustentáveis, de forma mensurável e com prazo determinado. No entanto, a indústria da moda carece de regulamentações e indicadores que estabeleçam padrões sobre o que pode ser considerado um material sustentável. As marcas precisam medir e ter acesso a dados confiáveis que contabilizem todos os potenciais impactos ambientais de uma fibra. Essa falta de informações confiáveis e comparáveis sobre materiais sustentáveis também torna difícil para os consumidores fazerem escolhas de compra mais bem informadas e saberem a melhor forma de cuidar das roupas que possuem.

Por parte dos consumidores, vale também uma reflexão: é possível consumir de forma consciente?

Há quem diga que consumir é um ato político. Por um lado, eu entendo a posição, afinal podemos “votar” com nosso dinheiro nos negócios que queremos ver florescer, naqueles com os quais compartilhamos valores, uma filosofia de mundo, naqueles que resguardam o bem-estar social e os direitos humanos e preservam os recursos naturais. Mas, por outro lado, seria o consumo consciente só mais uma grande pegadinha do capitalismo? A sustentabilidade transformada em mais uma mercadoria para quem tem o privilégio da escolha (e o dinheiro para bancar essa escolha) e para, assim, continuar alimentando o mesmo sistema, porém vestido de verde. Desde que continuemos consumindo.

A sustentabilidade como ferramenta de marketing hoje em dia ajuda a alavancar vendas de produtos que, muitas vezes, estão só encobrindo os mesmos modelos de negócios de sempre. A transparência e a informação de qualidade, fundada em dados confiáveis e completos, são alicerces para a mudança, assim como a responsabilização, prestação de contas pelas empresas e regulamentações por parte do poder público. Não podemos ignorar que incentivos para que os negócios continuem como de costume (insustentáveis) existem, e isso não vai permitir mudar o mundo como queremos. É preciso pensar de forma holística e trabalhar nas causas-raiz. Ficar na superfície, nos mantém à deriva e à mercê de quem tem mais poder.

Convencer nós consumidores de que somos seres políticos por meio do consumo pode ser perigoso. Escolhas de compra mais sustentáveis são importantes, mas não trarão uma mudança sistêmica, porque são individuais e não têm impacto ou não são acessíveis para a maior parte da população. Por isso, devemos lutar por legislações e políticas públicas que contemplem os direitos humanos e da natureza, do começo ao fim da cadeia de valor da moda, indo além do que nossa consciência (ou nossa carteira) nos permite comparar. Precisamos cobrar dos governos que parem de subsidiar combustíveis fósseis e incentivem energia limpa, acesso à água, à terra, que fomentem a agroecologia e garantam a segurança alimentar, serviços básicos de qualidade e o trabalho digno à todas e todos. Esse voto não depende do nosso dinheiro e os impostos que pagamos não deveriam subsidiar empresas as quais não concordamos. O que eu quero de Natal? Um novo sistema para a moda e para o mundo. Obrigada.

Eloisa Artuso
Tem interesse especial na luta por justiça de gênero e climática. É designer estratégica, coordenadora do Índice de Transparência da Moda Brasil, cofundadora do Instituto Fashion Revolution Brasil e professora de Design Sustentável do IED-SP. Com um trabalho que se encontra no espaço entre sustentabilidade, educação e design, lidera projetos que incentivam profundas transformações na indústria da moda. Siga @eloartuso

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