Fashion Revolution

Os progressos e desafios das maiores marcas da moda no Brasil

Relatório avalia o que mudou e o que ainda precisa ser feito para a indústria avançar nas questões de direitos humanos e meio ambiente

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O Índice de Transparência da Moda Brasil (ITMB), lançado nesta terça-feira 30, analisa e classifica 50 das maiores marcas e varejistas de moda do mercado brasileiro, usando como base a divulgação pública de políticas, práticas e impactos sociais e ambientais em suas operações e cadeias de fornecimento. Dentre inúmeros temas essenciais para a indústria da moda que o Índice avalia como, por exemplo, trabalho decente, salários dignos, materiais sustentáveis, resíduos, circularidade, água e químicos, escolhi dar destaque aqui para os resultados relacionados ao clima e à igualdade de gênero e racial.

Assim como, sem tirar a importância de todas essas questões, mas levando em consideração a necessidade urgente do debate em torno da justiça climática, de gênero e de raça, criamos também o Guia de Transparência da Moda. O Guia é um material inédito com foco em boas práticas de transparência das empresas sobre estes temas, que deriva do Índice, mas tem como objetivo alcançar, de forma mais acessível, um maior público, principalmente composto por pequenas empresas.

Embora o Índice de Transparência da Moda venha pressionando muitas marcas importantes a divulgar informações sobre suas cadeias de fornecimento, globalmente desde 2016, e no Brasil desde 2018, vemos que o avanço na transparência de questões-chave para os direitos humanos e o meio ambiente não se mostra suficiente frente aos desafios encontrados na indústria. O progresso em relação à transparência continua lento: entre as 50 empresas analisadas em 2021, a pontuação média geral alcançada foi de apenas 18%. Isso representa uma queda de 3 pontos percentuais em relação a 2020.

As maiores pontuações são da C&A (70%), Malwee (66%), Renner e Youcom (57%), Adidas (53%), e Havaianas (52%). Enquanto 17 marcas zeraram: Besni, Brooksfield, Caedu, Carmen Steffens, Cia. Marítima, Colcci, Di Santinni, Fórum, Kyly, Leader, Lojas Avenida, Lojas Pompéia, Marisol, Moleca, Nike, Sawary e TNG.

Os impactos da indústria da moda no clima

A crise climática se mostra uma realidade cada vez mais presente. A publicação do 6º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apresentou mais um sólido alerta sobre como as mudanças climáticas estão se intensificando rapidamente e são resultados da ação humana. De acordo com o relatório, o aquecimento global de 1,5°C será excedido durante o século XXI, a menos que reduções profundas de dióxido de carbono (CO2) e outras emissões de gases de efeito estufa (GEE) ocorram nas próximas décadas.

A indústria da moda global contribui consideravelmente para essa questão. Segundo estimativas, se nenhuma ação adicional for tomada na próxima década, além das medidas já em vigor, as emissões de GEE do setor provavelmente aumentarão para cerca de 2,7 bilhões de toneladas por ano até 2030. Para evitar o aumento de 1,5ºC, o setor terá que reduzir suas emissões, nesse período, para cerca de 1,1 bilhão de toneladas por ano.

Essas informações são valiosas, pois trazem clareza e transparência. O que precisamos, agora, é de ação. A indústria da moda, no Brasil e globalmente, precisa ser mais ousada — e mais transparente — sobre o que está fazendo para enfrentar os desafios da crise climática, juntamente com os outros impactos ambientais presentes na cadeia de fornecimento.

Mas ainda são poucas as marcas que divulgam dados importantes, como suas pegadas de carbono. O ITMB apontou que 32% das empresas publicam uma política sobre energia e emissões de gases de efeito estufa para suas operações próprias, 30% apresentam uma política sobre o mesmo tema para seus fornecedores, e 22% divulgam um compromisso mensurável e com prazo determinado para descarbonização. Embora os resultados sejam baixos, houve um aumento na divulgação anual da pegada de carbono e de emissões de gases de efeito estufa (GEE) dos Escopos 1 e 2 (operações próprias da empresa e a energia que ela compra), de 25% em 2020, para 32% em 2021.

Na contramão do mundo, de acordo com o relatório Análise das emissões brasileiras de gases de efeito estufa e suas implicações para as metas climáticas do Brasil, o País foi possivelmente o único grande emissor do planeta a mostrar alta de emissões no ano da pandemia, devido ao desmatamento. O aumento das emissões brutas de gases de efeito estufa no Brasil, em 2020, foi de 9,5%, ao mesmo tempo em que a pandemia parou a economia mundial e provocou uma redução de quase 7% nas emissões globais. O principal fator a contribuir com o aumento foi o desmatamento, principalmente da Amazônia e do Cerrado. Os gases de efeito estufa lançados na atmosfera pelas mudanças do uso da terra nessas regiões aumentaram 23,6%, neste período.

Diante de tal cenário, é surpreendente que nenhuma marca publique um compromisso mensurável e com prazo determinado para o desmatamento zero. Somente três empresas (6%) divulgam evidências de implementação de práticas agrícolas regenerativas em uma ou mais fontes de matéria-prima de sua cadeia. Apenas 14% das marcas publicam se estão rastreando a fonte de uma ou mais matérias-primas específicas.

O racismo estrutural e a moda

Sabemos que mais da metade da população brasileira é negra, mas que as desigualdades são estruturais e, ao longo de séculos, formaram a sociedade como conhecemos hoje. Por isso, é preciso que essas disparidades e injustiças sejam combatidas, intencionalmente, na esfera individual, de políticas públicas e iniciativas privadas. Muitas marcas vêm manifestando apoio à igualdade racial, particularmente em resposta a movimentos como o Vidas Negras Importam, que ganhou dimensão global no ano passado. Mas quase um ano e meio depois da campanha #BlackoutTuesday nas redes sociais, que despertou engajamento de muitas marcas e profissionais de moda assumindo o compromisso antirracista, vemos que pouca coisa mudou.

O ITMB mostrou que 24% das marcas analisadas publicam suas ações com foco na promoção de igualdade racial entre seus funcionários, um leve crescimento comparado a 2020 (18%). Mas apenas três marcas (6%) divulgam informações sobre programas de desenvolvimento de carreira voltados para a redução de desigualdade entre raças e promoção de oportunidades de crescimento para funcionários negros.

Somente 12% das empresas publicam a divisão por cor ou raça de seus funcionários, um aumento de dois pontos percentuais em relação a 2020. Assim como no ano passado, nenhuma marca publica as diferenças salariais de seu quadro de funcionários sob a perspectiva racial, nem as diferenças salariais e distribuição por cargo, sob a perspectiva racial, nas instalações dos seus fornecedores.

A transparência sobre igualdade de gênero no setor

Apesar de as mulheres representarem 72% da força de trabalho no setor de confecção no Brasil, houve queda na transparência sobre igualdade de gênero na indústria da moda no último ano. Vimos uma diminuição nas informações disponíveis publicamente sobre a distribuição de gênero por cargo nas instalações próprias das empresas: de 35% em 2020 para 24% em 2021. Dados sobre a diferença salarial entre mulheres e homens dentro das empresas caíram três pontos percentuais nesse mesmo período, resultando em 12%.

Em relação à cadeia de fornecimento, somente três empresas (6%) publicam dados sobre o predomínio de violações trabalhistas relacionadas a gênero nas instalações dos fornecedores. Nenhuma marca divulga as diferenças salariais, sob a perspectiva de gênero, nas instalações dos seus fornecedores.

Por outro lado, houve um aumento significativo na divulgação de procedimentos implementados pelas empresas para colocar em prática suas políticas de equiparação salarial: de 8% em 2020, para 20% em 2021. Isso mostra que há políticas sendo postas em prática, mesmo que não consigamos ver seus resultados. Ainda, se analisarmos o progresso das marcas desde a primeira análise, em 2018, notamos que houve um aumento de 14 pontos percentuais na quantidade de empresas que divulgam políticas para funcionários próprios sobre direitos relacionados à maternidade e licença-parental, totalizando 34% em 2021. Em relação à porcentagem de marcas divulgando suas práticas para combater assédio e violência, houve um aumento de 10%, em 2018, para 30% em 2021.

O Índice de Transparência da Moda vem influenciando grandes empresas a compartilhar mais informações a cada ano, mas sabemos que isso não é o suficiente. A transparência é um passo fundamental para se alcançar uma mudança sistêmica na indústria da moda, mas para que haja maior progresso nesse sentido também é necessária a criação de melhores leis e regulamentações para a indústria da moda, que exijam maior prestação de contas de grandes marcas e varejistas sobre seus impactos nos direitos humanos e no meio ambiente.

Por fim, fica um chamado: vamos usar essas descobertas para erguermos nossas vozes e desafiarmos as grandes marcas e varejistas a serem mais responsáveis, a prestarem contas publicamente sobre suas atividades, ​​e provarem que estão fazendo mudanças reais e não apenas no papel. Vamos usar também essas descobertas para entrar em contato com legisladores locais para exigir melhores leis e regulamentações sociais e ambientais para a indústria da moda.

Baixe e leia o Índice de Transparência da Moda aqui.

*Este conteúdo também faz parte do “Guia de Transparência da Moda, edição: clima, gênero e raça”, um material elaborado a partir do Índice de Transparência da Moda Brasil 2021, com patrocínio do Sebrae.

Eloisa Artuso
Tem interesse especial na luta por justiça de gênero e climática. É designer estratégica, coordenadora do Índice de Transparência da Moda Brasil, cofundadora do Instituto Fashion Revolution Brasil e professora de Design Sustentável do IED-SP. Com um trabalho que se encontra no espaço entre sustentabilidade, educação e design, lidera projetos que incentivam profundas transformações na indústria da moda. Siga @eloartuso

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