Os múltiplos altares do terrorismo

Após os ataques às Torres Gêmeas em 2001, o título quase sempre foi atribuído aos muçulmanos exclusivamente

Os múltiplos altares do terrorismo

Diálogos da Fé

Aqueles que estão envolvidos em Ciências Sociais e, em específico, em Ciência da Religião ou estudos afins logo dirão que este título é um plágio da magnífica obra de Peter Berger. O sociólogo austríaco-americano, que faleceu em 2017, escreveu a obra Os múltiplos altares da modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época pluralista em 2014 e, em 2017, o livro foi traduzido para o português e publicado no Brasil.

Sendo um dos maiores divisores de água na vida acadêmica do autor, a obra levanta a questão de mudança de paradigmas em relação à secularização e religião, pois até um tempo não muito longínquo ele mesmo estava entre aqueles que defendiam a tese de que a secularização era o fim da religião.

O título desta conversa com os meus leitores não é, de forma alguma, um plágio do texto supracitado, mas não posso deixar de registrar que é inspirado nele. Faço questão de colocar o título para mostrar o quanto as mudanças paradigmáticas têm ocorrido nas nossas vidas e a modernidade tem o caráter agilizador dos processos de morfossemântica.

O terrorismo é um tema recente das pautas internacionais. A sua estruturação teórica ainda está em construção. Se questionarmos o que seria esse tal terrorismo, não teríamos uma resposta clara e uniformizada nos âmbitos acadêmico e jurídico, tampouco na vida cotidiana temos uma definição. De modo geral, definimos que o terrorismo é a prática de ações prejudiciais à segurança e vida de indivíduos e sociedades. Isso acontece, na maioria dos casos, em decorrência de extremismo, isto é, na realidade de alguém ou algum grupo querer impor as suas ideias aos outros e estabelecer a sua acepção de forma inquestionável. Em outras palavras, como diz também Berger no livro, é ter um regime de não-questionáveis autoritários, que na maioria dos casos podem ser denominados como fundamentalistas e extremistas. Em um regime fundamentalista ou extremista, não há espaço para questionamento e aquilo que é dito pela autoridade é “dada como certa”. A tendência é de autoritarismo e, na pior hipótese, ditadura, se é que o próprio autoritarismo já não é pior hipótese.

O terrorismo começou a ser mais discutido depois dos ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center em 2001. Logo, por causa dos infames executores da ação, esse título quase sempre foi atribuído aos muçulmanos exclusivamente. Claro, tudo isso tem suas bases nas relações históricas entre o Ocidente e Oriente. Infelizmente, as relações nem sempre foram positivas e ambos os lados conheceram – e continuam conhecendo – o outro como “bárbaro”. Caso perguntemos a qualquer pessoa na rua sobre o que é terrorismo, receberemos a resposta de que é ação armada contra a segurança pública. Os indivíduos nos darão o exemplo de homens bomba, homens armados e barbudos etc. Ninguém terá uma resposta clara e bem definida. Sequer nós mesmos temos. Como falei, a definição, no âmbito global, ainda está em construção.

Será que terrorista só pega em arma?

Nos últimos anos, temos registrado enormes ameaças à educação e ciência. Como um estudante, venho sempre acompanhando as notícias a respeito. Infelizmente, as coisas sempre tendem a piorar. Uma das últimas ameaças ocorridos foi o corte de cerca de 600 milhões de reais das verbas do Ministério de Ciência e Tecnologia. O CNPq, um dos órgãos públicos que fomentam a pesquisa e a ciência, sofre grande perigo de não mais poder oferecer bolsas para os estudantes de pós-graduação. Infelizmente, o pouco que se dá aos estudantes com a condição de que só vivam daquilo – ou seja, aqueles que recebem estas bolsas não podem trabalhar – está sendo tirado deles. A CAPES, outro órgão que oferece bolsas para pesquisadores, também sofreu vários cortes na sua verba. Ambas as instituições aqui mencionadas, quando oferecem bolsa integral, põem a condição de que o bolsista não trabalhe e que se dedique única e exclusivamente à sua pesquisa. Porém, nem isso é tão possível.

Outra ocorrência foi a tentativa de retirar a meia entrada no estado de São Paulo. O projeto de lei (PL300) foi vetado pelo governador em exercício. Porém, somente a tentativa foi suficiente para causar ansiedade entre aqueles que pagam metade do valor padrão nos espaços culturais. Não cito aqui o nome do autor do projeto. Mas pelo posicionamento político dele, percebo que há uma tentativa de desencorajar aqueles que querem alcançar os seus objetivos por meio da educação e ciência. E qual o motivo dessa minha percepção?

A educação e a ciência levam a questionar e desenvolver a sociedade, seja em qual âmbito for, a partir de dúvidas e indagações metódicas. Elas nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos e melhorá-lo. Essa é a missão do homem, falando em termos das religiões. Porém, como afirmado anteriormente, os extremistas e fundamentalistas não gostam de quem questiona. E quando não podem conter isso, a ousadia deles toma conta ao ponto de fazer qualquer coisa para impedir os questionamentos e pensamentos diferentes.

Se o terrorismo é a ação contra uma sociedade, não estamos na hora de pensar em diferentes formas dele? Não seriam esses os múltiplos altares do terrorismo? Ou será que terrorista só pega em arma? Se é que aqueles que fazem de tudo para impedir os questionadores não pegam em armas também…

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Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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