Diálogos da Fé

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O passado não está morto: os 60 anos da profecia evangélica proferida em Recife

Mais importante evento realizado por lideranças evangélicas no Brasil, o encontro foi símbolo da aproximação a um Brasil da miséria, mas também da esperança

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É um desafio manter a atenção ao que se destaca na arena evangélica do Brasil 2022. Ainda ressoam, pelo menos, três casos. O do pastor presbiteriano, ministro de Estado (da Educação!), que foi exonerado por envolvimento em corrupção. Também a famosa “Marcha para Jesus”, em diferentes capitais, em que um personagem político foi exaltado aos gritos de “Mito!” e fez campanha eleitoral. Em uma das edições, uma arma foi exibida em um carro alegórico. E, ainda, o mais alto conclave de uma das igrejas históricas relevantes (a mesma do pastor ministro exonerado) cogitou expurgar fiéis que classifica como “esquerdistas” – e mantém a proibição de mulheres pregarem em seus cultos, assumirem funções eclesiásticas e até servirem a Eucarista.

Diante do desafio de acompanhar e analisar o que simbolizam estes episódios, é preciso também recorrer ao que é silenciado e escondido. Isto é importante para superar a falsa ideia de homogeneidade dos evangélicos – que mais interessa a quem instrumentaliza a religião para fins políticos e interesses espúrios – e para contribuir com a resistência das pessoas e grupos que se esforçam para evidenciar outra perspectiva religiosa e outras ênfases teológicas.

Entre o que não é visível e ruidoso na arena evangélica está a memória. Como sempre repito, acompanho o teólogo Rubem Alves na afirmação de que “a memória é subversiva”. A memória pode trazer à vida esperanças já mortas e transformar o passado em profecia, uma vez que “a visão do paraíso perdido” pode gerar “a expectativa de uma utopia a ser conquistada”.

Inspirada em Rubem Alves, ofereço aos leitores e leitoras um conteúdo subversivo, um passado que pode ser profecia: a memória dos 60 anos da Conferência do Nordeste, realizada em julho de 1962, pela Confederação Evangélica do Brasil.

A Confederação Evangélica do Brasil foi criada em 1934, formada pelas cinco principais igrejas evangélicas do período: Congregacional, Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Independente, Episcopal, Metodista, Evangélica de Confissão Luterana. A CEB desempenhou um papel preponderante na articulação de evangélicos no Brasil, especialmente a partir dos anos de 1950.

Além das questões sociopolíticas que sacudiam o Brasil e as igrejas (desenvolvimentismo, nacionalismo, guerra fria, movimentos sociais), os anos 50 são os de consolidação do Conselho Mundial de Igrejas. Desde seus primórdios o CMI tem como prioridades a unidade visível dos cristãos e a preocupação com sua responsabilidade social. No Brasil, o resultado deste estímulo do CMI foi a criação do Setor de Responsabilidade Social da Igreja da CEB, vinculado ao Departamento de Estudos, também criado no período. O setor foi a ampliação do trabalho iniciado por uma comissão vinculada ao CMI denominada Igreja e Sociedade. 

O Setor de Responsabilidade Social organizou, durante a sua existência (1955-1964), em âmbito nacional, uma consulta e três conferências de estudos, que foram um projeto conjunto de participação efetiva relevante na realidade nacional.

A consulta (1955) adotou um tema, até então, pouco comum ao vocabulário das igrejas evangélicas: “A responsabilidade social da Igreja”. As conferências adotavam temáticas que procuravam acompanhar os grandes temas nacionais como “A Igreja e as rápidas transformações sociais no Brasil” (1957, tempo das metas de JK), “Presença da Igreja na evolução da nacionalidade” (1960, com a efervescência dos debates inspirados pela experiência cubana e a obsessão pelo “novo”) e “Cristo e o processo revolucionário brasileiro” (1962, quando a palavra “igreja” é substituída e o tema repercute na imprensa secular – rádio e TV).

A Conferência do Nordeste ficou assim conhecida por ter sido realizada em Recife, em 1962. Ela é a mais importante reunião até hoje realizada por lideranças evangélicas no Brasil. Com o tema “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”, o evento é considerado o ponto culminante de 20 anos de esforços educativos advindos das ações de diálogo e unidade entre os evangélicos. O local da conferência foi escolhido como símbolo de aproximação com o Brasil da exploração, da miséria, dentro do mundo capitalista e também da esperança, da alternativa política. 

Foi destaque o fato de uma reunião de evangélicos ter também conferencistas não religiosos como Celso Furtado (na época superintendente da Sudene) e pessoas renomadas como Paul Singer e Juarez Rubens Brandão Lopes. Foi o último grande evento da Confederação, fechada poucos anos depois por conta da repressão da ditadura militar que atingiu as igrejas.

O presidente da Conferência do Nordeste foi o bispo da Igreja Metodista Almir dos Santos, e o secretário foi o sociólogo da Igreja Presbiteriana do Brasil Waldo César. Outro presbiteriano de destaque no evento foi o pastor (senador da República nos anos 90) Joaquim Beato, que palestrou sobre “Os profetas em épocas de transformações políticas e sociais”. 

Waldo César relatou: “Os sociólogos presentes acompanham com interesse a descrição da sociedade israelita. Houve certa exclamação no auditório — menos pelo fato em si, do que pela semelhança de situações — quando o preletor disse que ‘os proprietários ricos e os capitalistas novos ricos conseguiam anular o direito de resgate das hipotecas e devoravam homens e terras, mantendo o agricultor na terra como colono ou vendendo-o com sua família com escravo’ (Profeta Amós). A contemporaneidade dos profetas parecia um desafio à nossa fé estática e acomodada”.

Esta memória foi silenciada como efeito do apoio (explícito ou por omissão) da cúpula das igrejas à ditadura militar. São poucos os evangélicos brasileiros que sabem o que representou a Confederação Evangélica do Brasil, seus líderes, as conferências realizadas nos anos 50 e 60 e a perseguição que se seguiu. Porém esta memória permanece viva nos registros da época (estudos acadêmicos, biografias, reportagens, vídeos, relatório da Comissão Nacional da Verdade) e na atuação de pessoas e grupos evangélicos, homens e mulheres, leigos, pastores e pastoras, de várias idades, herdeiros dos princípios e dos conteúdos então desenvolvidos. 

Dos ecos desse passado é que emerge a profecia, nas palavras de Joaquim Beato, o presbiteriano, proferidas em Recife, 60 anos atrás: “Os profetas só tinham compromisso com o Deus que os chamara e enviara, [cujo] propósito era (como ainda o é!), criar comunidade em que sua justiça encontrasse perfeito cumprimento. Que diriam os profetas em nosso tempo? Que fariam os profetas em nosso tempo? Qual o propósito de Deus para com o povo brasileiro? Que testemunho daremos diante da nossa presente ordem social?”

Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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