Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Evangélicos foram alvo privilegiado de mentiras na campanha do 1º turno; veja as principais

O tema da “cristofobia”, o medo da perseguição e do fechamento das igrejas foram os principais temas desinformativos

Bolsonaro e Silas Malafaia. O religioso é considerado um dos principais conselheiros do ex-capitão. Foto: Isac Nóbrega/PR
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Desde as eleições de 2018, chama a atenção que campanhas eleitorais alinhadas ao ultraconservadorismo busquem convencer eleitores cristãos, especialmente evangélicos, de suas pautas, recorrendo à desinformação, na forma de conteúdo falso e enganoso e de pânico moral.

O trabalho realizado pelo Coletivo Bereia, que enfrenta a desinformação por meio de checagem de conteúdo em ambientes digitais religiosos, verificou os principais temas disseminados nestas campanhas em busca do eleitorado cristão.

Das 123 checagens realizadas pelo coletivo em 2021 e 2022, 103 foram relacionadas a eleições e o tema mais recorrente foi “perseguição a cristãos”.

Observa-se a exploração do “terrorismo verbal” em torno da perseguição a cristãos como o tema mais abordado, presente em 26 das matérias de checagem publicadas pelo Bereia. É registrada maior incidência deste tema a partir de agosto de 2021, quando pesquisas eleitorais passaram a mostrar a força da campanha do Partido dos Trabalhadores (PT) e maior rejeição a Jair Bolsonaro. Cresceu, então, o número de publicações verificadas pelo Bereia que enfatizam a ameaça de fechamento de igrejas com a possível vitória das esquerdas, mais supostas tentativas de silenciamento de lideranças religiosas e de diretores de escola e professores cristãos opostos a pautas referentes à diversidade sexual e à pluralidade religiosa.   

A perseguição a cristãos no Brasil, sob o rótulo de “cristofobia”, é uma retórica que afeta o imaginário evangélico do cristão perseguido como prova de fidelidade ao Evangelho. Porém, termo “cristofobia” não se aplica, por conta da predominância cristã no país, onde há plena liberdade de prática da fé para este grupo. Manipula-se, neste caso, a noção de combate a inimigos para alimentar disputas no cenário religioso e político. Isto se configura uma estratégia de políticos e religiosos extremistas que pedem mais liberdade e usam desta expressão para garantirem voz contra os direitos daqueles que consideram “inimigos da fé”, em especial sexuais e reprodutivos e os de comunidades quilombolas e indígenas. 

Bereia é a única iniciativa de fact-checking especializada em religiões, monitora sites gospel e mídias sociais de personagens com identidade religiosa consideradas influenciadoras digitais. O projeto identificou outras cinco abordagens predominantes direcionadas às eleições: tópicos específicos referentes ao pleito (itens de campanha, pesquisas de voto, papel do Tribunal Superior Eleitoral, ataques a candidatos), covid-19, “ideologia de gênero/moral sexual”, Supremo Tribunal Federal (STF), Feitos de Jair Bolsonaro. 

O segundo tema com mais abordagens desinformativas, bem próximo em número de publicações ao da “cristofobia” é a pandemia de Covid-19, com 20 matérias. Desde o início da disseminação do coronavírus, a pandemia foi alvo de desinformação questionadora das medidas de isolamento social, divulgadora de tratamentos preventivos e curativos, acusatória à China e à Organização Mundial de Saúde e opositora à campanha de vacinação. 

É fato que a maior incidência se deu em 2021, em especial durante o período de atuação da CPI da Covid-19. No final daquele ano, com os indícios de um controle da disseminação do coronavírus, o número de publicações diminuiu. No contexto da campanha eleitoral em 2022, o tema ganha nova evidência por conta das críticas à responsabilidade do governo de Jair Bolsonaro com o alto número de mortos e com as sequelas que permanecem entre quem adoeceu e sobreviveu. Apoiadores do presidente produzem conteúdo para rebater as críticas, reacendendo abordagens desinformativas.

Supostos feitos do presidente Jair Bolsonaro são outro tema relacionado à propagação desinformação com forte expressão em espaços digitais cristãos no contexto do pleito de 2022. Foram 19 matérias do Bereia em 2021 e 2022 sobre este assunto. Ele não deveria ter tal destaque, afinal, é próprio de campanhas eleitorais que um presidente em busca de reeleição e ex-presidentes que visam retornar ao poder façam uso da apresentação de seus feitos para convencer.

O que torna o discurso da campanha de Bolsonaro foco de conteúdo falso e enganoso é que ele não é um governante de realizações e de projeto de país. Pelo contrário, é extensa a lista de fracassos de governança, desde desfeitos, como a retirada de direitos e o desastre do enfrentamento da covid-19, a atuações medíocres em suas aparições públicas e na arena diplomática. 

No entanto, durante o mandato do presidente, uma forma de defesa das críticas e de amenização da imagem de péssimo governante (vide os altos índices de avaliação negativa da população em pesquisas de opinião), em especial entre apoiadores (evangélicos e católicos entre eles), é a publicação de conteúdo que apresenta feitos do seu governo. São apresentadas ações positivas nas áreas da economia, de infraestrutura e de direitos de mulheres, principalmente, com manipulação imprecisa e enganosa de dados. Enfrentamento da covid é outro tema que aparece, como mencionado acima. Em 2022, Bolsonaro é também falsamente apresentado como o “Pai do Pix’ (operação eletrônica de transferência de valores popular e gratuita). 

Os tópicos específicos referentes às eleições aparecem em quarto lugar na cobertura do Bereia neste período referente ao pleito 2022. Ataques a candidatos e figuras públicas (em especial relacionados a candidaturas de esquerda, sendo o ex-presidente Lula o mais destacado), falsidades sobre ações do Tribunal Superior Eleitoral e sobre urnas eletrônicas e desqualificação e manipulação de dados sobre pesquisas de opinião e de voto são ênfases das abordagens desinformativas em 21 checagens produzidas pelo Bereia, classificadas como falsas e enganosas. Destas, apenas duas são de autoria de grupos de esquerda.

O já conhecido tema referente a gênero e moralidade sexual (“ideologia de gênero”, aborto, erotização de crianças, “defesa da família tradicional”) é o quinto colocado nas checagens do Bereia em 2021 e 2022, com 11 matérias. Eles têm um apelo permanente em ambientes religiosos pois conteúdo que envolva “sexo” e “sexualidade” afeta o imaginário dos cristãos e provoca muitas emoções. 

É fato ainda que os avanços nas políticas que garantem mais direitos às mulheres e a LGBTI+, e ampliam a participação destas populações no espaço público, causam desconforto às convicções e crenças de grupos que defendem, por meio de leituras religiosas, a submissão das mulheres e a cura dos LGBTI+. Uma moralidade ressentida.

A “ideologia de gênero” é uma invenção católica dos anos 2000, abraçada por evangélicos, a partir da rejeição à categoria científica “gênero”, que questiona os papéis sociais binários estabelecidos a homens e mulheres e negam orientações sexuais diversas. Em unidade estratégica contra os avanços na justiça de gênero a mulheres e LGBTI+, católicos e evangélicos se juntaram a grupos políticos obscurantistas que criam obstáculos a estas pautas sociais e espalham o medo. A base do discurso é a defesa da família.

Estas abordagens em torno da moralidade sexual, contra a justiça de gênero, foram base das campanhas eleitorais de 2018 e 2020. No pleito municipal foi acionado novamente para impor medo e controlar eleitores que tendiam a dar votos a candidatos de esquerda, em especial no segundo turno das eleições municipais (casos mais expressivos do Rio de Janeiro e de Recife).

A moralidade sexual ocupar a quinta colocação, indica que este é um tema que não desaparece, mas não foi o foco da desinformação nas eleições 2022, diferentemente do que ocorreu em 2018. Isto pode explicar o tema da “cristofobia”, o medo da perseguição e do fechamento das igrejas, que são porto seguro para muitas pessoas diante das dificuldades da vida, estar estrategicamente alocado em primeiro lugar entre os temas desinformativos propagados nestas eleições 2022.

Na arrancada da campanha pelo segundo turno, quando este artigo está sendo redigido, já se percebe uma intensificação deste tema. Isto indica o lugar do recurso ao pânico moral numa disputa oficialmente polarizada.

O velho temor do comunismo e do marxismo permeia todos os cinco principais temas citados acima. É utilizado como base para a ideia de perseguição a cristãos, como explicação para a China ter supostamente criado o coronavírus em laboratório. O seu enfrentamento é colocado como motivação para as ações do governo Bolsonaro e como justificativa para a suposta tentativa de alteração de resultados nas urnas eletrônicas. Comunismo e a noção inventada de “marxismo cultural” são apresentados como fundamento para a constituição da “ideologia de gênero” e da doutrinação de crianças e jovens por professores em escolas.

Para concluir, é importante reafirmar que o uso de desinformação para convencer não é novidade eleitoral. O que se faz novo no contexto na escalada ultraconservadora que se espalhou pela Europa, pelos Estados Unidos e pela América Latina as partir dos anos 2010 é a intensificação da desinformação como estratégia política que aposta na identificação com certos temas produzida, seja pela fragilidade promovida por mazelas da vida, seja pela ingenuidade de uma parcela de fiéis cristãos em disputas de poder dentro e fora de contextos eleitorais.

* Uma versão deste artigo foi publicada pelo Observatório das Eleições

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