Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

Comunismo e nazismo não se equivalem nem na forma, nem no conteúdo

Sempre desconfie desses falsos defensores do liberalismo

Fotos: Reprodução TV Câmara e Youtube
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O grave episódio envolvendo o ex-apresentador do podcast Flow Monark suscitou um amplo debate público sobre muitas camadas que constituem o que considero ser um problema concreto e grave em termos sociais e políticos. Eu vou lidar apenas com duas delas.

A primeira diz respeito à falsa equivalência feita tanto pelo ex-apresentador quanto pelo deputado federal Kim Kataguiri na ocasião: a ideia de que nazismo e comunismo se equivalem. Logo, se há partidos e nenhum tipo de restrição para a livre manifestação de posições comunistas, por força da coerência e da justiça, nazistas deveriam gozar das mesmas prerrogativas. Trata-se de um falso dilema. No limite, de uma opinião desapegada do conhecimento e do bom senso.

Comunismo e nazismo não se equivalem nem na forma, nem no conteúdo. Comunismo não pode ser confundido com sua experiência histórica, ou seja, com regimes autoritários que promoveram um morticínio em massa ao longo do século 20 em diferentes regiões do planeta. A utopia comunista é uma formulação teórica e filosófica de Karl Marx. Na filosofia marxiana, trata-se do fim da história. O último estágio de um processo inexorável que começaria com a degradação em fome e miséria do sistema produtivo capitalista (que como qualquer outro sistema de produção carregaria em si o germe da sua própria destruição) passaria provisoriamente por um Estado socialista que, enfim, daria lugar a uma forma de organização social livre de divisões por classes sociais, propriedade privada e distribuição social do trabalho.

Ou seja, o comunismo, como filosofia, nasce muito antes de suas experiências históricas. Caso alguém queira defender o comunismo como ideal, isso é plenamente possível sem recorrer a defesas de qualquer regime que se pretendeu comunista. Não é o caso do nazismo.

O nazismo não é um doutrina que antecede aqueles que a puserem em prática na Alemanha. O nazismo é uma doutrina supremacista que carrega em seu cerne a ideia de existência de raças humanas e uma escala hierárquica entre elas. Prega a inferiorização e dizimação de determinados grupos sociais. O nazismo é, na forma, na prática e no conteúdo exatamente aquilo que suas experiências históricas realizaram. Aqueles que inventaram o nazismo foram os que o colocaram em prática.

Portanto, comunismo versus nazismo é tão e somente um falso paradoxo de muita utilidade política.

E aqui passo à segunda camada da questão. Monark e Kataguiri revestiram a defesa de uma legalidade do nazismo e de partidos nazistas usando uma falsificação da ideia de liberdade de expressão: a defesa de que essa liberdade deveria ser irrestrita. Para variar, uma falsa defesa do liberalismo, afinal, como esta coluna cansa de insistir, a doutrina liberal é uma doutrina filosófica antiabsolutista, logo, nasce defendendo não um regime de liberdades irrestritas, mas de liberdades moderadas por princípios básicos, como os direitos humanos, as garantias individuais e a dignidade humana desde ao menos desde o jusnaturalismo.

No entanto, não deixa de ser “curioso” como a defesa desse regime de liberdades irrestritas sempre aparece a serviço não da defesa dos direitos, garantias e da dignidade alheia, mas de grupos que atentam contra minorias políticas. Monark já havia feito a defesa desse princípio anteriormente e vejam que curioso: defendia o direito do sujeito ter “opiniões racistas”. Não falha nunca. Sempre desconfie desses falsos defensores do liberalismo. Eles nunca vêm a público defender alguma barbaridade de grupos oprimidos contra seus opressores. É sempre a defesa do direito de oprimir dos que sempre oprimiram.

Para encerrar, o mais importante: a discussão enfadonha que se seguiu sobre Monark e Kataguiri serem ou não serem nazistas. Um desserviço ao que esse episódio deveria ensejar no debate público. Não importa se esses caras são nazistas ou não. A própria discussão sobre o apoio massivo do povo alemão ao nazismo já abarca o fato de que o sujeito não precisava ser uma reprodução de Adolf Hitler para dar legitimidade moral ao nazismo. Tá tudo lá em Hannah Arendt. Basta ler.

O problema é que o nazismo não é apenas praticado por grupos que só fazem crescer no Brasil, mas já encontra defensores de suas existência e legitimidade em praça pública. É isso que esse episódio revela. E é exatamente aí que reside o grande problema.

Monark nasceu do mundo dos games online. Um universo que abriga um contingente extraordinário de pessoas que encontram líderes de opinião que “filtram” conteúdos políticos para lhes dar sentido em suas redes sociais. Falei a respeito disso na coluna passada. Então, fica a questão que, para mim, é primordial: com quem esses “Monarks” conversam? Para quem falam? A quantos chegam? O quão sedimentado em determinados grupos de opinião não está a ideia de que o nazismo ou qualquer outra doutrina segregacionista e bárbara deve ter seu direito de existir?

O nazismo não começa com a tomada do poder pela turma de Hitler. Começa pela naturalização da barbárie que lhe dá estofo político, ideológico e social. E o Brasil já vem num processo relativamente longo dessa naturalização. Basta olhar para os quase 58 milhões que nos deram essa presidência que aí está e o conforto de um comentarista político que faz um sieg heil ao vivo sem qualquer constrangimento. Definitivamente, não estamos falando de um problema que se resolverá tão e somente no livre mercado de ideias e opiniões. É preciso de mais.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Camilo Aggio

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