Evangélicos, desarmem-se

Mais um terreiro de candomblé foi destruído em nome de Jesus. É hora de amansar os espíritos

Centro Espírita Caboclo Pena Branca (Foto: Whatsapp)

Centro Espírita Caboclo Pena Branca (Foto: Whatsapp)

Diálogos da Fé,Opinião

*Este artigo foi produzido em parceria com Fábio Py, doutor em Teologia e professor da Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF

No fim de março recebemos a notícia de que mais um terreiro de candomblé foi destruído na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro.

O terreiro havia sido invadido no ano passado e impedido pelo tráfico de drogas de fazer qualquer tipo de manifestação religiosa. A ordem foi atendida, mas, mesmo assim, a casa foi tomada novamente e os religiosos, desta vez, foram expulsos pelos traficantes.

Pelas mídias noticiosas vemos fotos que registram grande violência: destruição de utensílios sagrados, de altares, e o destaque da pichação no muro do terreiro: “Jesus é o dono do lugar”.

Estas práticas de violência contínua contra terreiros (foram 30 ataques só na Baixada Fluminense em 2018), algumas com a marca do nome de Jesus, têm revelado que o abuso se relaciona com o protestantismo evangélico.

Sem a intenção de discutir se os traficantes são ou não evangélicos, esta reflexão, antes, se propõe a perguntar que cristianismo é esse recebido por esses adeptos ou simpatizantes, que os leva a praticar tamanha brutalidade contra adeptos de outra religião.

Observa-se aí uma prática fundamentalista. O fundamentalismo tem sua origem nos Estados Unidos, no início do século XX, quando um grupo de evangélicos batistas e presbiterianos escreveram um conjunto de panfletos e livros chamados “Os fundamentos” da fé cristã.

Eram, naquela perspectiva, os pontos básicos do cristianismo, isto é, seus fundamentos, considerados a “verdadeira religião”.

A fé não pode ser instrumento de ódio (Foto: ABr)

Quem seguia os pontos dos panfletos passou a se autodesignar fundamentalista e, basicamente, defendia que a Bíblia seria um livro “inerrante” e, portanto, deveria ser lido sem qualquer mediação, ou seja, “ao pé da letra”.

Era, de fato, uma forte reação à emergência das ciências humanas e sociais, que, a partir do século XIX, passam a contribuir com a leitura bíblica contextualizada.

O Brasil recebeu uma leva de fundamentalistas evangélicos no fim da década de 1920. Com ímpeto missionário renovado, apresentavam novo vocabulário de desprezo às diferentes expressões culturais e às diversas práticas religiosas do País.

Teologia da Prosperidade

O movimento tomou novo fôlego durante a ditadura, se renovou, e passou a embasar a vertente evangélica pentecostal com a chamada “Teologia da Prosperidade”.

Por meio desta noção, prega-se que as bênçãos de Deus, na forma de prosperidade material (posse de finanças, saúde e felicidade na família), são concedidas aos fiéis que se empenham nas práticas de devoção aliadas às ofertas em dinheiro às igrejas.

A estas também é destinada a prosperidade por meio de amplo número de fiéis, ocupação geográfica, aquisição de patrimônio e influência no espaço público.

Estudiosos da religião indicam que é uma relação de troca com Deus bem própria do clima social estabelecido pelo mercado neoliberal.

 

O avanço da teologia da prosperidade trouxe consigo novos significados para a noção de guerra espiritual. É uma antiga vertente de fé cristã que compreende que os crentes travam guerras constantes contra os inimigos de Deus (ateus, outras religiões, poderes políticos), com armas espirituais da oração, do jejum, da consagração por meio do culto.

No presente, a ênfase nas bênçãos de Deus relacionadas restritamente a elementos materiais e à posse tem se somado à ideia de se identificar inimigos entre cidadãos e grupos religiosos e políticos de que discordam. Canções gospel e pregações midiáticas são disseminadas com conteúdos que reforçam esta noção: “Pisa na cabeça do inimigo”, “toma posse de tudo o que é teu”.

Estátua de Lutero, precursor da Reforma Protestante. Ele defendia outra visão da religião (Foto: Pixabay)

Dessa compreensão de fé vem a ideia da territorização cristã, marcada com a inscrição do nome de Jesus em terreiros de candomblé destruídos.

Um símbolo da tomada de posse de um local sagrado e do próprio espaço público, como uma higienização das periferias por meio do que se considera “a verdadeira religião”.

É possível afirmar que as numerosas modalidades de movimentos fundamentalistas nas diferentes épocas dificultam a possibilidade de um protestantismo evangélico não belicoso.

Assistimos neste momento no Brasil não apenas estes casos mais restritos de grupos que atuam na destruição de terreiros, mas um amplo apoio ao presidente recentemente eleito com um discurso de ódio a discordantes e de eliminação de oponentes por meio do uso de armas de fogo.

Desafio

Um caminho de superação deste quadro preocupante e desolador pode ser um desafio aos evangélicos que não compartilham destas práticas e destes discursos.

Não são poucos. Ele deve se dar na própria leitura da Bíblia, tão cara aos evangélicos, com ênfase desde a amplitude inclusiva da criação de Deus (Gênesis) às ações amorosas e misericordiosas de Jesus diante das diferenças (Evangelhos), contextualizando de forma crítica as narrativas violentas também contidas, tão usadas para justificar brutalidades e discriminações.

Isto pode ajudar na construção de uma agenda de diálogo entre as religiões e no desarme do cristianismo brasileiro frente ao diferente.

Não basta aos evangélicos mansos e pacificadores pedirem desculpas aos religiosos dos terreiros, mas exercerem uma atuação pela conversão/transformação dos irmãos evangélicos belicosos para que se desarmem.

Este tempo da Páscoa/Passagem da Morte para a Vida parece ser um momento oportuno.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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