O neoliberalismo seletivo de Bolsonaro

Governar é, entre outras coisas, arbitrar sobre questões do interesse nacional, o que significa, muitas vezes, gerir interesses setoriais

Paulo Guedes

Paulo Guedes

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Alçado à condição de superministro, o papel de Paulo Guedes era claro: a execução radicalizada da pauta neoliberal.

Ao Posto Ipiranga coube liberar geral: a retirada do Estado da cena econômica, o esvaziamento de políticas sociais, privatização, sucateamento dos serviços públicos e desmanche de direitos trabalhistas e previdenciários, sob a promessa de que o mercado atenderia essas demandas e restabeleceria a economia.

Entre tantas medidas herdadas, já tomadas e em curso, estão a reforma da Previdência, por meio da adoção da capitalização individual, e a manutenção da indexação do preço dos combustíveis ao preço do barril de petróleo no mercado internacional.

O eleitorado, iludido e identificado com a retórica antissistema, beligerante e persecutória, não reparou que os serviços públicos, os direitos trabalhistas e a aposentadoria estariam seriamente ameaçados.

A sedução da barbárie redentora obscureceu a precarização da própria vida. Eleitores contra si mesmos. Vencida a eleição, parecia fácil: bastaria distrair a plateia com obscenidades virtuais e polêmicas fúteis, esperando que o parlamento aderisse gratuitamente ao rolo compressor neoliberal, retirando-nos o pouco de cidadania que nos resta. Esqueceram-se do quanto custou a Temer aprovar a reforma trabalhista.

Mas a queda da aprovação registrada pelo Ibope e Datafolha mostrou que nem todas as questões se resolvem com bravatas de Twitter.

Governar é, entre outras coisas, arbitrar sobre questões do interesse nacional, o que significa, muitas vezes, administrar interesses setoriais divergentes.

Mesmo assim, refém de likes e da aprovação dos seus seguidores, o presidente insistiu no jogo cênico do populismo, incorrendo num neoliberalismo seletivo que divertiu a esquerda e a direita: poupou os militares da reforma da Previdência e os caminhoneiros do aumento do preço do combustível.

Os primeiros, por corporativismo. Os segundos, por covardia ante a ameaça iminente de paralisação de um país movido a diesel. O neoliberalismo seletivo consiste em canetadas pontuais aleatórias, sem uma política ou coerência gestora que as justifique, poupando um ou outro segmento da devassa liberal conforme o humor das redes sociais e da opinião pública que as move.

Aos militares, a manutenção de direitos previdenciários diferenciados (aliás, precisamos falar das pensões vitalícias para filhas de militares. Não era para acabar com a mamata e cortar privilégios?).

Aos caminhoneiros, particularmente às suas patronais organizadas, diesel congelado. À população em geral, a capitalização privada, sem se saber quanto se receberá ao se aposentar, e a gasolina indexada, com preço condicionado às variações de mercado.

O neoliberalismo seletivo contém contradições inexplicáveis: é o Estado que blinda e que condena, que liberaliza e que protege, que outorga ao mercado e que atua com ator econômico.

O neoliberalismo seletivo concilia capital aberto com intervencionismo estatal, perdas bilionárias de valor de mercado com favorecimento setorial. Acionistas enfurecidos com caminhoneiros acalmados.

Num governo em que, definitivamente, a coerência não é seu forte, o neoliberalismo seletivo é uma “inferência razoável”, como diria o desautorizado Paulo Guedes, cada vez mais impedido de ser o Posto Ipiranga do presidente que orgulhosa e declaradamente não entende nada de economia.

 

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