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Novembro Negro: até onde as marcas se comprometem com a pauta racial?

Por trás da publicidade aparentemente comprometida, as marcas seguem empenhadas em enfraquecer ou barrar iniciativas que beneficiariam, sobretudo, a população negra

Foto: iStock
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Vinte de novembro, data do assassinato de Zumbi, líder do quilombo dos Palmares, em 1695, entrou para o calendário nacional de efemérides como Dia da Consciência Negra. E já há alguns anos, a campanha Novembro Negro chama atenção para a luta contra o racismo e as desigualdades sociais. Nesse cenário, refletimos sobre as questões levantadas por um relatório recentemente lançado pela ACT Promoção da Saúde. A provocação começa com o título: ‘Blackwashing, as corporações estão engajadas na pauta racial?’

O estudo surgiu da percepção da apropriação da agenda antirracista por indústrias que lucram com a venda de alimentos ultraprocessados, tabaco e álcool – produtos associados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs). Sob a mesma sigla se agrupam doenças como diabetes, insuficiência cardiorrespiratória e diversos tipos de câncer, entre outras, que já representam a maior causa de morte em todo mundo com acentuada prevalência entre a população negra.

Por trás da publicidade aparentemente comprometida, se escondem estatísticas dramáticas levantadas, por exemplo a edição de 2019 da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). De acordo com o estudo, o percentual de negros que consome grandes porções de ultraprocessados e quase o dobro na comparação com indivíduos brancos. Vale ressaltar que, segundo outro estudo da Fiocruz, os ultraprocessados respondem, todo ano, pela morte de 57 mil brasileiros, entre 30 e 60 anos.

A mesma tendência observamos em relação ao tabaco e ao consumo abusivo de álcool. A PNS também revela que incidência de tabagismo entre pretos e partos chega a 26% contra 11% entre brancos. Enquanto o levantamento do VIGITEL de 2018 revela o uso abusivo de bebidas alcoólicas: 19% entre homens negros 16% de homens brancos, de 12% para mulheres negras e 9% de mulheres brancas.

A herança de três séculos de escravidão pesa diretamente sobre a qualidade de vida dessa parcela da sociedade. Numa realidade em que a cor da pele determina o local de moradia e o acesso a serviços de saúde e hábitos saudáveis, a população negra adoece e morre mais precocemente, por vezes, sem qualquer tipo de assistência.

O racismo estrutural e cotidiano, a violência do Estado, o desemprego e miséria atuam como importantes gatilhos para favorecer comportamentos deletérios, como fumar ou fazer uso abusivo de álcool. Da mesma forma, dificultam sobremaneira a adoção de um estilo de vida mais saudável, por meio de uma alimentação adequada e de uma rotina de atividade física.

Depois de expor a gravidade da situação, vamos à contextualização do fenômeno que vimos chamando de Blackwashing. Com a repercussão do movimento Black Lives Matter, observamos como a questão racial passou a ser inserida no discurso de grandes corporações.  Por toda parte surgiram campanhas direcionadas ao consumidor negro.

Observamos, ainda, a ampla divulgação de ações de responsabilidade social tendo como alvo o mesmo público. Mas, paralelamente, as marcas seguem empenhadas em enfraquecer ou barrar políticas públicas voltadas para a promoção da saúde, iniciativas que beneficiariam, sobretudo, a população negra. O caso mais recente talvez seja a atuação de alguns setores contra a proposta de criação do imposto seletivo sobre ultraprocessados no bojo das discussões sobre a reforma tributária.

Cabe perguntar ainda como anda a questão racial dentro dessas empresas? O tema vem sendo incorporado nos objetivos ESG (do inglês Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança) de diversas marcasNo entanto, a utilização de métricas próprias e pouco embasadas dificulta a comparação entre os pares e a avaliação da efetividade das ações. Além disso, a divulgação dos resultados se dá de forma voluntária comprometendo a transparência sobre o que vem ou não à tona.

Vale ressaltar, ainda, que parte das metas têm origem em conceitos trazidos pela branquitude. A presença de pessoas negras nesses espaços pode simplesmente cobrir de nova roupagem o mito da democracia racial quando desconhecemos as posições hierárquicas, as condições de trabalho e autonomia, e, ainda, os objetivos dessas contratações. Ou seja, um olhar atento sobre a situação, suscita a dúvida: existe um compromisso com o alcance da equidade racial ou estas ações são apenas para maquiar um compromisso inexistente? São apenas blackwashing?

Reconhecemos a importância de assegurar e ampliar a visibilidade da luta antirracista tanto para representatividade da população negra quanto para debater questões relevantes e urgentes. Por outro lado, não dá para fechar os olhos para o fato de que corporações lucram com a venda de artigos nocivos e mantêm uma cadeia produtiva que impacta negativamente quem vive à margem da sociedade.

O caminho para a equidade racial passa, necessariamente, pela articulação entre políticas de saúde, ações de combate ao racismo e de redução de desigualdades. Um percurso longo a ser percorrido de forma estratégica com a união entre poder público, movimentos sociais e organizações da sociedade civil comprometidas com a redução das desigualdades.

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