Política
Neutro na eleição, “Centrão” ensaia adesão a um governo Lula 4
A neutralidade dos partidos do bloco foi o movimento mais relevante da eleição até agora, avalia um ex-ministro
Gilberto Kassab, vice na chapa presidencial de Ronaldo Caiado, disse a uma plateia de empresários que os partidos do dito “Centrão” estão com Lula, apesar da posição oficial de neutralidade. No lulismo, há quem vá além e revele os planos do “Centrão” para o caso de reeleição do presidente. “Eles querem estar no governo Lula 4”, avalia um articulador político do Palácio do Planalto.
Republicanos, União Brasil e PP são as principais legendas do “Centrão” e decidiram não apoiar nenhum presidenciável. O MDB, que a depender do gosto do freguês pode ser enquadrado no mesmo grupo político, também não se aliou a ninguém. “A neutralidade dos partidos de Centro foi o movimento mais relevante da eleição até agora”, diz um ex-ministro de Lula.
Ficar livre na campanha facilita a adesão a um novo governo Lula. Seria mais difícil explicar ao eleitorado e à opinião pública como uma legenda que estivesse coligada a Flávio Bolsonaro (PL) pularia no dia seguinte direto para a canoa petista. “A política é como o mercado financeiro, se move por expectativas”, afirma o ex-ministro.
A expectativa, no caso, é a de vitória de Lula. No “mercado”, um figurão, o banqueiro André Esteves, do BTG, tem comentado a portas fechadas que ainda virá chumbo grosso contra Flávio na campanha, o que deixará o senador em situação ainda mais complicada para vencer. “Eleição é sempre difícil. O Flávio é o pior candidato possível, sorte a nossa”, comenta o ex-ministro.
Republicanos, União Brasil e PP namoraram a candidatura do senador. O MDB não chegou a tanto. Os quatro tiveram ministérios com Lula. Não podiam ser considerados governistas, porém, devido a rachas internos e interesses regionais diferentes. Neutros, o tempo de propaganda eleitoral na TV a que cada um teria direito foi rateado entre os candidatos. Se apoiassem um presidenciável, esse tempo seria só dele.
Dois petistas negociaram essa neutralidade: José Guimarães, ministro da articulação política do Planalto, e Edinho Silva, presidente do PT e chefe da campanha de Lula. Ao primeiro, coube atuar no Congresso. Ao segundo, perante as direções nacionais dos partidos e em costuras de palanques estaduais.
O resultado das negociações não se limitou à neutralidade
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, declarou apoio à reeleição de Lula. Ele é do Republicanos, partido aliado de Jair Bolsonaro em 2022 e de onde Flávio queria ter pinçado como vice a economista Daniella Marques.
O comandante do Senado, Davi Alcolumbre, esteve com Lula três vezes em uma semana e, enfim, deixou que avancem três propostas de interesse do governo: a redução da jornada de trabalho (fim da escala 6 por 1), a ampliação dos poderes federais no combate ao crime (PEC da Segurança Pública) e a criação de uma política nacional para minerais críticos.
Alcolumbre é do União Brasil, partido que em 2022 já havia ficado neutro na eleição, mas que durante o governo Lula juntou-se ao PP, legenda apoiadora de Jair Bolsonaro na campanha passada.
Lula ficou três meses sem falar com Alcolumbre por causa da derrota imposta pelo Senado no fim de abril à indicação de Jorge Messias, o advogado-geral da União, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre queria o senador Rodrigo Pacheco na Corte, e havia feito uma aliança com o bolsonarismo contra Messias. Parecia naquele momento apostar em Flávio Bolsonaro na eleição.
Tanto Alcolumbre quanto Motta desejam eleger-se novamente presidentes das duas casas legislativas, na disputa marcada para fevereiro do ano que vem. Uma boa relação com o governo pode ajudar, embora ambos tenham chegado aos cargos graças à força das “emendas parlamentares”, fonte de poder do “Centrão”.
Antes da aparente reconciliação entre Lula e Alcolumbre, um ministro do governo dizia em conversas reservadas que o petista trabalharia contra a reeleição a presidente do senador. E agora?
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