Política
Anúncio de Alfredo Gaspar na vice é o epílogo do isolamento de Flávio Bolsonaro
O deputado pouco acrescenta à campanha, diz cientista político. A confirmação acontece após partidos do Centrão fecharem a porta à candidatura do PL
O anúncio do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente de Flávio Bolsonaro (PL) é o epílogo da busca fracassada por uma coligação que rendesse à chapa capilaridade política e mais tempo de propaganda na televisão e no rádio. O Centrão de Republicanos, PP, União Brasil e outras siglas fechou as portas ao senador e forçou o PL a recorrer a uma composição puro-sangue.
A cerimônia de confirmação de Gaspar, realizada em Brasília nesta quarta-feira 5, começou com uma pretensa ode às mulheres, durante a qual Flávio elencou algumas de suas principais aliadas, entre elas as senadoras Damares Alves (Republicanos-DF) e Tereza Cristina (PP-MS), ambas integrantes de partidos que preferiram não se unir ao “zero um”.
A certa altura, Flávio disparou: “Fiz duas filhas exatamente para isso: quando ficar velhinho, vou ter quem tomar conta de mim”. Continuou, porém, a alimentar a expectativa de que anunciaria uma mulher para vice. Em vão.
Para o cientista político Rui Tavares Maluf, Gaspar pouco acrescenta à campanha. O senador Rogério Marinho (PL-RN), cotado para vice até a manhã desta quarta, teria mais trânsito em Brasília e conhecimento das contas públicas, por exemplo.
“Não acredito que isso vá mudar coisíssima alguma para melhor do ponto de vista de suas perspectivas políticas”, diz Maluf. “Se Flávio tiver de ser protagonista, chegando ao segundo turno, Gaspar não tira nem acrescenta nada, porque já é uma figura que orbita mais ou menos nesse segmento.”
Ou seja: o voto bolsonarista, por óbvio, já estará assegurado. A ideia de ampliar seu arco de eleitores era o que mantinha a campanha de Flávio obcecada por uma vice como Tereza ou a deputada Renata Abreu (SP), presidente do Podemos — outro partido que resolveu não embarcar no turbulento voo do senador.
O cálculo é pragmático, justificado pela constatação de que Lula (PT) lidera a eleição entre as mulheres. Duas pesquisas publicadas nesta quarta-feira reforçam a tendência:
- Quaest: Lula 47%, Flávio 35%
- Ideia: Lula 55%, Flávio 34,5%
Segundo Maluf, dois fatores principais conduziram ao afastamento entre o Centrão e a candidatura de Flávio: a prudência diante de investigações policiais e o foco na disputa pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. “Tendo bancadas grandes, para esses partidos fará menos diferença se Lula será reeleito ou se eventualmente Flávio virá a ser o próximo presidente.”
Pode haver também, de acordo com o cientista político, uma espécie de wishful thinking de siglas de “centro”: e se um expoente da chamada terceira via desbancar Flávio? Ronaldo Caiado (PSD), por exemplo, tem um partido robusto, cujo presidente nacional é seu postulante a vice. “Para esses partidos, portanto, vale a pena esperar.”
Flávio Bolsonaro demonstra resiliência nas pesquisas, com certa recuperação após sucessivos episódios de desgaste na pré-campanha. Ainda assim, os partidos do Centrão se mostraram receosos ante a possibilidade de novos escândalos, cautelosos sobre os cenários locais — Ciro Nogueira (PP-PI) se reelegeria no Piauí subindo ao palanque do PL? — e de olho no poder cada vez maior das grandes bancadas no Congresso.
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