Política

A ‘última dança’ de Lula, que começa neste domingo, será antissistema?

A campanha decidiu recontar a trajetória do presidente aos eleitores mais jovens, que veem o PT como o establishment

A ‘última dança’ de Lula, que começa neste domingo, será antissistema?
A ‘última dança’ de Lula, que começa neste domingo, será antissistema?
O presidente Lula na convenção nacional do PT em 2 de agosto de 2026. Foto: Miguel Schincariol/AFP
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Eleições 2026

É comum no futebol o uso da expressão em inglês the last dance — a última dança — para se referir à derradeira participação de um craque em uma Copa do Mundo. Foram os casos de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo em 2026, por exemplo. Também neste ano, o maior vencedor de eleições presidenciais no Brasil escreverá seu epílogo nas urnas.

Em busca do quarto mandato, um feito sem precedentes na história brasileira, Lula dá o pontapé inicial em sua campanha neste domingo 16 no Estádio Municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista — a famosa Vila Euclides. Não por acaso, o PT chama o ato de “Onde tudo começou”, em referência a um espaço que simboliza o enfrentamento à ditadura, o trabalho pela redemocratização e a projeção de Luiz Inácio Lula da Silva como liderança política e popular.

A profunda relação entre Lula e a Vila Euclides é tema de uma reportagem de Carlos Minuano publicada na edição impressa desta semana de CartaCapital, também disponível para assinantes em versão digital, neste link.

Em suas três vitórias até aqui, Lula se adaptou ao zeitgeist, o espírito da época: direcionou sua artilharia às crises sob Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e acalmou o mercado financeiro em 2002; aproveitou-se da popularidade e de sólidos indicadores econômicos para driblar o desgaste do chamado “mensalão” e pregar a continuidade em 2006; e desconstruiu Jair Bolsonaro (PL) ao expor o aumento da pobreza, o negacionismo na pandemia e a ameaça à democracia em 2022.

Agora, o petista chega à sua última disputa nas urnas com o bônus e o ônus de mais quatro anos no poder. Terá de enaltecer conquistas desde 2023, ao mesmo tempo em que deverá apresentar um discurso para o futuro e recontar sua própria história.

Reapresentar a trajetória do presidente será, de fato, uma das estratégias petistas nos próximos dois meses. Uma pessoa de 24 anos, por exemplo, nasceu e cresceu em um Brasil governado na maior parte do tempo pelo PT, com três mandatos de Lula e um e meio de Dilma Rousseff. Para parte dos eleitores jovens, portanto, Luiz Inácio é o próprio sistema, percepção que a campanha tentará mudar ao exibir o Lula que superou uma infância de pobreza, o Lula metalúrgico e líder sindical, o Lula que não cedeu a apelos por arrocho fiscal, o Lula que enfrentou por 580 dias uma prisão reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal como injusta.

Essa tática entrou em ação em 26 de julho, com o lançamento do Clipe do Silva, um jingle baseado no famoso Rap do Silva, de MC Bob Rum. “Tentaram derrubar, tentaram lhe calar, enfrentou o sistema, fez o povo prosperar”, diz um trecho da nova música.

Para Jorge Chaloub, professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ, essa escolha da campanha pode ajudar Lula a crescer entre eleitores jovens, especialmente homens. Serviria para abrir diálogo com trabalhadores de aplicativos.

“Esse não será o público preponderante de Lula, mas se ele conseguir crescer ali, aumentará muito a chance de ganhar a eleição”, diz Chaloub.

Não significa, segundo o professor, que a campanha estará mais à esquerda: a tentativa será aproximar Lula dos trabalhadores como alguém que “ralou” e venceu. Daí a escolha pelo Rap do Silva, com um ritmo popular a reforçar a imagem do pai de família trabalhador, de “mais um” que superou as adversidades e chegou longe.

“É a ideia de Lula como aquele que conseguiu vencer pelo próprio esforço”, resume Chaloub. “E isso dialoga com o eleitorado de dois a cinco salários mínimos — em que Lula vai mal, sobretudo entre homens.”

Josué Medeiros, cientista político e professor da UFRJ, diz que relatar a história de Lula vai além de uma estratégia de comunicação e se liga a mobilizações atuais, como a defesa de direitos para motoristas de aplicativos, o fim da escala 6×1, e as bandeiras em defesa das mulheres e da juventude.

Essa dimensão pessoal, no entanto, será apenas um dos eixos da campanha.

Apenas quatro anos se passaram desde o embate entre Lula e Jair Bolsonaro (PL), mas muito mudou no País. O horror do negacionismo na pandemia, a fila do osso e a ameaça constante de golpe de Estado não pairam mais sobre as urnas. Além disso, o candidato do PT não é apenas pedra, mas vidraça: estarão em disputa as soluções que ele prometeu para os retrocessos sob Michel Temer (MDB) e Bolsonaro.

Lula enfatizará a criação do Desenrola, a isenção de Imposto de Renda para quem recebe até 5 mil reais e o avanço do fim da escala 6×1 — esta, ainda no aguardo da votação no Senado. Ao contrário de 2022, a pauta internacional também estará presente como um potencial trunfo do presidente, em meio às agressões e às ameaças de Donald Trump contra o Brasil.

“Na última eleição o tema era que Bolsonaro não tem compromisso com a democracia. Lula era o candidato da democracia, e isso foi mobilizado”, relembra Chaloub. “Agora, até mais presente do que isso, estará o discurso de que Flávio Bolsonaro é o candidato de Trump, é o candidato que quer entregar o Brasil.”

Lula, neste contexto, se apresentará como o chefe de Estado em defesa da soberania brasileira, em contraposição a um adversário e uma família que tachará de entreguistas e subservientes aos norte-americanos. Também fará de Jair uma figura presente na campanha, recuperando ao menos parte da agenda que impulsionou a vitória do PT em 2022. Apenas isso, porém, não será suficiente.

“Não basta fazer a campanha só na negativa, explorando a rejeição a Flávio Bolsonaro”, arrisca Josué Medeiros. “Isso tem de vir depois da construção de uma mensagem positiva — e Lula resolveu fazer a partir da memória, do começo como sindicalista.”

O presidente iniciará sua “última dança”, portanto, olhando para trás — para a Vila Euclides — em busca do fôlego de estruturar uma mensagem para o futuro, com o desafio de se reapresentar, após três mandatos, como um político conectado aos desafios de nosso tempo. A campanha eleitoral começa para valer.

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