Justiça

Além de Weverton, Dino cita “parlamentares federais” em decisão sobre escândalo no Maranhão

O relator no STF retirou o sigilo de parte do processo. Os autos mencionam diálogos entre o senador e um ministro do STJ

Além de Weverton, Dino cita “parlamentares federais” em decisão sobre escândalo no Maranhão
Além de Weverton, Dino cita “parlamentares federais” em decisão sobre escândalo no Maranhão
O ministro do STF Flávio Dino em 9 de setembro de 2025, no julgamento da trama golpista. Foto: Evaristo Sá/AFP
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O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino é o relator de uma investigação a citar, entre muitos outros personagens, o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e o ministro do Superior Tribunal de Justiça Humberto Martins. O pano de fundo é a apuração de um homicídio em São Luís (MA).

Em uma de suas decisões, Dino afirma que “em vários desses fatos há indícios da participação de parlamentares federais, com foro no STF”. Não menciona, porém, outros congressistas além de Weverton.

A Polícia Federal trabalha para identificar se o senador tentou interferir na tramitação do inquérito, que determinará as circunstâncias do assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, em 2022, em meio a uma reunião da qual chegou a participar o atual presidente do Tribunal de Contas maranhense, Daniel Brandão. Ele é sobrinho do governador Carlos Brandão (MDB), que, por sua vez, é apontado pela PF como “provável líder da organização criminosa ora investigada”.

Não se trata, ao menos até este momento, de comprovação de culpa. As diligências ainda estão em curso, incluindo quebras de sigilo e a consequente análise dos dados.

CartaCapital relatou os detalhes do assassinato em outra reportagem. Clique neste link para acessá-la.

O caso tramita no STF por atingir um senador, que conta com foro por prerrogativa de função — o chamado foro privilegiado. A investigação da PF mira “comunicações diretas e reiteradas” entre Weverton e Martins, entre 25 de janeiro de 2023 e 4 de outubro de 2025.

Segundo a análise da polícia, os contatos ocorreram por mensagens de texto, áudios, ligações e compartilhamento de mídias. A corporação chegou a esses diálogos após apreender o celular de Weverton em uma operação sobre fraudes no INSS.

“Inicialmente, evidenciou-se a existência de uma relação de proximidade pessoal entre os interlocutores, que ultrapassa os limites de uma interação meramente formal ou institucional“, diz um trecho do relatório da PF reproduzido em decisão de Dino.

O caso tramita sob sigilo, mas o relator publicou parte dos arquivos nesta sexta-feira 14.

Um dos registros de mensagens data de 2 de junho de 2025. Weverton enviou uma mensagem de áudio a Martins cuja transcrição consta do relatório da PF: “”Meu irmão, caiu aqui porque é ruim mesmo a internet no Maranhão, eu estou num prédio. Mas 11h30, então, eu estou lá, tá bom? Obrigado por tudo. Abraço”. Em resposta, o ministro do STJ escreveu: “Irmão, forte e! Aguardando-o amanhã no gabinete às 11;30 horas!”.

Naquele mesmo 2 de junho, Martins mandou transferir Gilbson Cesar Soares Cutrim Júnior — condenado como executor do assassinato de Bosco e Sobrinho — do presídio de Pedrinhas, em São Luís, para Brasília.

Gilbson sofreu a condenação na Justiça do Maranhão, antes de o processo chegar ao STF. Ele recebeu uma pena de 13 anos de prisão.

Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão, está preso em regime domiciliar desde julho sob suspeita de solicitar a parentes de Gilbson que mudassem sua versão sobre o homicídio.

Detalhes a respeito da investigação do assassinato vêm à tona uma semana depois de Raimundo ser alvo de uma operação da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes. Naquele caso, as diligências resultaram da análise do celular do blogueiro Luís Pablo Conceição Almeida, de quem Raimundo seria fonte em reportagens contra Dino.

De acordo com a assessoria de Flávio Dino, o ministro é alvo constante de agressões e ameaças, e as investigações identificaram até o monitoramento dos veículos particulares dele e de sua família.

O assassinato sob apuração ocorreu em 19 de agosto de 2022 durante uma reunião em São Luís da qual participavam Gilbson, João Bosco, Daniel Brandão e Werberth Macedo Castro.

Partiu do próprio Gilbson a denúncia sobre possível atuação de Weverton no gabinete de Humberto Martins com a “finalidade (de) obstar o regular prosseguimento da apuração”. Com o aval do ministro André Mendonça, relator no STF do caso sobre fraudes no INSS, Dino recebeu os dados extraídos do celular do senador.

Ao comentar a disputa sobre o foro responsável pelo processo, Dino escreveu que o prosseguimento das investigações e uma futura análise confirmarão a competência do STF ou determinarão o desmembramento e o envio a outra instância.

Em nota, a assessoria de Carlos Brandão afirmou que o STF não tem competência para julgar governadores e que o caso contra o emedebista deveria tramitar no STJ. Disse também causar “estranheza” o fato de o inquérito se ater a fatos a partir de 2022 — ano do homicídio —, mas omitir “a reabertura de um processo administrativo de pagamento que estava arquivado desde 2014, sendo retomado em 2019, e que seria o motivo do homicídio”.

“O processo foi reaberto na Secretaria de Educação do Estado, que era à época era comandada por Felipe Camarão e quando o próprio ministro era governador do Maranhão”, acrescentou a equipe de Brandão. “Atualmente, o grupo que se intitula de ‘dinista’ é adversário político do governador Carlos Brandão. Apesar de todos os elementos acima citados, o ministro segue responsável por decisões que impactam diretamente o cenário político do Maranhão.”

Humberto Martins afirmou, por sua vez, que não se manifestará “em razão do processo tramitar sob segredo de justiça”. Acrescentou, no entanto, ter encaminhado a Dino os autos do habeas corpus objeto da matéria.

CartaCapital também tentou contato com Weverton em seu número particular e busca a defesa de Daniel Brandão. Se obtiver respostas, este texto será atualizado.

Em nota divulgada anteriormente, Daniel Brandão afirmou repudiar as “reiteradas tentativas de associar seu nome a fatos criminosos sem qualquer prova” e declarou que, segundo o próprio Gilbson, “não possui qualquer relação com os fatos”.

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