Vinte anos depois, Brasil corre risco de um novo racionamento de energia

O ano de 2021 vem sendo atipicamente seco. E este é o grande problema. Na melhor das hipóteses, a conta de luz ficará mais cara

Brasil caminha para o racionamento de energia (Foto: iStock)

Brasil caminha para o racionamento de energia (Foto: iStock)

Sustentabilidade

Rio de Janeiro – Ao mesmo tempo em que a Câmara dos Deputados dá os primeiros passos  para a privatização da Eletrobras, o Brasil ainda não sabe se corre ou não o risco de amargar novamente um racionamento de energia. Apesar das negativas do governo federal, alguns especialistas insistem que a situação do País é preocupante no que diz respeito ao nível dos reservatórios de água e que esse risco é real.

Ainda que o racionamento não seja necessário — na melhor das hipóteses — a falta de planejamento estratégico do Ministério das Minas e Energia deve pesar no bolso do consumidor comum.

Essa é a opinião de dois mestres no assunto: o físico e professor de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, e o diretor do Instituto de Energia e Ambiente da USP, Ildo Sauer.

“É uma desgraça absoluta: a crise sanitária pode acabar nos salvando da crise energética”, diz Ildo Sauer

O ano de 2021 vem sendo atipicamente seco. E este é o grande problema. A chegada da água da chuva às barragens, monitorada desde 1931, atingiu nos últimos seis meses o volume mais baixo registrado nesses 90 anos. Os dados são do Operador Nacional do Sistema Elétrico. A situação é particularmente delicada nas regiões Sudeste e Centro-Oeste que chegou ao fim do período de chuvas em abril com 34,6% da capacidade de seus reservatórios, nível que deve cair para 31% ao final de maio. Como a expectativa é de ainda menos água até novembro, acendeu-se um sinal de alerta.

“O nível dos reservatórios está abaixo do normal, abaixo do desejável. O complemento à energia hidrelétrica não está sendo suficiente para atender à demanda”, diz Pinguelli Rosa, que foi presidente da Eletrobras no governo Lula. “O problema é que não há capacidade térmica prevista. Isso vai depender do comportamento da demanda. Existe sim o risco de racionamento.”

Nem mesmo o recuo econômico trazido pela Covid-19, ressalta, foi suficiente para afastar completamente os riscos: “A demanda industrial não está muito alta, mas a demanda residencial tem subido bastante porque as pessoas, apesar de não seguirem muito as recomendações de isolamento social, estão tendendo mais a ficar em casa”.

 

Ildo Sauer, que foi diretor executivo e responsável pela área de Negócios de Gás e Energia da Petrobras no governo Lula, também não descarta esse risco. “Se não houvesse a pandemia e a economia tivesse performado adequadamente, a situação seria muito mais dramática. É uma desgraça absoluta: a crise sanitária pode acabar nos salvando da crise energética”, diz.

A controversa (e cara) solução das termelétricas

Para garantir o suprimento de energia e afastar a possibilidade de racionamento, o governo decidiu ligar suas usinas termelétricas. A media é vista com maus olhos por Sauer e Pinguelli. “O Brasil tem o melhor conjunto de recursos energéticos – hidráulico, fotovoltaico e, acima de tudo, eólico. Mas optamos por gastar muito mais ao acionar usinas térmicas, que têm operado muito acima do parâmetro previsto quando foi feita sua contratação no passado” lamenta Sauer.

Atender a esta demanda, entretanto, exigira investimentos anteriores. Ildo Sauer aponta erros estratégicos e operacionais do governo. Segundo ele, o Brasil gastou na última década mais de 100 bilhões de reais em combustíveis. Esse montante pagaria, calcula, a instalação de cerca de 20 mil megawatts de usinas eólicas. “Nos livraria desse problema todo com uma capacidade de geração muito mais barata e segura”, completa.

O ano de 2021 vem sendo atipicamente seco. E este é o grande problema

O custo de funcionamento das usinas termelétricas, segundo o normalmente praticado pelo governo, será repassado ao consumidor residencial por meio da imposição de diferentes bandeiras tarifárias ao longo do ano, lembra Pinguelli: “A primeira candidata é a térmica mesmo porque nela, se há combustível, você armazena e alimenta a usina quando necessário. Daí a bandeira vermelha e esse sistema tarifário que cobra do consumidor a geração térmica, que é mais cara do que a hidrelétrica”.

A única certeza, neste momento, é que a conta vai ser alta: “O sistema elétrico brasileiro deveria estar preparado para uma situação como a atual. Já temos hoje as térmicas operando 15 mil megawatts de capacidade instalada, muitas delas com um custo altíssimo e muito acima do necessário e desejável”, arremata Ildo Sauer. “Se nos meses anteriores o governo tivesse acionado mais usinas térmicas, nós teríamos gasto combustível de menor custo e guardado mais água nos reservatórios.”

Voluntários e moradores instalam painéis de energia solar em região do Arquipélago de Bairinque, no Amapá (Foto: Reprodução/Greenpeace)

Para Sauer, as causas dos problemas operacionais do governo no sistema elétrico vêm de longe: “Há um histórico de decisões equivocadas.” Em 2004, conta, o governo mudou o modelo, mas o direcionou para a contratação de usinas térmicas. “Foi um equívoco. Previa-se então que essas usinas térmicas operariam pouco, por isso foram contratadas, mesmo com um custo de combustível muito maior”, diz. “Fruto do lobby dos grandes consumidores e dos empreiteiros interessados em vender seus projetos.”

Mesmo que não haja racionamento, arremata, a energia elétrica no Brasil hoje é muito mais cara do que seria caso os governos tivessem investido na contratação contratar usinas que proporcionassem mais confiabilidade e menor custo. “Essas possibilidades existiam desde o tempo de Fernando Henrique Cardoso e de Dilma Rousseff, continuaram existindo com Temer e continuam a existir agora com Guedes e Bolsonaro”, completa.

Ildo Sauer ex-diretor da Petrobras: as causas dos problemas operacionais do governo no sistema elétrico vêm de longe (Foto: Divulgação)

2021 x 2001

Os especialistas ouvidos por CartaCapital também compararam a situação atual a vivida em julho de 2001. Naquela ocasião, já no final do governo de Fernando Henrique Cardoso, uma crise aguda no sistema elétrico provocou apagões em todo o país e um racionamento que durou até fevereiro do ano seguinte: “O que muda em relação a 2001 é que agora há uma capacidade de geração térmica instalada muito maior”, diz Sauer. “Se tivesse sido usada adequadamente, essa geração térmica também poderia nos ter impedido de chegar ao quadro atual. Se o ONS tivesse operado termelétricas mais baratas no ano passado, agora estaríamos com o nível dos reservatórios mais alto.”

Para Pinguelli Rosa o maior problema em 2001 era a falta de investimentos, e não tanto a falta de chuvas: “Não existia investimento para a oferta ir crescendo junto com a demanda. Aí cruzaram as curvas e deu o apagão. Tem que fazer racionamento. Então, você tem que racionar como foi no grande apagão de 2001, que depois se repetiu em nível menor. Em 2001 foi um racionamento prolongado, as pessoas foram obrigadas a diminuir o seu consumo elétrico sob pena de ter a luz cortada”, lembra.

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Repórter colaborador de CartaCapital no Rio de Janeiro

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