Um ano após prisão, brigadista de Alter do Chão diz viver ‘tortura jurídica’

Os quatro brigadistas aguardam fim de processo, apesar da PF ter descartado o envolvimento dos voluntários em queimada de 2019

João Romano abraça filha ao sair da prisão, em 28 de novembro de 2019 (Foto: Brigada Alter do Chão)

João Romano abraça filha ao sair da prisão, em 28 de novembro de 2019 (Foto: Brigada Alter do Chão)

Política,Sustentabilidade

Há um ano, quatro voluntários de uma organização não-governamental (ONG) de Alter do Chão, no Pará, foram alçados ao posto de inimigos da floresta amazônica pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e pelo presidente Jair Bolsonaro.

 

 

Pressionados pela 1ª crise internacional ocorrida em decorrência das queimadas, o ministro e o presidente viram a Operação Fogo do Sairé, da Polícia Civil do Pará, cair como uma luva e dar endosso à tese – sem provas – de que seriam “as ONGs” as grandes responsáveis pela destruição da Amazônia.

No entanto, as acusações não se sustentaram e a principal linha de investigação sobre quem havia colocado fogo na floresta voltou a mirar a atividade de grileiros. Em agosto de 2020, a Polícia Federal descartou definitivamente o envolvimento dos quatro voluntários no incêndio aos arredores de Alter do Chão.

Os quatro “brigadistas de Alter do Chão”, como ficaram conhecidos, foram soltos dois dias depois, mas até hoje vivem sob medidas cautelares restritivas em relação a saídas nos finais de semana, saídas noturnas e viagens para fora da cidade. Apenas um deles ainda vive próximo à floresta – uma decisão cercada de medo e questionamentos, conta, mas vista como necessária pra não deixar o idealismo que os motivou a tocar a ONG morrer.

João Romano é um dos fundadores do Instituto Aquífero Alter do Chão e, apesar de ter enfrentado uma depressão e sintomas de pânico quando voltou para sua casa – “sem janela, sem portas, feita de madeira, no meio da floresta”, descreve -, ele afirma que tomou a decisão com o “coração”, mas também com o fato de ter que avisar a Justiça de Santarém sobre onde estava a todo momento.

“É muito duro. A partir de julho, eu passei a trabalhar em Santarém, no final de semana dá vontade de sair, ir para a praia. Por outro lado, foi bom arrumar esse trabalho porque eu saí de uma depressão – que eu acho que é normal nesse processo todo, é um baque muito grande, ainda mais com pauta ambiental na Amazônia, o lugar que mais mata ambientalista.”, declara em entrevista à CartaCapital.

 

Brigadistas de Alter do Chão após serem soltos da prisão, no dia 28 de novembro de 2020. João é o de amarelo (Foto: Brigada Alter do Chão)

 

João descreve o momento como uma “tortura jurídica” que se prolongou, acredita, por conta da pandemia. A Polícia Civil do Pará já enviou o inquérito ao Ministério Público do Pará, que pediu mais diligências e não aceitou a denúncia no começo deste ano. Sem arquivamento ou denúncia, o que resta aos quatro é esperar.

“Os outros meninos voltaram para São Paulo. Eu decidi não deixar morrer a instituição, o Instituto Aquífero, o projeto Brigada de Alter, e decidi pelas minhas filhas também. A gente fica muito assustado depois de um caso desse. A gente que é inocente ser acusado dessa forma… o negócio não é brincadeira.”, diz João.

Se o contexto para a prisão dos voluntários, em 2019, foi a atenção dada às queimadas recordes no bioma, 2020 também não foi um ano fácil. Até o dia 26 de novembro, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), havia sido registrado um aumento de 18% na quantidade de focos de calor em relação ao mesmo período do ano passado na Amazônia.

João conta que o regime de chuvas, neste ano, ajudou a região de Alter do Chão – um balneário paradisíaco visado pelo setor do turismo – a não registrar tantos focos de incêndio. Uma ocorrência em setembro, porém, chamou a atenção da população.

“Teve um incêndio na mesma área do que ano passado, e a polícia encontrou o loteamento irregular. Nas imagens de satélite, [o local] era muito próximo do foco inicial que consta no relatório da Polícia Federal, que inocentou a gente. O foco era do lado e a polícia encontrou pessoas trabalhando no loteamento. Provavelmente, o fogo de 2019 era para queimar a camada grossa, para em 2020 eles começarem a lotear”, conta.

Enquanto aguarda um resultado final do processo judicial, João afirma que o Instituto não captou recursos para atuação este ano devido à pandemia, mas que ainda tenta promover ações de projetos como o Caju (Consciência Ambiental na Juventude). No momento, ele também trabalha na articulação da Rede Nacional de Brigadas Voluntárias, formada em agosto de 2019 e que está em busca de formalização para trazer “mais segurança ao voluntariado”, afirma.

O fogo na Amazônia “sempre existiu e sempre vai existir”, destaca o brigadista. No entanto, para ele, é preciso que o Brasil olhe para o bioma e entenda as complexidades e disputas envolvidas no lutar pelo combate à destruição. “O ponto positivo é que todo mundo resolveu olhar para isso. A Amazônia sempre queimou, sempre teve a guerra latifundiária, mas o Brasil resolveu olhar para a Amazônia. Precisamos que as pessoas de fora se amazonizem.”

 

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