Tóquio ampliou o debate político nas Olimpíadas, mas o tema não é exatamente novo

Para além do desempenho, os Jogos Olímpicos têm nos feito refletir sobre outras questões, como saúde mental, representatividade e política

Raven Saunders faz gestos no pódio com sua medalha de prata após competir no arremesso de peso feminino durante os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (Foto: FASSBENDER / AFP)

Raven Saunders faz gestos no pódio com sua medalha de prata após competir no arremesso de peso feminino durante os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (Foto: FASSBENDER / AFP)

Diversidade,Sociedade

As Olimpíadas de Tóquio 2020, além de marcadas pela realização em meio pandemia, reforçam que o evento não trata apenas de esporte: é também um dos principais palcos mundiais para a política. E não de forma incidental. Dias antes de se iniciarem os Jogos, o Comitê Olímpico Internacional. pela primeira vez, permitiu que atletas se manifestassem politicamente durante o evento.

A liberação do COI partiu de um forte pressão de atletas na esteira de movimentos como o Black Lives Matter’, nas grandes ligas dos Estados Unidos em 2020, e contra os recentes casos de racismo na Eurocopa, em 2021. Tóquio, portanto, não poderia ignorar a questão.

A abertura do COI, porém, ainda não é irrestrita. Permite que atletas e demais participantes se expressem apenas antes ou depois das provas. O aval também é garantida em entrevistas à imprensa, em reuniões de equipe e nas redes sociais. Continua proibido se manifestar durante a abertura, encerramento ou durante a entrega de medalhas nos pódios.

A decisão atual muda o artigo 50 da Carta Olímpica, que afirmava que não ser “permitida dentro das instalações Olímpicas qualquer demonstração ou propaganda política, religiosa ou racial” e servirá como teste para os próximos eventos.

Nesta segunda, a americana Raven Saunders, prata no arremesso de peso, formou um X com os braços durante a cerimônia do pódio e disse que era uma mensagem de apoio às pessoas oprimidas. Negra e ativista dos direitos da comunidade LGBTQIAP+, explicou que desejava representar “pessoas em todo o mundo que estão lutando e não têm a plataforma para falar por si mesmas”.

Por enquanto, oficialmente, a entidade afirmou que eventual sanção teria de ser aplicada pelo comitê dos EUA, que já rejeitou a possibilidade.

Protestos em Tóquio

Passada uma semana desde a abertura dos Jogos no Japão, já é possível ver que a medida surtiu efeito e não foram poucas as manifestações políticas até aqui. Além dos protestos, outros debates importantes na sociedade também foram motivados por episódios ocorridos entre os atletas em Tóquio.

A primeira manifestação política no Japão ocorreu no futebol feminino. Dois dias antes da abertura oficial, quando iniciam as partidas da modalidade, atletas de cinco seleções se ajoelharam em protesto contra o racismo. Jogadoras do Reino Unido, Estados Unidos, Chile, Nova Zelândia e Suécia fizeram parte do protesto.

No domingo 25, a ginasta da Costa Rica, Luciana Alvarado, terminou a prova eliminatória de solo com o punho cerrado e ajoelhada também em referência à pauta antirracista.

O mesmo gesto foi repetido pelos atletas britânicos antes da disputa pelo bronze no rúgbi masculino contra a seleção da Argentina.

Além da pauta contra o racismo, outras manifestações chamaram a atenção e geraram debates políticos. No judô, os atletas Fethi Nourine, da Argélia, e Mohamed Abdalrasool, do Sudão, se negaram a enfrentar o israelense Tohar Butbul e desistiram da competição. Ambos alegam não compactuar com os ataques de Israel ao povo palestino.

Nas redes sociais, a jogadora de futebol Formiga, duas vezes campeã olímpica e representante do Brasil em 7 Copas do Mundo, publicou um texto em que lamenta o baixo incentivo ao esporte feminino. Para a jogadora, o Brasil está ‘preso nos anos 80’ quando o assunto é investimento e apoio ao futebol feminino. Segundo Formiga, os gastos com time de mulheres não somam o valor total pago por um único jogador homem em um time profissional.

Em entrevista após a eliminação da seleção brasileira nesta sexta-feira 30, a jogadora Marta, principal nome do futebol feminino mundial, também comentou o tema: “O peso de quem não trouxe a medalha, não são das jogadoras. É de quem não investe no futebol feminino brasileiro”.

Discussões vão muito além dos protestos

A pauta política em torno das Olimpíadas tem ido muito além dos protestos na atual edição. Outros episódios têm levado discussões importantes ao grande público, principalmente nas redes sociais e nas transmissões pela tevê aberta.

A medalha de prata de Rebeca Andrade é um bom exemplo disso. Em discurso na TV Globo, Daiane dos Santos, ex-ginasta e atual comentarista da emissora, destacou a importância da primeira medalha olímpica da modalidade vir de uma mulher negra. O discurso de Daiane, que também é negra, viralizou nas redes sociais.

“Durante muito tempo disseram que as pessoas negras não poderiam fazer alguns esportes e a primeira medalha olímpica da ginástica feminina é de uma mulher negra. Tem uma representatividade muito grande por trás de tudo isso”, destacou a ex-ginasta visivelmente emocionada durante a transmissão.

No discurso, a comentarista também chamou a atenção para as discussões de gênero por trás da vitória de Rebeca: “Uma menina que veio de uma origem muito humilde, foi criada por uma mãe solo porque o pai da Rebeca é vivo, mas não é presente na vida dela. Aguentou tudo o que ela aguentou, todas as lesões e está aí para ser a segunda maior atleta do mundo. Uma brasileira”.

A desistência de Simone Biles, ginasta dos Estados Unidos favorita ao ouro em diversas modalidades, também abriu discussões importantes nas redes sociais. A atleta se classificou em primeiro lugar, mas abandonou as provas. A ginasta alegou estar psicologicamente esgotada antes das finais e optou por privilegiar sua saúde mental aos resultados.

Novidade nas Olimpíadas, skate também fomentou debates

O skate pela primeira vez figura entre as modalidades olímpicas. O esporte garantiu a primeira medalha brasileira nesta edição, com Kelvin Hoefler levando a prata. Dias depois, a jovem Rayssa Leal, de apenas 13 anos, também ficou em segundo lugar no evento.

As vitórias fizeram o público relembrar que a prática do skate foi proibida em São Paulo de junho de 1988 ao início de 1989, quando foi liberado pela prefeita recém eleita Luiza Erundina.

A boa participação feminina brasileira no esporte também abriu discussões para as questões de gênero dentro do esporte. Até então, a modalidade era vista como uma prática ‘masculina’. A medalha de prata de Rayssa, porém, começa a mudar esta visão.

“Isso mostra o que uma menina é capaz, o Brasil está sorrindo com o segundo lugar da Rayssa. Isso muda o mundo”, destacou Karen Jonz, tetracampeã mundial e precursora do skate feminino no Brasil, ao comentar a vitória da jovem.

Jonz foi comentarista da TV Globo nesta edição e chamou a atenção na internet por comentários divertidos, inusitados e em favor da diversidade. Durante a transmissão, a skatista fez questão de se atentar aos pronomes de atletas não-binários e ‘puxou a orelha’ ao ser questionada de como os homens conseguem ser pais e ao mesmo tempo atletas de alto rendimento. “Eles deixam os filhos com as mães”, respondeu a comentarista.

No skate, a vitória da jovem Rayssa chegou a ser usada pelo deputado bolsonarista Sóstenes Cavalcante para defender o trabalho infantil. A publicação foi duramente criticada nas redes.

Protestos já marcaram história nas Olimpíadas

Ao longo da história dos mais de cem anos dos jogos na Era Moderna, não foram poucas as manifestações e protestos durante os jogos.

O mais conhecido, sem dúvidas, é o caso dos estadunidenses Tommie Smith e John Carlos em 1968. Os velocistas ganharam as medalhas de ouro e bronze, respectivamente, nos Jogos do México e ao subirem no pódio ergueram o punho cerrado em alusão ao movimento Panteras Negras. O protesto dos atletas era contra a desigualdade racial nos Estados Unidos e resultou na suspensão dos atletas.

Naquela mesma edição, a ginasta Věra Čáslavská, da Tchecoslováquia, se virou contra a bandeira da União Soviética em protesto contra o modelo econômico do País. A atleta era uma das integrantes do grupo que pedia um socialismo mais descentralizado no País.

Smith e Carlos são responsáveis pelo gesto político mais famoso em uma Olimpíada.

Outros dois velocistas dos Estados Unidos foram punidos em 1972, em Munique, por protestarem contra o País no pódio: Vincent Matthews e Wayne Collett, ouro e prata, respectivamente, ficaram conversando e se movimentando no pódio durante a execução do hino nacional.

Em 2004, em Atenas, o lutador brasileiro Diogo Silva também marcou os Jogos com sua luta antirracista. Ainda no tatame após perder uma luta contra o sul-coreano Song Myeong-Seob, Silva repetiu o gesto de punho cerrado e em referência aos Panteras Negras.

Mais recentemente, em 2016, no Rio de Janeiro, o etiope Feyisa Lilesa cruzou os punhos no alto da cabeça ao atravessar a linha de chegada da maratona. O protesto foi em apoio ao povo Oromo, reprimido pelo governo local.

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Repórter do site de CartaCapital

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