Sociedade

‘Novas UPPs’: Após invasões e roubos, moradores do Jacarezinho temem mais do mesmo

A ocupação marca o início de um ambicioso plano do governador Cláudio Castro. E acontece oito meses após uma operação policial que matou de 28 moradores da comunidade

Foto: Coletivo Marcha das Favelas
Foto: Coletivo Marcha das Favelas
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Rio de Janeiro – Apenas cinco dias depois de mais de 1,2 mil policiais ocuparem a Favela do Jacarezinho, na operação que marcou o início do programa Cidade Integrada, moradores da comunidade já relatam invasões a residências, agressões e outras arbitrariedades cometidas por policiais. Segundo o coletivo Marcha das Favelas, durante o fim de semana diversos moradores se queixaram de episódios de arrombamento, invasão sem mandado judicial, destruição de documentos, constrangimento verbal.

“As pessoas estão sendo obrigadas a deixar os policiais tirarem fotos dos seus rostos e são submetidas a interrogatórios clandestinos sem a presença de advogados ou testemunhas”, afirma a entidade em nota. Também há relatos de roubo de cartões de crédito, celulares e até mesmo de alimentos e bebidas.

A ocupação do Jacarezinho marca o início de um ambicioso plano do governador Cláudio Castro – e acontece oito meses após uma operação de retaliação organizada pela polícia que resultou na morte de 28 moradores da comunidade, em sua maioria executados pelos policiais.

Um dos casos de invasão relatados aconteceu na casa de um dirigente da entidade, identificado como Felipe. Segundo o militante, os policiais o sufocaram com um pano e o agrediram com socos nas costelas: “Eles faziam perguntas. Mas, como eu ia conseguir responder?”, relatou a CartaCapital. Quando foi pedir socorro na Associação de Moradores, Felipe descobriu que os casos se somavam: “Uma senhora contou que invadiram a casa dela e colocaram os netos de 16 e 18 anos em cômodos separados. Eles foram agredidos e indagados sobre o conhecimento de lugares e nomes de traficantes”.

Curiosamente, a invasão na casa de Felipe aconteceu na sexta-feira 21 de forma simultânea à primeira visita de Castro à comunidade após a ocupação. Na quadra da Unidos do Jacarezinho, o governador prometeu a moradores investimentos de 500 milhões de reais que também serão estendidos à Favela da Muzema, outra comunidade alvo do programa Cidade Integrada: “Já existe o dinheiro necessário, dentro de cada secretaria envolvida, para atender a essas duas comunidades. Estão previstas ações de pavimentação, saneamento, esporte, lazer, saúde e educação”, disse.

Taxado como eleitoreiro pela oposição, o projeto de Castro terá cinco eixos, além da segurança pública: social, economia, infraestrutura, transparência e diálogo/governança. A meta é expandir o programa a outras comunidades, mas o governador garante não ter pressa: “Enquanto tudo não estiver funcionando plenamente e não obtivermos resultados para Jacarezinho e Muzema, não haverá ações em outras comunidades”, diz.

Localizada na zona norte do Rio, a Favela do Jacarezinho tem 80 mil habitantes, segundo sua Associação de Moradores, e ocupa o 121º lugar no ranking econômico dos 126 bairros cariocas. Na comunidade, o governo pretende implementar já a partir do mês que vem programas como o “Desenvolve Mulher”, que, segundo Castro, beneficiará duas mil chefes de família de 16 a 30 anos com “ações de incentivo ao empreendedorismo” e um auxílio mensal de 300 reais. A expectativa do governo é desembolsar para isso 34,5 milhões de reais. Já o “De Bem com a Vida” prevê a construção, ao custo de 2 milhões de reais, de “espaços de entretenimento e saúde mental” destinados aos moradores idosos. Para as crianças e adolescentes está previsto um programa de inclusão digital e desenvolvimento de games. Nenhum detalhamento dessas iniciativas, entretanto, foi anunciado pelo governo.

“Parece uma jogada eleitoreira, embora o governador diga que não tem que entrar na comunidade dando tiro e que agora o Estado estará presente também com sua face social”, afirma o ex-deputado federal e ex-presidente da OAB-RJ Wadih Damous. Ele ressalta que nada foi planejado ou debatido com a própria comunidade do Jacarezinho, que “há poucos meses foi alvo de mais uma incursão policial que acabou em matança” e “não se sabe exatamente quais são os objetivos reais do programa”.

“As pessoas que moram nas comunidades estão traumatizadas e, com toda razão, recebem anúncios desse tipo com desconfiança. Sobretudo de um governador que se elegeu numa chapa encabeçada por Wilson Witzel, que pregava a tese do ‘tiro na cabecinha’”, diz Damous. Originalmente vice na chapa vitoriosa do ex-juiz, Castro é o titular do Palácio Guanabara desde que Witzel foi afastado do governo, em agosto de 2020. “Witzel e Castro foram eleitos na onda bolsonarista e nós sabemos como esse grupo pensa a Segurança Pública: é política de extermínio.”

O maior medo dos moradores é que os confrontos entre policiais e traficantes se intensifiquem. O programa de Castro tem itens com potencial para irritar os bandidos que controlam o Jacarezinho, como, por exemplo, a instalação de 22 câmeras de monitoramento nas ruas e vielas, o plano de distribuição de vouchers aos moradores para a compra de botijões de gás ou a regularização dos serviços de tevê a cabo e internet, negócios hoje controlados pelo tráfico.

Outra medida vista com desconfiança é a prometida construção de um batalhão da PM em um terreno abandonado de uma antiga fábrica da General Electric. A ideia do governo é abrigar 400 militares no terreno, que terá também uma unidade de saúde a ser administrada pela Prefeitura do Rio.

Para Damous, o temor dos moradores pode ser resumido em não ver repetido o falido projeto das UPPs.“O que acabou acontecendo com as UPPs foi que a polícia se consolidou na prática como uma terceira força de ocupação das comunidades, ao lado do tráfico e da milícia. Ou seja, uma terceira força de opressão aos moradores”. O governador, no entanto, rechaça as comparações entre um programa e outro: “Esse programa nada tem a ver com a UPP, pois não se tata de um plano de pacificação. Percebemos que a ideia de pacificação trouxe mais prejuízos do que benefícios.” A conferir.

Maurício Thuswohl
Repórter da edição impressa de CartaCapital no Rio de Janeiro

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