Chacina do Jacarezinho: policialescos aplaudem massacre

Sem vozes faveladas, programas atuam como braço midiático da política de segurança pública que 'mira na cabecinha'

(FOTO: MAURO PIMENTEL / AFP)

(FOTO: MAURO PIMENTEL / AFP)

Intervozes

O Rio de Janeiro viu a operação policial mais letal da história acontecer na última quinta-feira (6). Não foi a maior apreensão de drogas – 2,5 toneladas de cocaína em Caxias, em dezembro de 2020 –, tampouco a maior apreensão de armas – 117 fuzis incompletos, do tipo M-16, na casa de um amigo do policial militar Ronnie Lessa no Méier, na Zona Norte do Rio. Ainda assim, foi no Jacarezinho que vimos 29 pessoas serem assassinadas neste início de maio. Uma chacina.

A ação violenta e assassina é sempre quando o CEP é na favela. A truculência toma o lugar da inteligência nas atitudes dos 200 agentes que participaram da operação. Uma operação que, para os sanguinários programas policialescos, como o Balanço Geral da RecordTV, foi um sucesso e as polícias Militar e Civil merecem os parabéns pela atuação no território. É essa conduta pseudojornalística, de desumanização dos corpos negros e favelados, que ajuda a perpetuar a visão da sociedade de que a favela é um território marginalizado e todos os seus moradores são bandidos, ainda que nunca tenham entrado para o tráfico ou estejam ressocializados. É importante lembrar que essa desumanização, que fortalece o racismo estrutural no Brasil, vem desde o período pré-abolicionista e continuou quando, a partir de 1897, as favelas surgiram.

Com o passar dos anos, a internet proporcionou o crescimento de veículos comunitários e a cobertura local teve sua voz impulsionada. Cada dia mais, jornais como o Voz das Comunidades ganham força e entram na disputa de narrativas quando acontece uma operação. Apesar disso, o jornalismo da grande mídia, sobretudo as grandes emissoras de TV, continua sendo feito majoritariamente por jornalistas que mal saem das redações e sequer pisaram nos territórios que estão cobrindo. Este é um erro sistemático do jornalismo. As matérias, geralmente, são pautadas pelos releases da própria Polícia Militar por falta de conhecimento territorial, o que gera a invalidação das falas dos moradores ou, muitas vezes, estes sequer são ouvidos sobre toda a situação que aconteceu. A própria cobertura da operação no Jacarezinho mostra isso. Enquanto nas redes sociais surgiam vídeos de moradores com as casas ensanguentadas, denúncia de policiais quebrando e invadindo residências, pai mostrando que uma pessoa foi morta no quarto da sua filha de nove anos, o apresentador Tino Junior, apresentador do Balanço Geral RJ, da Record, dizia ao vivo que a operação tinha sido um sucesso. A falta de sensibilidade para entender o que realmente acontece e o que está por trás de uma operação dessa magnitude é enorme. E vira um problema cíclico, uma vez que as grandes redações seguem com a maioria de pessoas que não conhecem o território da favela além da barreira televisiva. É um retrato da falta de vozes faveladas no jornalismo da grande mídia.

Esse tipo de cobertura sequer leva em consideração a base do jornalismo: ouvir todos os lados envolvidos. Um erro que, tenho certeza, não acontece por falta de conhecimento técnico-teórico do jornalismo. Mas sim por uma tradição de invisibilizar a narrativa de quem está do lado fragilizado, de quem está historicamente silenciado: os moradores das favelas. Levar em consideração o quanto essas operações são traumatizantes para o morador parece não ser uma opção para jornalistas como Sikêra Júnior, Tino Júnior, Datena e outros defensores da barbárie. Para quem faz um programa coberto de sangue, pouco importa se tiveram trabalhadores atingidos dentro do metrô, se pessoas não puderam sair de casa para se vacinar contra a Covid-19, se as crianças ficaram em desespero com mais de seis horas de tiroteio intenso. A operação policial que acaba em mortes, para eles, é sucesso. As vidas faveladas podem ser profundamente impactadas pela singela apreensão de seis fuzis que parte da mídia, que deveria ter o papel de denúncia das atrocidades, considera um sucesso para o Rio de Janeiro.

Nada dos direitos humanos

“Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”; “todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”; “ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”; esses são termos descritos nos artigos 2, 3 e 5 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948. É visível que nada disso foi respeitado durante a operação e, tampouco, falado nas reportagens que passaram nas maiores emissoras do país.

Enquanto o Balanço Geral parabenizava as corporações policiais pelas dezenas de mortes, nas redes sociais, um vídeo marcante era veiculado: mulheres em um beco filmando policiais enquanto gritavam que tinham pessoas tentando se entregar, entretanto, as mesmas diziam que os agentes aguardavam a saída delas do local para executarem os supostos criminosos. O direito à vida, mais uma vez, não valeu nas favelas do Rio. Um trecho do vídeo, depois, foi exibido e citado em uma reportagem da TV Globo, durante o Jornal Nacional da última quinta-feira (6). Outro ponto omitido pelos policialescos, que usam as dores da favela para ter audiência, foi o sumiço de corpos durante a operação. O ponto, muito levantado nas manifestações do dia seguinte no Jacarezinho, não foi veiculado em jornais como o Cidade Alerta e Balanço Geral. Enquanto uns comemoravam as então 25 mortes, supondo que estes eram todos criminosos, a população do Jacarezinho procurava seus filhos, irmãos, primos e amigos em plena semana do dia das mães.

ADPF 635

Outro ponto que chama a atenção é que, durante a cobertura, a maioria da grande mídia omitiu a informação da ADPF 635, a chamada ADPF das Favelas, que proíbe operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia, sob pena de serem responsabilizados civil e criminalmente. A medida do Superior Tribunal Federal (STF) foi referendada em agosto de 2020, ainda está em vigor e teve uma audiência pública no último mês de abril para discutir estratégias de redução da letalidade policial no Rio de Janeiro. Contudo, o Governo do Estado segue ignorando a determinação. Antes, sob a conduta do Wilson Witzel que, desde a campanha eleitoral, dizia que a polícia “vai mirar na cabecinha e… fogo”. E continua com o atual governador Claudio Castro, que se reuniu com o Bolsonaro um dia antes da megaoperação no Jacarezinho. O presidente, em sintonia com a imprensa que adora ver sangue favelado, parabenizou a polícia pela operação.

Fato é que, somente entre o primeiro dia do ano e 30 de abril, a plataforma Fogo Cruzado registrou 614 tiroteios com a presença de agentes policiais na região metropolitana do Rio de Janeiro. Uma média de mais de cinco por dia. Além disso, ainda de acordo com o Fogo Cruzado, já tivemos 51 pessoas vítimas de bala perdida no Grande Rio em 2021, das quais 15 morreram. Tudo isso com a proibição da ADPF 635 valendo para o estado. A omissão dessas informações faz com que os erros do governo e das forças policiais sejam acobertados. É, novamente, a grande mídia fortalecendo narrativas contra o povo favelado. Um povo que, por direito e cumprimento das determinações do STF, não deveria acordar com mais de seis horas de tiroteio na porta e dentro de casa.

Esquecimento de outras dores

Nos três primeiros meses da pandemia, entre março e maio de 2020, o Rio de Janeiro teve 120 operações policiais, que geraram 69 mortos – segundo o Observatório da Segurança RJ, projeto do CESeC. Entre as vítimas, casos conhecidos como Anna Carolina de Souza Neves, de 8 anos, atingida no sofá de casa, no Parque Esperança, em Belford Roxo; Matheus Oliveira, 23 anos, assassinado por um policial na garupa de uma moto na rua de acesso ao morro do Borel, na Tijuca; João Pedro Mattos, de 14 anos, morto na casa de parentes no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Entre outros inúmeros casos que caíram no esquecimento e nem mesmo reportagens das investigações nós vemos na grande mídia, que esquece as dores que as famílias das comunidades sentem.

Com o argumento de combate ao tráfico de drogas, o Estado invade as favelas e atira a esmo. A política de segurança pública tem apenas esta ação, que é exaltada nos veículos de comunicação de massa quando mata dezenas de pessoas. Nas matérias, não importa se os militares invadem as casas dos moradores para usar como trincheira e trocar tiros com os bandidos. Não faz diferença se o Rio de Janeiro teve medidas extremas tomadas, como a criação das UPPs e a Intervenção Federal, e mesmo assim a violência no território da favela só aumentou. As matérias não dizem que a pacificação foi apenas uma máscara para continuar violando direitos do favelado e que grande parte da mídia tradicional segue aplaudindo a barbárie como espetáculo. Segurança pública no Brasil é apenas para uma parcela da sociedade: os ricos. Ainda que muitos esqueçam, a vida na favela importa e não pode mais ser vista como nada pelas autoridades governamentais. A cobertura jornalística precisa cobrar que o Estado mude a forma de atuação, ou continuaremos, ano após ano, vendo casos em que a polícia mata cinco jovens inocentes em 80 horas.

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Poeta, jornalista, umbandista e coordenador do Favela em Desenvolvimento

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