Sociedade

Conheça o Grad, grupo que se dedica a salvar animais em tragédias como a de Petrópolis e Brumadinho

Desde sua fundação, o grupo resgatou mais de 10 mil animais

Créditos: Divulgação
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Mais de um mês depois da tragédia que se abateu sobre Petrópolis e deixou mais de 230 mortos, a médica veterinária Carla Sassi ainda circula pela região em busca de animais domésticos nas áreas de risco. Os pedidos de salvamento voltaram a aumentar desde a mais recente tempestade que atingiu a cidade há duas semanas, que provocou mais cinco mortes.

Carla é a fundadora do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (Grad) que conta com 60 voluntários de várias áreas, como veterinários,  biólogos, zootecnistas, analistas de sistema, oceanógrafos, estagiários, engenheiros ambientais, além dos socorristas que atuam em campo.

O grupo já resgatou mais de 200 animais em Petrópolis, com o apoio do Corpo de Bombeiros, e mantem cerca de 72 deles sob sua responsabilidade em uma base montada na cidade, também fazendo um trabalho sanitário de medicação e vacinação dos resgatados.

Segundo ela, muitos moradores têm encontrado dificuldades em alugar casas que aceitem seus animais e fez um apelo para sensibilizar os donos dos imóveis. “Já não basta tudo o que essas pessoas estão vivenciando nos últimos dias, no último mês, elas não estão tendo a oportunidade de recomeçarem suas vidas junto de seus animais.”

Desde a sua fundação, o Grad acumula milhares de resgates em situações de desastres – são mais de 10 mil animais salvos. O grupo atuou nos rompimentos de barragem nas cidades mineiras de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019; nas intensas queimadas do Pantanal em 2020; nas enchentes que castigaram os estados de Minas Gerais e Bahia este ano; e no repercutido caso das búfalas abandonadas em uma fazenda em Brotas.

Mas a necessidade de um grupo que atuasse nessas situações surgiu na cabeça de Sassi ainda em 2011, quando fortes chuvas devastaram a região serrana do Rio. Deslizamentos e enchentes vitimaram mais de 900 pessoas nas cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo.

“Eu estava na minha casa, vendo TV, e me deparei com a cena de uma mulher desesperada na laje da casa dela, junto de seus cachorros, enquanto a inundação levava tudo. Em um momento, um vizinho joga uma corda, e ela reluta em amarrá-la, justamente para proteger seus animais. Até que ela amarra a corda em sua cintura, se joga na água, mas não consegue segurar o cachorro, que é levado pela enxurrada”, relembra.

“Nesse momento me perguntei, quem está fazendo algo pelos animais? Foi uma virada de chave na minha vida, o momento que eu entendi que é para isso que vim ao mundo”.

Antes de ir a campo com o Grad, a veterinária passou por formações com os bombeiros e defesa civil, para adquirir conhecimentos técnicos sobre as situações de desastre. O que a move em cada chamado é o ‘se colocar no lugar do outro’.

“Retirar um animal de um cenário desse é muito além de salvar apenas aquele indivíduo. A gente salva o indivíduo porque é extremamente importante, é uma vida, um ser senciente, mas vai além. Muitas vezes esses animais são os únicos seres que sobraram de uma família”.

O impacto emocional

Por isso mesmo, o trabalho a campo é difícil e exige dos profissionais também um preparo psicológico. Carla narrou à reportagem de CartaCapital um dos resgates que mais a sensibilizou, em Brumadinho.

“Estávamos no Córrego do Feijão e recebemos um chamado para ir até a propriedade verificar a situação dos animais. O dono da casa era o ‘seu Edson’. O coronel que estava no comando da operação me passou o telefone dele e me pediu para ligar assim que eu tivesse notícias. Quando chegamos, realmente, havia muita coisa destruída, mas achamos a parte das aves inteira. Então remanejamos os animais, colocamos água, comida e liguei a ele para dar notícias.”

Durante a ligação, conta, ela foi surpreendida por uma situação que, até então, desconhecia. “Ele me disse: neste momento, estou enterrando a minha esposa, o carro dela foi encontrado na propriedade com a porta aberta e a chave na ignição”. A esposa havia voltado para salvar Bianca, a ‘Bibi’, cachorra da família.

Então, veio o pedido: “Ele pediu para que eu encontrasse o corpo da ‘Bibi’ na propriedade e desse a ela um enterro digno, embaixo de um pé de abacate, que ficou intacto, e era o lugar onde a esposa gostava de sentar para ler, sempre acompanhada da cachorra”.

“Eu não conheci o ‘seu Edson’ pessoalmente, mas nos falamos até hoje por mensagem. A gratidão que ele ficou por esse momento, não tem preço”, descreve a veterinária.

Carla sonha com o dia em que a atuação do Grad não será mais necessária. “Se isso acontecer, saberemos que as coisas no País estarão melhores. Mas, infelizmente, pela falta de uma cultura de prevenção de tragédias, sabemos que nosso trabalho ainda será muito requisitado”.

Enquanto isso não acontece, prefere se orgulhar do grupo e do que coloca em prática a cada novo salvamento: “Usamos a medicina veterinária de forma humanitária, amenizando de certa forma a dor de muitas famílias e dos animais. A sensação é a de que estamos fazendo a coisa certa”.

O que diz a Prefeitura de Petrópolis

A reportagem de CartaCapital entrou em contato com a gestão de Rubens Bomtempo (PSB) para entender como está a situação dos moradores de Petrópolis após as fortes chuvas que atingiram a cidade.

Em nota encaminhada no dia 26 de março, a gestão municipal informou que um total de 756 imóveis foram completamente destruídos com deslizamentos. E que, desde o dia 15 de fevereiro, 3010 casas estão interditadas pela Defesa Civil.

Ainda de acordo com a Prefeitura, até a data, 1018 pessoas se encontravam acolhidas em pontos de abrigo aguardando avaliação de suas residências para um retorno seguro ou encaminhamento para o programa de aluguel social, nos casos de interdição das moradias. A gestão municipal também informou ter firmado um total de 700 contratos de aluguel social.

Sobre os animais, a Prefeitura informou que a a Coordenadoria Municipal de Bem-Estar Animal (Cobea), juntamente com voluntários e ONGs de apoio à causa animal resgataram mais de 300 em áreas afetadas pelos deslizamentos em Petrópolis. Explicou ainda que eles estão sendo encaminhados para lares temporários, e que há 84 pessoas abrigando os animais resgatados. O atendimento aos animais está sendo prestada de maneira voluntária por clínicas e profissionais.

A Prefeitura de Petrópolis busca por pessoas que possam ceder lares temporários e também por médicos veterinários que queiram se voluntariar aos cuidados. Os interessados devem fazer contato pelo número (24) 99204-0647.

 

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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