Sociedade

A luta para salvar a vida dos 1.000 búfalos abandonados para morrer em Brotas

Animais foram isolados para dar lugar à soja. O caso já é considerado um dos piores envolvendo maus tratos a animais na história do País

Um cenário de guerra. Há mais de 15 dias, ativistas, socorristas e veterinários se desdobram para tentar salvar mais de mil búfalas deixadas à própria sorte em uma fazenda em Brotas, no interior de São Paulo. O caso já é considerado um dos piores envolvendo maus tratos a animais na história do País.

São pelo menos 1.056 animais, a maioria fêmeas e prenhas, deixadas sem água e comida. O proprietário da fazenda, segundo consta em inquérito policial, está arrendando as terras para o cultivo de soja, motivo pelo qual transformou os pastos em campos de plantações, deixando os animais à deriva. As búfalas eram utilizadas para a extração de leite.

Na fazenda, a corrida é contra o tempo. Na entrada da extensa propriedade, um hospital de campanha improvisado tenta trazer vida àquelas condenadas à morte.

“Nós pegamos esses animais no campo, debilitados, a ponto de não conseguirem levantarem, trazemos pra cá, hidratamos, fazemos vitaminas, fazemos medicamentos para tentar estabilizar esse fígado e rins. Levantamos eles de duas a três vezes por dia no trator, porque são animais grandes, pesados, e muito tempo deitado pode comprometer fígado, abrir feridas que são as escaras e também a atrofia de membros”, explica o veterinário Maurice Gomes Vidal.

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Para atender os animais feridos, os socorristas convivem com um mau cheiro intenso. A 200 metros do hospital de campanha, se acumulam corpos de dezenas dos que não conseguiram se salvar. As búfalas se decompõem, a céu aberto, na companhia de urubus. O cenário já foi pior: as equipes falam em mais de 200 animais mortos, muitos enterrados em valas, ainda vivos.

“Nos primeiros dias não sabíamos quais animais resgatar, qual atender primeiro, de tantos animais caídos no meio de rio, atolados em brejo, no meio do pasto, todos morrendo à míngua, estavam comendo cascas de árvores em uma tentativa de se manterem em pé”, contou à reportagem o presidente da ONG Amor e Respeito Animal (ARA), Alex Parente.

Os animais foram encontrados confinados em um pequeno espaço, sem água e pasto. O proprietário da fazenda está arrendando as terras para o cultivo de soja

Entenda o caso

A situação dos animais chegou ao conhecimento das autoridades por uma denúncia anônima. A Polícia Ambiental de Brotas chegou à fazenda no dia 6 de novembro e se deparou com 335 búfalas e 332 bezerros, todos do gênero bulalus (búfalo-asiático), confinados em um pequeno espaço da fazenda, uma área de preservação ambiental, sem água e pasto, já que as demais áreas estavam arrendadas para a plantação de soja. Pelo menos 22 animais mortos foram identificados em uma primeira varredura.

Neste primeiro momento, o proprietário da fazenda Água Sumida, Luiz Augusto Pinheiro de Souza, foi multado em 2,13 milhões de reais por maus tratos. Na quarta-feira 24, após nova inspeção na propriedade, o fazendeiro recebeu nova multa de 1,45 milhão pela Polícia Ambiental, após a descoberta de 385 búfalas e 72 cavalos ’em estado de magreza acentuada, conceituando o quadro de desnutrição evidente, causada por insuficiência ou ausência de alimentos’. A legislação ambiental estipula multa de 3 mil reais por espécie ao proprietário de animal flagrado em situação de maus tratos.

 

No dia 11 de novembro, a Polícia Civil, sob o comando do delegado Douglas Brandão do Amaral, prendeu em flagrante o proprietário da fazenda. Ele foi autuado por maus tratos e irá responder por cada animal encontrado em situação de maus tratos. Um dia depois, no entanto, o fazendeiro foi solto por uma decisão judicial, após pagar fiança de 10 mil reais. O inquérito, no entanto, segue em andamento, e vai investigar o proprietário pelos crimes de maus tratos, poluição e associação criminosa, como explicou Amaral à reportagem.

“No momento são os crimes de maus-tratos, poluição, há diversas valas espalhadas pela propriedade, ele não descartou as carcaças dos animais que morreram nos últimos meses da forma que a Cetesb recomenda. Há um regulamento, uma norma estadual, disciplinando como deve ser feito o descarte de cada animal morto, ele não obedeceu.  Então ele vai responder pelo crime de poluição, previsto no artigo 54 da Lei 9605, de 98, e também por associação criminosa, previsto no artigo 288 do Código Penal”.

Em nota encaminhada à reportagem, a Companha Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) encaminhou uma orientação dada em 26 de novembro de como deve ser feito o enterro das búfalas mortas encontradas na fazenda.

O caso de das búfalas de Brotas deve servir para conscientizar a população sobre os efeitos da indústria do abate de animais

“A orientação da CETESB é que as carcaças sejam enterradas longe de mananciais e das Áreas de Preservação Permanente – APP, preferencialmente, nas áreas mais altas da propriedade e com baixas declividades, devido ao risco de erosão”, diz um trecho do comunicado.

“Os locais de enterramento deverão comportar até seis animais dispostos lado a lado, compactando o fundo das valas e cobrindo os animais com uma camada de solo de, no mínimo, 60 cm. Além disso, deverá ser mantida uma distância mínima de 50 metros entre os locais de enterramento, os quais devem ser identificados com marcos para o registro das coordenadas geográficas. As pessoas que manusearem os animais devem utilizar Equipamento de Proteção Individual”, completou a companhia.

Luiz Augusto Pinheiro de Souza é dono do restaurante Fatto Di Bufala, em Brotas. Créditos: Reprodução

Luiz Augusto Pinheiro de Souza também é dono de um restaurante na cidade de Brotas, chamado Fatto di Bufala, que tem entre seu cardápio especiarias como queijo derivado da espécie. O estabelecimento já estava fechado antes do caso vir à tona, supostamente por conta da pandemia. A polícia também vai investigar possível crime contra a saúde pública.

“Vamos na origem, que é a propriedade rural dele, onde ele extraía leite dessas búfalas e o local onde ele refrigerava esse leite e o mantinha está em total desacordo com a legislação vigente no País. Então, vamos na origem, e depois vamos à Anvisa ver quem comprava, quem adquiria esse leite, e assim vamos continuar a investigação, mas em um inquérito à parte dos maus tratos”, acrescenta o delegado.

Voluntários lutam pela guarda definitiva dos animais

A atuação dos voluntários na fazenda foi respaldada por uma decisão jurídica. A Justiça concedeu uma tutela de urgência dos animais à ONG ARA para cuidar dos animais, mas limitou a dez o número de pessoas que podem entrar na propriedade. A decisão é contestada pela advogada ativista que representa o caso, Antilia da Monteira Reis.

“Só quem está aqui entende que dez pessoas é impossível, que não deixar cuidar do rebanho que está lá na área de proteção ambiental, jogado, não tem condição, os animais estão piorando”, relatou. “Nós vamos brigar até o final pela guarda definitiva desses animais. Não estamos cuidando desses animais para voltarem a ser explorados, mortos e dizimados no sofrimento pelo dono”.

O grupo de cuidados com os animais é composto de ativistas, veterinários e integrantes do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (GRAD) que atuou no caso das queimadas no Pantanal, bem como nos desastres em Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais.

O veterinário Maurice Gomes Vidal estima que os cuidados com os animais ainda devem se estender por, no mínimo dois meses, e reconheceu que, nesse momento, eles não têm condições físicas de serem transportados a um outro local. O profissional também entende que os maus tratos devem se arrastar minimamente há cinco meses para as búfalas chegarem ao quadro que estão.

Eles são animais extremamente resistentes, têm uma força incrível, então, para estarem nesse estado, isso deve se arrastar há minimamente cinco meses”, disse. “Hoje esses animais têm na faixa de 200 a 300 kg, um animal saudável teria na faixa de 600 a 700 kg”, acrescentou o veterinário que ainda estimou que, em condições normais, um búfalo chega a consumir 70 a 80 litros de água por dia e a 40 a 50 quilos de alimento.

Para o ativista vegano Antonio Carlos Furlan, o caso das búfalas de Brotas deve servir para conscientizar a população sobre os efeitos da indústria do abate de animais e também para pautar a necessidade de leis que os reconheçam como seres de direito.

É hora de mudarmos os hábitos, criarmos um mundo mais humano. Você pegar uma búfala dessa e mandar pro abate ou então colocar ela pra fornecer leite, com uma máquina amarrada na teta dela tirando sangue e pus, não faz sentido, a gente não precisa disso”, pontua, refletindo sobre a Lei dos Maus Tratos (9065/1998).

“A lei é necessária, é a ela a quem recorremos em casos como este, mas a gente tem que ir além“, defende. “Os animais sentem dor, medo, fome, só que esse direito não é dados a eles, os animais não têm voz para reclamá-los. É essa consciência que precisamos ter.”

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