Sociedade
Assassinatos e conflitos fundiários: o que diz o relatório do Cimi sobre a violência contra indígenas em 2025
O documento, divulgado nesta quinta-feira, indica uma alta de 22% nos assassinatos de indígenas
Em 2025, foram registrados 258 assassinatos de indígenas — uma alta de 22% frente aos 211 casos de 2024. Os dados vêm do Sistema de Informação sobre Mortalidade e de secretarias estaduais de saúde, compilados pelo Conselho Indigenista Missionário, o Cimi, e foram divulgados nesta quinta-feira 13.
O relatório aponta que a maior parte das vítimas são homens (194 homens e 64 mulheres) e jovens — 52,7% do total tinham menos de 30 anos. O elemento regional também é um destaque do documento: os dados de 2025 apontam que os três estados que lideram os registros se repetem em relação ao ano anterior:
- Roraima: 82 mortes;
- Amazonas: 47; e
- Mato Grosso do Sul: 37.
Os casos de tentativa de assassinato somam 38, contra pelo menos 43 pessoas. Acre (2), Amazonas (1), Bahia (1), Ceará (1), Maranhão (2), Mato Grosso (2), Mato Grosso do Sul (18), Paraná (1), Pará (6), Rio Grande do Sul (2), Rondônia (1), Roraima (1) são os estados em que os casos foram registrados.
Na Terra Indígena (TI) Apyterewa, na região paraense do médio Xingu, lideranças do povo Parakanã foram alvo de diversos ataques armados, realizados por invasores que tentam restabelecer suas posses ilegais dentro da TI, após terem sido expulsos por operações de retirada de garimpeiros realizadas pelo governo Lula (PT).
Além dos dados oficiais, o Cimi também fez um levantamento próprio, baseado em relatos de equipes missionárias e na imprensa. Apesar de apontar menos mortes que o número oficial (63 casos que resultaram em 68 indígenas assassinados), a estatística do Cimi tem um critério mais qualitativo, documentando caso a caso.
Esses homicídios ocorreram nos estados do Acre (3), Alagoas (1), Amazonas (5), Bahia (10), Maranhão (4), Mato Grosso (3), Mato Grosso do Sul (16), Paraná (5), Pernambuco (1), Rio Grande do Sul (5), Roraima (3) Santa Catarina (1) e Tocantins (2).
Segundo o levantamento, em 22 dos 63 casos registrados, foram utilizadas armas de fogo, enquanto em 29 ocorrências houve o emprego de armas brancas. “Revelando um cenário marcado pela recorrência de instrumentos letais e pelo agravamento das violências praticadas contra indígenas”, diz o documento.
O Cimi ressalta que três casos ocorreram em territórios marcados, em 2025, pelo acirramento dos conflitos fundiários. Em Porto Seguro (BA), na Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, o pataxó Vitor Braz foi morto a tiros na noite do dia 10 de março. Cerca de 300 lideranças indígenas dos povos Pataxó e Tupinambá encontravam-se em Brasília e participariam, no dia seguinte, de uma audiência pública voltada a discutir, justamente, soluções para garantir a demarcação de suas terras no sul e extremo sul da Bahia.
Pataxós na sede do STJ, em 2019, durante o processo de revisão da demarcação da Terra Indígena de Barra Velha. Foto: Gustavo Lima/STJ
Menos de um mês depois, na TI Comexatibá, que faz limite com a TI Barra Velha – e, como ela, aguarda a conclusão do processo demarcatório –, João Celestino Lima Filho, liderança Pataxó de 50 anos, morreu após ser atingido por disparos de arma de fogo numa retomada.
No Mato Grosso do Sul, em novembro, o Guarani Kaiowá Vicente Fernandes foi morto com um disparo na cabeça, efetuado durante um ataque de pistoleiros contra uma retomada realizada por indígenas do tekoha Pyelito Kue, localizado na TI Iguatemipegua I.
Outras violências
Além das mortes, em 2025, foram registrados 33 casos de lesões corporais contra indígenas no Brasil. Os estados com maior número de registros foram o Mato Grosso do Sul, com 18 casos, e Maranhão, com quatro, e o Mato Grosso, com três. Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram dois casos cada,
Segundo o Cimi, muitos dos incidentes registrados estão relacionados a conflitos pela posse da terra indígena e manifestações de racismo e preconceito contra os povos indígenas, que escalaram até a agressão física.
O relatório cita o caso de três estudantes indígenas vítimas de agressões e ofensas racistas na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis (SC). Os jovens estavam em frente ao alojamento onde residem quando foram abordados por um grupo de aproximadamente 10 pessoas, que proferiu insultos como “bando de índios, o lugar de vocês não é aqui” e “vagabundos”.
Além das agressões verbais, os estudantes foram atingidos por pedras arremessadas pelo grupo, causando ferimentos, hematomas e lesões no nariz e na orelha de um dos estudantes
Omissão do poder público
O Cimi contabilizou ainda episódios classificados como “desassistência geral” aos povos indígenas. Entram nesta estatística casos de alagamentos e isolamento que não tiveram apoio de autoridades, por exemplo. Foram registrados 58 casos em 2025, com São Paulo e Paraná na liderança, com 7 registros cada.
O relatório cita o caso em que o Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública contra a Companhia Paranaense de Energia (Copel) solicitando uma indenização de 1 milhão de reais para as comunidades indígenas das aldeias Tekoa Takuaty e Pindoty, localizadas na Ilha da Cotinga, em Paranaguá.
A ação foi motivada pelas constantes falhas no fornecimento de energia elétrica e pelas deficiências nos sistemas fotovoltaicos instalados pela Copel, que deixam as aldeias sem luz por períodos prolongados, impactando diretamente o acesso a direitos básicos como saúde, alimentação e educação. A situação perdura há mais de 10 anos. Em setembro, a Justiça Federal determinou, em decisão liminar, que a Copel disponibilize geradores provisórios para garantir o fornecimento de energia às comunidades
Manifestação dos povos Pataxó e Tupinambá em 2025. Foto: Tiago Miotto/Cimi
O documento ressalta ainda que a falta de políticas públicas de segurança e de maior presença do Estado facilita aos criminosos o aliciamento da juventude. No ano de 2025, foram registrados 14 casos de disseminação de bebidas alcoólicas e outras drogas em cinco estados: Acre (3), Amazonas (7), Mato Grosso do Sul (2) e Rio Grande do Sul (1).
Em alguns territórios, como nos casos registrados no Acre, o consumo de álcool constitui uma crise social que aumenta todos os tipos de violência, como assassinatos e agressões, a ponto de o Ministério Público do Estado do Acre proibir a venda de bebidas alcoólicas na cidade de Feijó.
“Apesar das operações realizadas, sem uma política pública de combate ao narcotráfico e de cuidado com dependentes químicos, de fiscalização de fronteiras e de proteção dos territórios indígenas, as populações indígenas continuarão expostas e vulneráveis a esses problemas”, diz o texto.
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