Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

Indígenas vão disputar o Congresso que sempre decidiu por eles

Com candidaturas em expansão, povos indígenas tentam ocupar um Congresso que decide sobre terras, rios e clima sem ouvir os povos originários

Indígenas vão disputar o Congresso que sempre decidiu por eles
Indígenas vão disputar o Congresso que sempre decidiu por eles
Indígenas protestando na COP30, em Belém. Foto: Mauro Pimentel/AFP
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

Os eleitores paraenses podem votar para o Legislativo em candidatos que representam os interesses do garimpo ilegal, de milícias armadas que massacram os povos do campo e do agronegócio que pulveriza agrotóxicos como se o mundo fosse apenas praga e erva daninha. Não faltam opções para quem apoia essa visão de mundo.

Para quem não se vê representado por esses políticos, começam a aparecer novas alternativas. As pré-candidaturas indígenas já anunciadas para a eleição de outubro fazem parte de uma articulação construída ao longo da última década. Desde pelo menos 2017, no ATL (Acampamento Terra Livre), a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) defendeu ampliar a presença indígena no Congresso diante do avanço de setores ligados ao agronegócio, à mineração e a grupos religiosos conservadores.

Em eleições recentes, essa estratégia produziu resultados. Em 2018, Joenia Wapichana se tornou a primeira mulher indígena eleita deputada federal. Em 2022, Sônia Guajajara e Célia Xakriabá ampliaram essa presença. Em 2026, o que se vê é a tentativa de dar escala nacional a essa disputa.

Entre os nomes já colocados na disputa estão Alessandra Munduruku (PT), candidata a deputada federal, e Auricélia Arapiun (PSOL), candidata a deputada estadual, ambas do Pará.

As duas já mostraram que não precisam de cargos nem de votos para demover o governo de erros grosseiros. Foi assim na anulação do Decreto 12.600/2025, que incluía mais de 3 mil quilômetros de rios amazônicos, entre eles Tapajós, Madeira e Tocantins, em um plano de concessão voltado à dragagem para navegação e ao transporte de soja por barcaças.

A reação veio com a ocupação do terminal da Cargill, em Santarém, durante 33 dias. Indígenas de pelo menos 14 povos do Baixo Tapajós bloquearam o escoamento de grãos, interceptaram embarcações no rio e pressionaram diretamente a logística do agronegócio. Ao final, o governo recuou e revogou o decreto.

Alessandra Munduruku é uma das vozes mais incômodas para quem defende abrir de vez a Amazônia à mineração e ao agronegócio. Nos últimos anos, ao lado de seu povo, ajudou a barrar hidrelétricas no Tapajós, denunciou o garimpo ilegal de ouro e foi ameaçada por isso. Também esteve na linha de frente da mobilização que fez o governo recuar.

Durante a COP30, em Belém, estampou a capa da revista Vogue. Em 2023, recebeu o Goldman Environmental Prize, considerado o principal prêmio ambiental do mundo.

Embarquei com ela e com o povo Munduruku em um ônibus rumo à conferência. Bloquearam a entrada por quatro horas. “O Tapajós não é mercadoria, o Tapajós não pode se negociar, é vida, somos nós”, me disse no dia seguinte ao ato. Ela também criticou a falta de vontade política do presidente Lula (PT), do partido ao qual se filiou para disputar a eleição.

Já Auricélia Arapiun construiu sua liderança no Baixo Tapajós enfrentando o avanço do garimpo, do agronegócio e de grandes projetos logísticos sobre a região. Foi uma das articuladoras da ocupação desde o início, quando cerca de 60 indígenas decidiram entrar no terminal sem estrutura, água ou alimentação. A aposta era que a mobilização cresceria. Cresceu. Em poucos dias, eram centenas. Ao final, mais de mil pessoas organizadas em assembleias, cozinhas e turnos de vigilância.

Auricélia já vinha sendo ameaçada desde 2018 por sua atuação contra o garimpo. Em um discurso que viralizou, em 2023, disse que o governador do Pará, Helder Barbalho, estava “com as mãos sujas de sangue”, ao associar políticas ambientais e omissões do Estado ao aumento de mortes, contaminação por mercúrio e ausência de atendimento de saúde.

Após a revogação do decreto, ela resumiu o seu método de ação direta em entrevista à Agência Pública: “Somente a luta popular, somente a nossa resistência e o nosso enfrentamento é capaz de mudar a realidade”.

O que elas fazem no Tapajós não é exceção. O Acampamento Terra Livre deste ano, em Brasília, deixou isso explícito. Além das mobilizações de rua, o encontro virou espaço de articulação eleitoral e de fortalecimento da chamada Bancada do Cocar.

Durante o ATL, foram apresentadas mais de duas dezenas de pré-candidaturas para as eleições de 2026, incluindo disputas para a Câmara dos Deputados, assembleias legislativas e o Senado.

Entre os nomes anunciados estão Neidinha Suruí, pré-candidata ao Senado por Rondônia, e, para a Câmara dos Deputados, Sônia Guajajara, Célia Xakriabá, Joenia Wapichana, Kleber Karipuna, Marcos Apurinã, Ubirajara Sodre, Ô-é Paiakan Kaiapó, Tukumã Pataxó, Avanilson Karajá, Isac Wajuru, Rosilene Guajajara, Magno Guajajara, Eliane Potiguara, Chirley Pankará, Professor Eliel Benites, Thais Kokama, Zelandes Patamona e Aldenicia Cadete. A lista segue com outras candidaturas em diferentes estados.

Além das propostas, os indígenas, se eleitos, precisarão entrar no Congresso com as bordunas afiadas. Avançam ali medidas que tentam restringir demarcações, abrir terras indígenas à exploração econômica e ampliar o controle político sobre territórios protegidos.

Entre elas, a PEC 48/2023, que busca consolidar o marco temporal, limitando o direito à terra às áreas ocupadas em 1988 e travando novos processos de demarcação. O PL 6050/2023 abre caminho para mineração e obras de infraestrutura em terras indígenas. O PL 6093/2023 altera as regras do processo demarcatório e amplia a interferência política nas decisões. Também avançam iniciativas para rever demarcações já realizadas.

Esse movimento não começa do zero. A atual legislatura já tem nomes que ocupam espaço no poder institucional. Sônia Guajajara (PSOL-SP), a deputada federal indígena mais votada da história, vai disputar a reeleição após deixar o Ministério dos Povos Indígenas, em que foi a primeira ministra da pasta criada por Lula em seu terceiro governo. Já Joenia Wapichana (PT-RR) tenta retornar à Câmara após presidir a Funai. Primeira mulher indígena eleita deputada federal, em 2018, deixou a Rede após nove anos e volta à disputa em 2026.

As duas participaram da reconstrução da política indigenista após o período de desmonte no governo Jair Bolsonaro. Foram realizadas operações de desintrusão em terras indígenas como Yanomami, Kayapó, Munduruku, Apyterewa, Trincheira Bacajá, Araribóia e Uru-Eu-Wau-Wau.

Houve também a retomada de processos de demarcação que estavam paralisados nos anos anteriores. Nesse período, foram homologadas áreas como Kaxuyana-Tunayana, com mais de 2 milhões de hectares, além de avançar na regularização de ao menos 21 terras indígenas, com homologações, portarias declaratórias e outras etapas do processo.

Célia Xakriabá (PSOL-MG) se consolidou como uma das vozes mais ativas no debate sobre clima, mineração e território, conectando a pauta indígena a temas como transição energética e exploração de minerais estratégicos.

A presença indígena no Congresso ainda é recente. O primeiro deputado indígena foi Mário Juruna, eleito em 1982. Depois dele, o país levou mais de três décadas para voltar a eleger um representante indígena, com Joenia Wapichana, em 2018. A atual legislatura é a primeira em que essa presença começa a deixar de ser exceção.

O Brasil tem hoje 1,69 milhão de indígenas, distribuídos em 391 etnias e 295 línguas. Mais da metade vive fora de terras indígenas. As decisões sobre demarcação, mineração, infraestrutura e clima não dizem respeito apenas aos territórios isolados, mas a toda humanidade.

Votar em candidatos indígenas é, na prática, decidir quem participa dessas escolhas. Hoje, elas seguem sendo tomadas quase sempre sem a presença de quem vive nos territórios diretamente afetados. A escolha é um passo maior: deixa de ser apenas resistência e passa a ser disputa direta por poder.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo