Entrevistas

Ana Suy: ‘A gente sofre de um excesso de adultismo, que é a tendência de achar que o mundo já está pronto’

Para encarar sua realidade, defende, o Brasil precisa urgentemente falar sobre as infâncias — no plural

A psicanalista Ana Suy (Foto: Divulgação)
A psicanalista Ana Suy (Foto: Divulgação)
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O infantil está no mais essencial em nós: na forma como construímos laços sociais e afetivos, nas criações artísticas, na solidão (já que nascemos de uma separação), nas inseguranças… Para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, no divã, independentemente da idade do paciente, há sempre uma criança. 

“Na teoria freudiana o amor, mesmo na vida adulta, é sempre de repetição”, explica a psicanalista, escritora, pesquisadora e professora universitária Ana Suy. “Isso porque aprendemos a amar na infância, com nossos primeiros cuidadores, e será ao modo infantil que amaremos na vida adulta.”

Embora a infância ocupe um lugar fundamental em nossas reflexões sobre a sociedade, os adultos, não raro usam o termo “infantil” como um adjetivo pejorativo. Para Suy, a sociedade padece de um ‘excesso de ‘adultismo’: a tendência de achar que o mundo já está pronto, definido. “A vida adulta é uma batalha entre o conservadorismo e o infantil, e isso está em cada um de nós.”

Para encarar sua realidade, defende, o Brasil precisa urgentemente falar sobre as infâncias — no plural, reconhecendo e denunciando as diferenças. Em entrevista a CartaCapital, ela reflete ainda sobre a relação entre os impactos provocados pela pandemia na relação entre adultos e crianças — com a interrupção das aulas presenciais, o convívio familiar intensificado e, mais recentemente, com a vacinação infantil transformada em cavalo de batalha na guerra entre o bolsonarismo e a ciência.

“Muitas crianças estão apresentando no retorno, e apresentarão ainda atrasos na fala, inibição social, episódios de ansiedade. É preciso que tenhamos cautela para acolher esses efeitos da pandemia e do isolamento nelas. Do contrário disso, as entupiremos de diagnósticos e de transtornos — e assim, seguiremos roubando a infância delas.

Confira os destaques a seguir.

CartaCapital: Porque é tão urgente falarmos de infâncias?

Ana Suy:  Primeiramente acho que vale destacar que a palavra “infância” vem do latim “infãns”, que significa “aquele que não fala”. Inicialmente o bebê realmente não fala, e por isso precisa ser acolhido e interpretado pelo outro. Para os humanos, a presença deste outro é uma questão de vida ou morte. Mas, se tudo corre bem, muito rapidamente as crianças passam a fala. E elas falam, primordialmente, a partir daquilo que ouvem. Nesse sentido, as crianças dão feedbacks aos adultos daquilo que eles falam e não escutam.

Mais do que isso, as crianças fazem perguntas aos adultos essencialmente sobre coisas que eles não sabem responder. As perguntas infantis são riquíssimas por apontarem para o caráter “em construção” que é o mundo. Mas a gente sofre de um excesso de adultismo, que é a tendência a achar que o mundo já está pronto, definido e as coisas são o que são. Esta é uma tentativa neurótica de nos defenderemos da vida. É que viver dá trabalho, todos os dias há batalhas, há louça na pia…

CC: Voltando às crianças, quais são os impactos do distanciamento, em decorrência da pandemia, sobre o desenvolvimento infantil ?

AS: Certamente vamos verificar os impactos nas crianças na medida em que formos retornando às atividades. No entanto, de modo geral, o que sabemos das nossas crianças de hoje é que a escola é o espaço privilegiado de vivência da infância. Cada vez mais as crianças convivem com menos crianças fora da escola, já que tem-se menos filhos e menos contato com a família ampliada. Isso sem contar com a violência que assola nosso país, que inevitavelmente acaba levando as crianças a trocar o espaço de brincadeiras nas ruas com outras crianças pelo consumo de telas, sozinhas em casa. Então, nesse sentido, muitas crianças tiveram suas infâncias roubadas, não podendo vivê-las. Muitas crianças estão apresentando no retorno, e apresentarão ainda atrasos na fala, inibição social, episódios de ansiedade. É preciso que tenhamos cautela para acolher esses efeitos da pandemia e do isolamento nelas. Do contrário disso, as entupiremos de diagnósticos e de transtornos — e assim, seguiremos roubando a infância delas.

CC: O que o confinamento nos revelou sobre a infância em termos de educação e sobre a função dos pais (ou cuidadores)?

AS: Há um provérbio africano bastante conhecido, que diz que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Uma criança não é propriedade dos pais, então, toda a sociedade, em certa medida, é responsável pela educação de uma criança. Embora seja terrível para os adultos conviver com uma, duas, três pessoas apenas, ao longo de meses a fio, ao menos os adultos têm a função da linguagem desenvolvida o suficiente para fazer uso da tecnologia para manter laços com as pessoas. Mas as crianças não têm essa sofisticação, e por isso precisam de outras vozes, cheiros, texturas para além dos providos pelos pais. Nesse sentido há uma grande perda em termos de vivência, para além do que já apontei.

Além disso, o confinamento, com o fechamento das escolas e a continuidade do trabalho dos pais em casa com a mesma demanda de produtividade, revelou o quanto nossa sociedade deixa os pais desamparados. Em grande parte das famílias, os pais se fecharam trabalhando em um cômodo da casa, numa bela simulação do escritório habitual na empresa, enquanto coube às mulheres dar conta dos cuidados com as crianças e com a casa, além do trabalho delas. Não por acaso o número de divórcios aumentou. O distanciamento social escancarou a péssima distribuição das tarefas em cada casa. 

CC: Quais as consequências deste excesso de adultismo?

AS: O excesso de adultismo leva à rigidez, na tentativa de estabilizar o mundo. Falar de infâncias, então, é fazer furos nisso que supostamente estaria pronto. É fazer perguntas infantis, questionar. É dar notícias da falta. Sabemos que é daí que nasce a criatividade, da falta, né? Por isso temos horror à falta, porque ela nos convoca a por a mão na massa. Inventar é o oposto de consumir, uma vez que inventar é uma posição ativa, diferente da posição passiva da lógica do consumidor pela qual tendemos a ser engolidos. A vida adulta é uma batalha entre o conservadorismo e o infantil, e isso está em cada um de nós.

CC: No Brasil, como podemos fantasiar e sonhar diante de problemas como a fome, o trabalho infantil e a violência?

AS: É sempre preciso que apostemos na vida, porque essa é a única opção, se a desejamos. Assim, é claro que é importante nos sensibilizarmos e nos deixarmos doer por todo o desamparo que a maioria maciça das pessoas que moram no Brasil sofrem, mas é preciso que essas mazelas não nos paralisem. A possibilidade de fantasiar e sonhar é tudo o que alguns de nós tem, é essencial dar dignidade a isso.

Se ficamos reduzidos a uma condição de objeto, a uma condição de passividade, a uma condição de meros consumidores de algo, não atravessamos as tragédias, somos engolidos por ela. E é preciso que as atravessemos. 

Talitha Haia

Talitha Haia
Médica, escritora e mestre em psicanálise pela Sorbonne em Paris

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