‘Não contar com vacina da Sinovac será crime de lesa-humanidade’

Sanitarista Gonzalo Vecina e infectologista Marcos Boulos analisam fala de Bolsonaro sobre imunizante chinês

PRESIDENTE JAIR BOLSONARO. FOTO: EVARISTO SÁ/AFP

PRESIDENTE JAIR BOLSONARO. FOTO: EVARISTO SÁ/AFP

Política,Saúde

O presidente Jair Bolsonaro declarou nesta quarta-feira 21 que o governo brasileiro não adquirirá a vacina chinesa desenvolvida pelo Instituto Butantan e pela farmacêutica Sinovac. Em sua justificativa, o presidente alegou que “qualquer vacina, antes de ser disponibilizada à população, deverá ser comprovada cientificamente pelo Ministério da Saúde e certificada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

 

 

Mas dá para se falar em comprovação científica de vacinas neste momento?

A verdade é que não. Todos os candidatos à vacina da Covid-19 no mundo estão em fases de testes clínicos, alguns na fase 3, a última da pesquisa e que prevê não só maior participação de voluntários, como maior precisão em relação aos quesitos de segurança e eficácia.

Depois disso, as vacinas ainda devem ser submetidas a agências reguladoras para aprovação – no caso do Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os estudos também são publicados para avaliação do mundo científico.

No Brasil, a Coronavac, do Instituto Butantan e Sinovac, é uma das que tem seus testes clínicos aprovados pela Anvisa, além da de Oxford, desenvolvida pelo laboratório AstraZeneca e Fiocruz; a Pfizer-Wyeth; e a Janssen-Cilan, da Johnson & Johnson (atualmente em pausa para estudo de efeitos adversos).

CartaCapital convidou o médico sanitarista Gonzalo Vecina e o infectologista Marcos Boulos, que trabalha no Centro de Contingenciamento de Coronavírus do estado de São Paulo, para comentar a conduta do presidente e desmistificar questões sobre o andamento das vacinas no Brasil e no mundo. Confira:

 

CartaCapital: Como vocês recebem a polêmica criada por Bolsonaro sobre a compra da vacina chinesa?

Gonzalo Vecina: Não faz sentido nenhum. As vacinas estão em fase de teste e as que forem universalmente aceitas serão apresentadas às agências reguladoras e ainda terão seus estudos publicados para sofrerem a crítica do mundo científico. Veja, a China não está fazendo testes aqui ou em qualquer outro País baseada em teorias absurdas, apenas vem seguindo as regras desenhadas no mundo inteiro para aprovação de vacinas e medicamentos. Feito isso, a segurança e eficácia estarão comprovadas. Quem não quiser tomar, não toma, mas será por ignorância, não porque os testes não foram realizados.

Marcos Boulos:  Estou convencido de que o presidente Bolsonaro faz uso político do assunto, não só em relação ao que vem da China, que ele sempre tratou de maneira pouco respeitosa, como a disputa com o governo paulista. O afã dele falar isso está relacionado mais à política do que qualquer problema sanitário. Aliás, ele nunca deu importância nenhuma aos problemas sanitários. Os ministros [da Saúde] caíram exatamente por isso. Agora, para surpresa, o ministro [Eduardo Pazuello], mesmo sendo militar, age com racionalidade, porque todos estão preocupados, e sinalizou que ‘quando houver a vacina, vamos comprar’. O presidente, mais uma vez, age de maneira política e não técnica.

 

CC: Era importante ao Brasil manter o protocolo de intenções em relação à compra da vacina chinesa? Vocês veem riscos do ponto de vista sanitário ao País com o cancelamento do documento?

GV: Seria fundamental conseguir identificar esta compra agora. Se a Sinovac não vender aqui, vai vender em outro lugar. Todo mundo está querendo comprar vacina. Eu acho que as consequências só não serão piores porque o governo do estado de São Paulo deverá levar à frente esse acordo e vai manter a compra da tecnologia para o Instituto Butantan. Agora, veja, esse mesmo protocolo foi assinado com a AstraZeneca, sem garantias, porque é isso que deve ser feito, sobretudo durante uma pandemia. A vacina deles pode dar água, e se der água, o governo vai perder o dinheiro do protocolo que já foi assinado. Então vejo o ato do presidente diante a vacina chinesa como xenofobia, não tem outra explicação.

É muito grave. O Brasil tem mais de 150 mil mortos na pandemia. Sou das pessoas que acreditam que, em um futuro muito próximo, vamos ter que instituir uma Comissão da Verdade para descobrir se existe responsabilidade por essas mortes, eu acredito que existe. Voltando às vacinas, se tudo correr bem, é provável que a da Sinovac comece a ser entregue em janeiro e a da AstraZeneca, a partir de março, abril. Perderíamos dois meses de vacinação se não aderirmos a ela. E mais, nenhuma dos dois laboratórios [AstraZeneca e Sinovac] têm condições de fornecer vacina para 100% da população brasileira. Pelo que está publicado, estamos dizendo que essas duas vacinas juntas, no limite da sua capacidade, conseguiriam imunizar, no primeiro semestre do ano que vem, 93 milhões de brasileiros, porque serão necessárias duas doses. Não contar com a vacina da Sinovac será um crime de lesa-humanidade cometido por este governo e pelo qual ele terá que ser responsabilizado.

MB: Se a vacina chinesa estiver disponível antes, eu não vejo nenhuma chance do presidente não assumir isso, porque seria uma loucura. Todos os estados se voltariam contra ele. Aliás, a pressão para que o ministro da Saúde se comprometa a utilizar a vacina antes dela estar pronta vem dos estados. Agora, a previsão de se utilizar uma vacina em dezembro, janeiro, é um otimismo exagerado. Nós provavelmente não a teremos pelos próximos dois, três meses.

 

 

 

CC: Hoje também foi noticiada a morte de um voluntário que integrava o grupo de testes da vacina de Oxford. É motivo de alarmismo para a sociedade?

GV: A pergunta que tem que ser feita é: ele morreu em decorrência dos testes ou de outra causa, da qual morreria normalmente se não tivesse tomando a vacina? Como a Anvisa permitiu que os testes continuassem, muito provavelmente, a morte dessa pessoa não tem nada a ver com a vacina. Deve ter sido uma morte ocasionada por qualquer outro caso. Veja, uma pessoa pode morrer atropelada, atravessando a rua. Precisamos de mais informações para discutir o caso e é pra isso que são feitos esses estudos, para conseguirmos enxergar casos de mortalidade que aconteçam no meio do caminho. Mas não é motivo para pânico ou descrédito em relação à vacina de Oxford.

MB: Ao se encontrar um efeito que pode estar ou não relacionado à vacina, é preciso investigar. Isso é comum em pesquisas amplas e essa investigação é entregue a um grupo de cientistas do mundo todo dedicado a acompanhar o andamento da pesquisa. A partir daí é que sairão orientações mais adequadas. Ainda assim, é muito pouco provável que essas vacinas tenham efeitos colaterais dessa monta. Pode haver efeitos colaterais reacionais mais diretos, mas algo que será observado a longo prazo. Mas mortes súbitas, muito provavelmente, não têm nada a ver com a vacina nem com o placebo.

Nenhum tipo de descrédito com os estudos está colocado. Agora, para a população é sempre assustador, ainda mais em tempos de fakenews. O risco é que mesmo depois de esclarecido, as pessoas passem a não acreditar em pesquisas e vacina.

 

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Repórter do site CartaEducação

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