Diante da variante Delta, vacinar adolescentes deveria ser prioridade?

O infectologista Julio Croda defende a revacinação de idosos e imunossuprimidos contra o avanço da cepa, a mais transmissível até agora

A cidade de Osasco na Grande São Paulo, começou a vacinar adolescentes de 12 a 17 anos com comorbidades (Foto: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO)

A cidade de Osasco na Grande São Paulo, começou a vacinar adolescentes de 12 a 17 anos com comorbidades (Foto: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO)

Política,Saúde

Depois de um ano e meio de pandemia, o Brasil enfrenta o avanço da variante Delta do coronavírus. A nova cepa foi identificada pela primeira vez no País em junho. À época, representava 2,3% dos casos que passavam por sequenciamento genômico. Agora, corresponde a mais de 20% deles.

O cenário preocupa especialistas, sobretudo por esta ser uma variante mais contagiosa da doença — supera o vírus causador da MERS, o ebola, o resfriado comum, a gripe sazonal e a varíola, segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos.

No Brasil, a cepa já estaria presente em pelo menos 15 estados, sendo o epicentro o Rio de Janeiro, com mais de 400 casos e 7 mortes. O Ministério da Saúde contabiliza até agora pouco mais de 1.000 casos da doença e quarenta óbitos. Em São Paulo, já são 231 casos confirmados.

É neste contexto que o País começa a estudar a possibilidade de ofertar uma terceira dose da vacina à população. Na segunda-feira 16, o Ministério da Saúde admitiu que já avalia revacinar os idosos, com base em estudos preliminares que indicam queda de proteção em pessoas de determinadas faixas etárias.

A OMS chegou a pedir para que países adiem a terceira dose até que todos as nações tenham ao menos 10% de suas populações vacinadas

“Se nós formos pensar em uma terceira dose, a gente está calculando trabalhar priorizando determinados grupos. Só que a gente não decidiu ainda. Existem outras variáveis que serão analisadas, mas nós conseguiríamos fazer este ano sim”, declarou a secretária extraordinária de enfrentamento a Covid-19, Rosana Leite de Melo, durante audiência pública no Senado da comissão temporária que discute a pandemia (CT-Covid-19).

Muitos países tem investido nessa iniciativa. No dia 13 de agosto, a FDA americana anunciou a permissão para que imunodeprimidos e transplantados recebam doses extras das vacinas da Pfizer e Moderna, as duas utilizadas pelo país.

Israel, por exemplo, já aplicou a dose de reforço em imunodeprimidos e agora vai revacinar pessoas com 50 anos ou mais. Na América Latina, o Chile foi o primeiro a anunciar a oferta de terceira dose para a população acima de 55 anos que tenha sido imunizada com as duas doses da vacina Coronavac. O Uruguai também seguiu a estratégia para a população que recebeu a Coronavac.

 

Coronavac x terceira dose

“Se fosse para escolher um público alvo pra receber essa terceira dose com certeza seriam as pessoas acima de 80 anos que receberam a Coronavac”, afirma o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMS.  “E não porque ela seja pior que a AstraZeneca, e sim porque utilizamos esse imunizante no início da vacinação, quando grupos de pessoas mais idosas estavam sendo imunizados.”

Croda coordenou um estudo internacional que mediu a efetividade da Coronavac entre maiores de 70 anos, em um contexto onde a maioria das infecções se dava pela variante P.1. e concluiu que, conforme aumentam a idade do paciente e o tempo, a Coronavac perde efetividade.

Passados 14 dias da aplicação da segunda dose em pessoas com idade média de 76 anos, a capacidade do imunizante de impedir sintomas foi de 42%; a partir dos 80 anos, esse percentual é ainda menor, de 28%.

Os números podem assustar, mas já era esperada, garantem os pesquisadores. O envelhecimento também diminui a resposta imune. “Eles respondem menos às vacinas, então isso é esperado para Pfizer, Astrazeneca, Coronavac e Janssen”, esclarece ele.

O infectologista Júlio Croda, durante entrevista coletiva do Ministério da Saúde em 2020 (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

Diante de variante Delta, Croda defende que o Ministério da Saúde adapte ao contexto brasileiro algumas estratégias vacinais. O pesquisador questiona, por exemplo, o avanço da vacinação em grupos de adolescentes, que não são os mais vulneráveis ao coronavírus. “O objetivo tem que ser o de prevenir hospitalização e morte.”

“Em vez de ficarmos direcionando doses de 12 a 17 anos, por exemplo, poderíamos remanejar parte delas para atender pessoas de maior risco, como idosos e imunodeprimidos”, completa. “Poderíamos começar com grupos de 90, 80 anos, que são pequenos.”

Para Croda, é possível revacinar idosos e vacinar adolescentes simultaneamente. Mas isso requer planejamento. “O que vejo é que não há ponderação técnica”, critica. “Quando os demais países avançaram com a vacinação dessas faixas etárias mais jovens a doença estava controlada, não tínhamos a Delta.”

 

 

 

O alerta da OMS

A aplicação de uma dose de reforço da Covid-19 vêm dividindo opiniões. A Organização Mundial da Saúde questiona a falta de evidências científicas que embasem a necessidade da terceira dose das vacinas. Na semana passada, a vice-diretora da Organização Mundial da Saúde, Mariângela Simão, ainda alertou que aplicação de doses de reforço por países ricos pode provocar uma escassez ainda maior de vacinas no restante do mundo. A OMS pediu para que países adiem a terceira dose até que todos os países do mundo tenham ao menos 10% de suas populações vacinadas.

Um levantamento feito pela BBC mostrou a disparidade vacinal ao redor do globo. No topo da lista, figuram países com altas taxas de doses por 100 pessoas: Emirados Árabes (175,6), Reino Unido (131,6), França (118,2) Estados Unidos (106,4).

Na outra ponta, há lugares onde a cobertura vacinal é praticamente irrisória, sobretudo no continente africano: Madagascar (0,7), Camarões (1,4), Níger (1,8) , Nigéria (1,9), Sudão (1,9), Etiópia (2,0), Zâmbia (2,8). Também chama a atenção a situação de países do Oriente Médio como Iêmen (1,0) e Síria (2,0).

 

Especialistas reforçam a necessidade de medidas de proteção

O avanço da vacinação não basta para evitar a variante Delta. Também é preciso reforçar medidas como uso de máscara e controle de aglomerações, já desgastadas em boa parte do País.

“Se vamos ter uma nova onda ou não depende de nós e não do vírus”, pontua o sanitarista Paulo Buss, professor emérito da Fiocruz, em webinar de CartaCapital que abordou o assunto.

“Essa variante decorre da multiplicação grande do vírus a partir da quantidade de casos que vão acontecendo. Se mantivermos comportamentos como o de aglomerar e não manter certo distanciamento social podemos sim ter uma predominância dessa cepa.”

Durante a mesa, especialistas voltaram a criticar a politização da pandemia e a falta de esforço do Ministério da Saúde em promover campanhas informativas para a população.

“O Brasil segue órfão de uma liderança a ser seguida principalmente em nível federal. Em breve, a Delta poderá ser a pandemia e isso traz mais desafios, sobretudo pela maior transmissibilidade”, observou o virologista e pesquisador em epidemiologia genômica da Universidade de Yale, Anderson Brito.

“Sobretudo nesse momento precisaríamos reforçar campanhas informativas, em cadeia nacional, de que as vacinas disponíveis são eficazes para evitar casos mais graves, internações e mortes e nos oferecem um nível de proteção desejada. A questão é que grande parcela da população não está municiada das informações necessárias”, criticou o pesquisador, reforçando a necessidade da população completar o primeiro ciclo vacinal.

 

O que já se sabe sobre a necessidade de uma terceira dose

Até o momento, como afirma a OMS, não há estudos que provem a necessidade de uma terceira dose ou mesmo da combinação de vacinas — ou seja, a certeza de que pessoas que tomaram vacinas a base de vírus inativado, caso da Coronavac, devam tomar uma a base de adenovírus, caso da Astrazeneca, ou mesmo de RNA mensageiro, caso da Pfizer. Os países têm tomado suas decisões com base em recomendações de comissões de saúde locais.

No Brasil, pesquisadores da Unifesp deram início, na segunda-feira 16 a um estudo do Ministério da Saúde para investigar a necessidade de uma terceira dose para quem tomou Coronavac. A pesquisa será feita com 1.200 voluntários em São Paulo e Salvador em quem tomou as duas doses de Coronavac há seis meses. O objetivo é saber se a terceira dose do imunizante aumenta o número de anticorpos. O grupo de voluntários participantes será dividido em quatro:  25% vão receber como terceira dose a vacina da Pfizer, 25% da Astrazeneca, 25% da Janssen e 25% da Coronavac.

A Anvisa também já liberou a realização de três estudos clínicos para avaliar a administração de doses extras da vacina. O primeiro é um estudo da Pfizer/BioNTech que investiga os efeitos, a segurança e o benefício de uma dose de reforço da sua vacina, a Comirnaty. Nesse estudo, a dose de reforço da vacina da Pfizer será aplicada em pessoas que tomaram as duas doses completas do produto há pelo menos seis meses.

O segundo caso é o do laboratório AstraZeneca, que desenvolveu uma segunda versão da vacina (AZD2816) que está em uso no país, buscando a imunização contra a variante B.1.351 do Sars-CoV-2, identificada primeiro na África do Sul. 

 

 

O terceiro é um estudo clínico para avaliar a segurança, a eficácia e a imunogenicidade de uma terceira dose da versão original da vacina da AstraZeneca (AZD1222) em participantes do estudo inicial que já haviam recebido as duas doses do imunizante, com um intervalo de quatro semanas entre as aplicações.

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Repórter do site CartaEducação

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