Afrouxamento das medidas restritivas em SP e Rio ‘é um equívoco monstruoso’, diz Gonzalo Vecina

CartaCapital ouviu especialistas para entender a 'flexibilização'; para Marcos Boulos, variante Delta mostra que a decisão é 'prematura'

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Política,Saúde

A decisão de flexibilizar medidas restritivas, anunciada por estados e municípios na esteira de uma diminuição sustentada nos registros de casos e mortes por Covid-19, é precipitada e potencialmente perigosa. É o que dizem especialistas ouvidos por CartaCapital, em meio ao temor pela variante Delta, mais transmissível que as cepas dominantes no País.

 

 

Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) anunciou a ampliação do horário de funcionamento do comércio e da capacidade de ocupação dos estabelecimentos para 80%, a partir de 1º de agosto. Atualmente, os estabelecimentos podem operar até as 23h, com uma capacidade de 60%. A partir de 17 de agosto, o governo paulista derrubará todas as restrições de horário e ocupação do comércio.

No Rio, o prefeito Eduardo Paes (DEM) anunciou um plano gradual de afrouxamento das restrições. Serão três etapas, entre 2 de setembro e 15 de novembro. O primeiro degrau já prevê a reabertura de estádios – embora com capacidade limitada e para pessoas vacinadas.

A gestão municipal também estabeleceu datas para eventos a partir de setembro para “fazer um ano de celebração”. Segundo Paes, “tudo em lugar aberto”.

O sanitarista Gonzalo Vecina, fundador da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, se disse estupefato com a notícia. Para ele, o estado de São Paulo e a capital fluminense cometem “equívocos monstruosos”.

“Estamos com uma média móvel de mortes acima de mil, acima do pior momento da 1ª onda. Há uma queda há oito semanas, isso é bastante interessante, sustentável, mas é uma queda que ainda nos deixa em um ponto muito elevado”, pondera. “E tem a questão da variante Delta.”

Segundo ele, o fato de o Brasil não promover sequenciamento genético em larga escala nos impede de mensurar o impacto desta nova cepa, identificada originalmente na Índia. Por isso, não se sabe até que ponto a nova variante pode ‘ameaçar’ o domínio da chamada ‘variante brasileira’.

Mesmo em países com uma cobertura vacinal mais elevada, aponta Vecina, a variante Delta tem feito subir o número de casos. Nesta quinta 30, uma reportagem do New York Times revelou que o CDC americano considera a nova cepa tão contagiante quanto a catapora. Ainda segundo o documento, as infecções em pessoas vacinadas são raras. Mas, quando ocorrem, os imunizados podem espalhar o vírus com a mesma facilidade. “Isso é um desastre, ainda que esses pacientes vacinados que pegam a doença não morram e nem tenham a doença em sua forma grave”, lamenta Vecina. E no Brasil? “A perspectiva para um País com baixa cobertura vacinal como o nosso é dramática, perigosa”.

A adesão à vacina pode aliviar o problema?

Um fator que pode favorecer o Brasil no combate à variante Delta é a baixa rejeição da população às vacinas. “Nós temos uma imensa tradição de vacinar toda a nossa população, sempre”, afirma Vecina. “Em Serrana, oferecemos vacinar 100% da população com mais de 18 anos. 98% se vacinaram. Não existe resistência à vacina, ou é bastante rara. Esse problema que os Estados Unidos estão enfrentando nós não temos.”

Um levantamento divulgado nesta sexta-feira 30 pela Confederação Nacional da Indústria mostra que 90% dos brasileiros querem se vacinar, ainda que seu imunizante de preferência não esteja disponível. A falta de campanhas estruturadas de vacinação, entretanto, pode se tornar um problema. “A vacinação da gripe está sendo um desastre neste ano porque não tem comunicação. Nosso problema é que não existe campanha. Por que as pessoas tomam a 1ª dose e não tomam a 2ª?”, questiona Vecina.

“A situação ainda não é nada confortável”

O médico infectologista Marcos Boulos também vê como prematura a flexibilização de medidas restritivas no Brasil. Ele reforça que, apesar da desejada diminuição de casos e óbitos, o País ainda está em um nível semelhante ao maior patamar registrado no ano passado – quando as ações de controle da circulação de pessoas eram muito mais efetivas.

“Tivemos uma condução errática da epidemia. Faltou coordenação nacional, e isso fez com que tivéssemos a pior condução da epidemia no mundo”, justifica. Diante de um percentual muito elevado de casos, portanto, a diminuição que o Brasil vive atualmente é natural.

Diante da disseminação da cepa Delta, contudo, seria mais prudente aguardar o desenrolar dos dados nas próximas semanas. Embora a variante seja “muito mais transmissível, mas não tão grave”, segundo o médio, o cenário brasileiro ainda é dramático. “Esperamos que [o número de casos] continue descendo, mas a situação ainda não é nada confortável.”

A questão das máscaras

Recentemente, governo de Joe Biden voltou a recomendar que todas as pessoas, mesmo as vacinadas, utilizem máscara em locais fechados. Por aqui, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, se alinhou ao discurso do presidente Jair Bolsonaro e afirmou, na última segunda-feira 26, que ‘logo, logo’ não será mais necessário utilizar máscaras no Brasil.

Bolsonaro já anunciou ter encomendado um estudo sobre a possibilidade de vacinados ou recuperados abrirem mão do equipamento de proteção. “[O estudo está] caminhando. À medida que o número de óbitos diminui e a gente avança na campanha de vacinação, logo, logo não precisaremos mais de máscara”, disse Queiroga a jornalistas no Palácio do Planalto.

Contrariando o que disse o ministro, apenas 19% da população recebeu as duas doses de uma vacina (ou a dose única, no caso do imunizante da Janssen).

Segundo os cálculos de Boulos, se o Brasil continuar a acelerar a campanha de vacinação, é possível que até novembro a população apresente uma melhora substancial da imunidade contra o coronavírus. “O que pode falar a nosso favor neste momento, que é contra mas pode falar a nosso favor, é que tivemos um número muito maior de casos do que deveríamos ter, o que faz com que tenhamos um aumento da nossa imunidade. E soma-se a isso o aumento da vacinação”, prossegue Boulos.

Só a partir daí, então, seria possível cogitar a dispensa das máscaras. “Mas, até lá, nunca. Mesmo vacinadas, pessoas podem adquirir a doença e transmiti-la. Por isso são necessários todos os aportes sanitários, usar máscara, distanciamento social, até que possamos estar tranquilos com a imunidade de rebanho.”

 

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Editor do site de CartaCapital

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