Copa América pode facilitar propagação de variantes, diz pesquisador

'É só olhar os dados de infecção respiratória aguda grave para ver que ainda estamos num momento extremamente grave da pandemia', aponta

Foto: Carl DE SOUZA / AFP

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Saúde

O governo Bolsonaro enfrenta pressão após o anúncio de que o Brasil vai sediar torneio com dez seleções. Vacinação lenta e hospitais lotados mostram incoerência em relação à gestão da crise sanitária.

As reações vieram em peso e a revolta foi tamanha que na noite de segunda-feira 31, o governo tentou passar a imagem de que a Copa América só será realizada no Brasil sob algumas condições.

“É importante destacar que esse evento, caso se realize, não terá público. São dez times com dois grupos, 65 pessoas por cada delegação. Todos vacinados. Foi a imposição que tratamos com a CBF até agora. Não há documento firmado, apenas essas tratativas. Bem como a Seleção Brasileira também será vacinada. Com relação às sedes, será de responsabilidade da CBF de acordo com as escolhas que eles farão ao consultar os estados”, afirmou o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos.

Mas o presidente brasileiro já tinha dito sim a um pedido da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que fez a ponte da Conmebol, entidade máxima do futebol sul-americano, com o governo. Nos corredores políticos da capital federal, alguns disseram que pareceu até pirraça de Bolsonaro, após as manifestações do fim de semana que exigiram vacina anticovid e o impeachment dele.

Especialistas em saúde não pouparam críticas à ideia de abrigar uma competição em meio ao caos hospitalar por causa da Covid-19. Marcelo Gomes, pesquisador em saúde pública da Fiocruz, disse à RFI que não faz sentido tirar a disputa da Argentina e realizá-la no Brasil.

“É só olhar os dados de infecção respiratória aguda grave para ver que ainda estamos num momento extremamente grave da pandemia. O número de casos novos continua muito alto, o que torna injustificável retirar da Argentina e realizar a competição no Brasil. Não faz sentido. Isso coloca em risco as delegações, os atletas, as equipes jornalísticas que farão a cobertura, todo o staff que estará envolvido nesse tipo de evento, e toda a população em geral. E isso em todo o país, porque haverá deslocamentos”, apontou.

Para ele, a postura do governo federal ao acolher o pedido da CBF manda um recado contraditório aos brasileiros, em um momento em que o país deveria elevar os esforços no combate ao vírus. “Qual a mensagem que estamos passando? Como conciliar a orientação de redobrar os cuidados para vencer o vírus e receber a Copa América? Nós estamos numa posição ainda muito distante de garantir proteção pela vacina, não temos condições de receber esse torneio”, salientou o pesquisador em saúde pública da Fiocruz.

 

 

A notícia foi dada nas redes sociais pelos organizadores da competição, que expuseram um agradecimento ao presidente Jair Bolsonaro. Essa é a edição de 2020 do torneio, que foi adiada em razão da pandemia e que aconteceria na Colômbia, que vive uma convulsão social atualmente, e também na Argentina, que desistiu de ser sede do evento por causa do agravamento da crise sanitária.

“Foram nove meses para responder à Pfizer sobre vacinas e trinta minutos para responder à Conmebol. São bem estranhas as prioridades deste governo no enfrentamento à pandemia”, escreveu no Twitter o vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

O relator, Renan Calheiros (MDB-AL), também se posicionou nas redes sociais: “Com mais de 462 mil mortes, sediar a Copa América é um campeonato de morte. Sindicato de negacionistas: governo, Conmebol e CBF. As ofertas de vacinas mofaram em gavetas, mas o ok para o torneio foi ágil. Escárnio.”

A CPI deve analisar nos próximos dias os pedidos de convocação de representantes da CBF sobre as tratativas feitas com o governo brasileiro. No Supremo Tribunal Federal (STF) já há ação para suspender os preparativos para a Copa América no Brasil.

No melhor estilo cômico se não fosse trágico, não faltaram comentários nas redes sociais da parte de internautas. Muitos apelidaram o torneio de “Cova das Américas”.

Governadores reticentes

Muitos governos estaduais, como o de São Paulo, decidiram inicialmente não se opor à realização dos jogos, desde que se respeitem as regras sanitárias em vigor. Mas a pressão é grande, e alguns governadores já se posicionaram contra, como os do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Bahia.

“A prioridade é vacina. Vacina para salvar vidas humanas, vacina para retomar o emprego, a renda e a economia. Nosso estádio, inclusive, em função da pandemia, está provisoriamente ocupado com leitos de UTI. Portanto aqui na Bahia não poderão ocorrer jogos de qualquer copa em função do uso do estádio para salvar vidas humanas”, disse o governador baiano, Rui Costa (PT).

Surgimento de novas variantes

Além do deslocamento das seleções e esgotamento da rede hospitalar, uma das preocupações dos médicos é com a propagação de novas variantes do coronavírus. “Outro ponto que é importante a gente lembrar é que a manutenção desse número extremamente elevado de casos aqui no Brasil é um convite ao aparecimento de novas variantes. Porque isso é da biologia, do processo natural de evolução dos vírus. Cada vez que eles estão se multiplicando no organismo de uma pessoa infectada, eles estão sofrendo pequenas mutações. E assim, quanto maior número de casos, maior risco de que surja uma mutação resistente às atuais vacinas”, explica o pesquisador em saúde pública da Fiocruz.

O risco, segundo ele, é a coincidência de uma mutação com o torneio. “E se a gente dá o azar de ter o surgimento de uma variante justamente no momento em que estamos realizando a Copa América, isso pode ser justamente um facilitador para a disseminação dela. Então são diversos fatores aí que, combinados, pintam um cenário que, de novo, não se recomenda a realização da Copa América no Brasil neste momento”, conclui Marcelo Gomes.

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