Universidade canadense nega contratação de virologista do ‘gabinete das sombras’ de Bolsonaro

O 'shadow cabinet', como chamou Paolo Zanotto, é um dos focos da CPI da Covid

Foto: Marcos Corrêa/PR

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Política

O virologista Paolo Zanotto admitiu, pelas redes sociais, ter sugerido ao presidente Jair Bolsonaro a criação de um “gabinete das sombras” para aconselhamento extraoficial durante a pandemia. O shadow cabinet, como chamou Zanotto, é um dos focos da CPI da Covid, o que motivou o especialista a tentar viabilizar uma mudança para o Canadá.

 

 

“O ‘gabinete paralelo’ seria a avaliação das plataformas de vacinas pelos melhores cientistas do Brasil, independentes da influência dos fabricantes. Essa sugestão não foi acolhida pelo governo”, escreveu no Twitter.

A figura de Zanotto está ligada ao ressurgimento do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) como alvo da CPI. Foi o parlamentar bolsonarista quem organizou, em 8 de setembro do ano passado, uma reunião no Palácio do Planalto em que Bolsonaro recebeu de médicos defensores de remédios ineficazes a sugestão de criar um ‘gabinete das sombras’. Terra, inclusive, foi convocado a depor à comissão.

“É como se fosse um shadow cabinet (gabinete das sombras, em inglês). Esses indivíduos não precisam ser expostos, digamos assim, à popularidade”, disse na ocasião Paolo Zanotto. No evento, que contou com a presença de médicos como Nise Yamaguchi, o presidente aparece ao lado de Osmar Terra, a quem participantes se referiam como “padrinho”.

A convicção de senadores é de que um ‘ministério paralelo’ está no centro da postura negacionista do governo federal em meio à emergência sanitária. Teria partido do grupo, por exemplo, a promoção de tratamentos comprovadamente inúteis contra a Covid-19, baseados em medicamentos ineficazes e na contaminação em massa da população. Tudo isso em oposição à prioridade na compra de vacinas.

Após a divulgação do encontro de setembro do ano passado, Zanotto solicitou ao Instituto de Ciências Biomédicas da USP uma autorização para se afastar por dois anos e morar no Canadá.

Segundo a USP, Zanotto teria pedido a licença para trabalhar como professor-visitante no British Columbia Institute of Technology. “O afastamento, sem prejuízo dos vencimentos, está amparado pelo inciso IV, do artigo 40, do Estatuto do Docente da USP (Resolução USP 7.271). O prazo do afastamento também está dentro do permitido, ou seja, máximo de dois anos (Artigo 41), não haverá contrapartida financeira por parte da instituição anfitriã (Artigo 42) e toda a documentação está em conformidade ao exigido (Artigo 43)”, registrou a universidade.

A BICT, entretanto, fez questão de divulgar uma nota nas redes sociais para esclarecer que Zanotto “não é professor adjunto” da instituição.

“Esse indivíduo contatou o BCIT para organizar uma visita acadêmica de curto prazo, não remunerada e não docente, referente a pesquisa relacionada à purificação da água. Visitas internacionais dessa natureza estão sujeitas a processos internos e externos de verificação do BCIT – incluindo a aprovação da Imigração do Canadá. O pedido está pendente”, diz a mensagem.

 

 

“O BCIT apoia e incentiva fortemente o uso de vacinas aprovadas, apontadas pelas autoridades de saúde canadenses e pela Organização Mundial da Saúde como uma de nossas ferramentas mais poderosas na luta contra a Covid-19.

Diante da repercussão, nas redes sociais, do desmentido da universidade canadense, Zanotto voltou a reclamar das críticas.

“Os políticos estão desacreditando alguém envolvido no desenvolvimento de 3 vacinas para o vírus da Zika, que sugeriu ao governo um grupo anônimo de cientistas independentes para acompanhar a avaliação das plataformas de vacinas sem possível interferência das empresas”, escreveu, em inglês.

 

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Editor do site de CartaCapital

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