‘Tragédia anunciada’: galpão da Cinemateca pega fogo em meio a descaso e disputas

Desde 2020, funcionários alertam sobre a precariedade de instalações; secretário de Cultura de SP aponta culpa do 'desgoverno federal'

Foto: Reprodução/RecordNews

Foto: Reprodução/RecordNews

Política

O incêndio que atinge um galpão da Cinemateca Brasileira em São Paulo, nesta quinta-feira 29, pode ser considerado uma tragédia anunciada. No ano passado, funcionários da sede, que funciona em outro endereço na capital paulista, relataram a CartaCapital uma situação de total abandono, envolvendo falta de pagamento aos trabalhadores, desativação da brigada de incêndio e ausência de gerador.

 

 

Em julho de 2020, quando a reportagem foi publicada, a sede da Cinemateca estava em vias de perder seu serviço de segurança, já que o contrato com a empresa estava a uma semana de se encerrar.

A situação de abandono foi potencializada em 2019, quando o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, decidiu não renovar um contrato com a organização social Roquette Pinto para gerir a TV Escola. Sem o vínculo com o MEC, invalidou-se também o acordo para a gestão da Cinemateca. Desde então, o governo abandonou o local e a administração foi feita com orçamento exclusivamente vindo da Roquette Pinto.

 

Cinemateca está abandonada. Foto: Ronaldo Caldas/Divulgação/MinC

 

A OS sustenta que o contrato com o governo federal para a gestão da Cinemateca vale até este ano. Em junho do ano passado, a dívida do governo com a organização já chegava à cifra de 13 milhões de reais.

No meio da disputa, o secretário especial da Cultura, Mario Frias, tentou tirar a administração da empresa Roquette Pinto e retomar para o Estado a gestão do acervo sem o pagamento da dívida, sob a alegação de que não fazia sentido o governo assumir um contrato que não estaria mais vigente.

À época, Frias chegou a alardear a possibilidade de um incêndio no local como possível chantagem da Roquette Pinto. “Caso algum acidente venha acontecer no material por falta de manutenção, como um incêndio por exemplo, a responsabilidade será de quem está visando seu próprio interesse e impede o acesso do poder público para solucionar o problema. Não aceitaremos chantagens”, disse.

Nesta quinta-feira, dia em que um dos galpões da Cinemateca, na zona Oeste de São Paulo, pegou fogo, não há ninguém da alta cúpula do governo por perto. Mário Frias e seu braço direito, André Porciuncula, que respondem pela administração da Cinemateca, estão em Roma, na Itália, desde a quarta-feira 28, para a Conferência dos Ministros da Cultura do G-20.

Ainda em 2020, o então prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas, falecido em maio deste ano, cogitou propor um plano de municipalização da Cinemateca, mas o projeto não chegou a ser apresentado.

Na Câmara dos Vereadores, parlamentares se mobilizaram para destinar emendas à Cultura para que se resolvesse o impasse. Nesta quinta, diante do incêndio e com perdas ainda não contabilizadas, o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Alê Youssef, declarou que se trata de uma “crônica de uma tragédia anunciada diante do desgoverno federal”, ao comentar o caso à coluna da jornalista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

 

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