Cultura

O abandono da Cinemateca: Sem brigada de incêndio, gerador e segurança

Funcionários falam em uma tragédia anunciada e temem o mesmo fim do Museu Nacional

. Foto: Ronaldo Caldas/Divulgação/MinC
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A partir da próxima quinta-feira 16, a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, pode não contar mais com equipes de segurança que fazem a proteção dos 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos relacionados ao cinema nacional que fazem parte do acervo do órgão. Isso porque o contrato com a empresa responsável pelo serviço termina na próxima semana.

O abandono da instituição, criada em 1940, que é responsável pela preservação da produção audiovisual no país, vai além: Os funcionários estão em greve, pois não recebem os salários desde abril; a brigada de incêndio foi desativada por falta de pagamento; e o gerador quebrou e não houve manutenção.

Não há uma fiscalização necessária dentro do acervo, nos equipamentos, muito menos no prédio. Há um medo entre os funcionários que falaram com a reportagem de que aconteça o mesmo desastre do Museu Nacional, que pegou fogo em 2018.

Segundo eles, é uma tragédia anunciada. “O momento é de priorizar nosso acervo. Aceitamos o mínimo que seja para salvar o patrimônio”, relata um funcionário que não quer ser identificado.

A realidade da Cinemateca é reflexo da gestão do presidente Jair Bolsonaro para o setor. Após transformar o Ministério da Cultura em Secretaria, não faltaram polêmicas.

A gestão da Cinemateca

Em 2018, o extinto ministério da Cultura do ex-presidente Michel Temer (MDB) decidiu abrir uma concessão para a gestão da Cinemateca.

A Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, que é uma organização social, foi quem ficou responsável pela gestão do local. Além de administrar o orçamento vindo da união, a instituição poderia captar dinheiro por iniciativa própria, e foi o que aconteceu por meio de de eventos realizados no local.

O contrato feito com o governo vai até 2021. O problema começou quando o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub decidiu em dezembro de 2019 encerrar um contrato com a Roquette Pinto para gerir a TV Escola. Sem o contrato com o MEC, invalidou-se também o acordo para a gestão da Cinemateca.

Desde então, o governo abandonou o local e a administração foi feita com orçamento exclusivamente vindo da Roquette Pinto.

No mês passado, a presidência da organização enviou uma carta ao Ministério cobrando o pagamento da dívida com a entidade. O valor que a união precisa repassar já passa dos R$ 13 milhões.

Em meio à situação, o presidente prometeu para a ex-secretária de Cultura Regina Duarte um cargo inexistente dentro da cinemateca.

Além da promessa não se cumprir, assim que Regina deixou o governo, o secretário de audiovisual da Pasta, Heber Trigueiro, que havia sido nomeado pela ex-global, foi exonerado. Essa foi uma das primeiras ações do novo secretário de Cultura,  Mario Frias.

Funcionários relataram à reportagem que Trigueiro era um quadro técnico e que vinha atuando na defesa da cinemateca, inclusive se posicionou contra o governo federal reassumir a  administração do museu.

“Um governo que está privatizando tudo quer reestatizar uma instituição? Isso é uma tentativa de encerrar as atividades da Cinemateca”, disse um dos funcionários.

Com toda essa situação, um um grupo fez um ato público e um manifesto endossado por mais de 70 associações, entre elas os festivais de Berlim e Cannes. O documento foi lançado em junho.

Intervenção da prefeitura de SP

Mario Frias e Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo, visitaram a Cinemateca em 23 de junho. No Instagram, publicaram o compromisso de “resolver o impasse”, mas até o momento nada foi apresentado. Procurada, a secretaria especial de Cultura não respondeu à reportagem.

Com essa situação. o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), cogitou propor um plano de municipalização da Cinemateca, mas nenhum projeto neste sentindo ainda foi apresentado.

Na Câmara de Vereadores da cidade, os parlamentares se movimentam. O vereador Gilberto Natalini (PV) organizou uma “vaquinha” de emendas para destinar à Cinemateca. Outros políticos se juntaram e já enviaram à Secretaria de Cultura do município R$ 600 mil em emendas que devem ser enviadas à instituição. O dinheiro aguarda a liberação da secretaria e do Tesouro.

“Perdemos o Museu Nacional vergonhosamente. Corre o risco sério de incêndio na Cinemateca. Seriam duas perdas insuportáveis para a cultura. Se isso vai ser feito pelo federal ou estadual não importa, o importante é que faça”, ressalta Natalini.

Funcionários acreditam que esse valor irá ajudar, já que atualmente não existe nenhuma fonte de receita, mas que não é suficiente. Procurada, a Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo não anunciou quando esta verba será liberada.

“A Secretaria Municipal de Cultura se sensibiliza com a luta pela manutenção da Cinemateca Brasileira, considerando-a fundamental para a preservação da memória do audiovisual brasileiro. Embora o órgão seja responsabilidade do Governo Federal, a SMC está agindo para evitar o seu desmonte e está acompanhando de perto a situação, em esforço conjunto com a Spcine. Entendemos que, caso a energia do prédio da Cinemateca seja cortada, filmes antigos poderão ser perdidos, resultando em danos irreparáveis à memória do cinema nacional”, diz a secretaria em nota.

Uma instituição fundamental para a democracia

Existe uma importância de se preservar o acervo do cinema nacional muito maior que imaginamos. Rafael Morato Zanatto, que faz doutorado na USP em cinema e estuda a Cinemateca, explica que os filmes são essenciais para a história do nosso país e a construção da nossa democracia.

“São imagens do nosso passado, das questões históricas e políticas. A Cinemateca é uma instituição fundamental para a construção de uma sociedade mais democrática. Esse é um dos princípios da Cinemateca: democratizar a cultura”, explica.

O doutorando diz que a Cinemateca Brasileira é uma das mais importantes instituições deste segmento na América Latina. “Para entender sua importância, o recente filme Bacurau se apropria de alegorias já tratadas pelo cinema brasileiro, especificamente pelos filmes do diretor Glauber Rocha, dos anos 60. Esse estudo foi possível pelas imagens protegidas pela Cinemateca. É uma instituição que permanece viva e muito potente”, diz.

O número de materiais que o lugar precisa preservar está em constante expansão porque cada filme brasileiro feito com recursos públicos precisa ser depositado lá. A reportagem não conseguiu contato com a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto para falar sobre o caso.

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