Justiça

Jaques Wagner admite ‘acordo’ pela aprovação do PL da Dosimetria

Negociação estava centrada em liberar tramitação do projeto que beneficia Jair Bolsonaro em troca de pauta econômica

Jaques Wagner admite ‘acordo’ pela aprovação do PL da Dosimetria
Jaques Wagner admite ‘acordo’ pela aprovação do PL da Dosimetria
O líder do governo no Senado Federal, senador Jaques Wagner (PT-BA). Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
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O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), admitiu nesta quarta-feira 17 que fez um “acordo de procedimento” para permitir o avanço da tramitação do PL da Dosimetria na Comissão de Constituição e Justiça, assumindo pessoalmente a responsabilidade pela articulação. A declaração ocorreu após o senador Renan Calheiros (MDB-AL) relatar que Wagner havia pedido para “deixar votar” o projeto como parte de um esforço para destravar a pauta econômica do governo no Senado.

O PL da Dosimetria altera critérios de cálculo das penas aplicadas aos golpistas de 8 de Janeiro e pode beneficiar, entre outros réus, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A proposta foi aprovada pela CCJ por 17 votos favoráveis e 7 contrários e agora segue para análise do plenário.

Segundo Renan, a conversa com o líder do governo envolveu a tentativa de vincular a liberação da votação do projeto à apreciação do texto econômico aprovado pela Câmara dos Deputados que corta incentivos fiscais e aumenta a tributação de bets, fintechs e juros sobre capital próprio. A medida é considerada prioritária pelo Ministério da Fazenda para reforçar a arrecadação.

Durante a sessão da CCJ, Wagner reconheceu que procurou Renan para tratar do andamento da matéria, mas negou ter negociado apoio ao mérito do projeto. De acordo com o líder, o entendimento buscou apenas evitar o prolongamento de um debate que, em sua avaliação, já tinha desfecho previsível no colegiado.

“Eu me arrisquei, não me arrependo, de ter vindo aqui para fazer um acordo de procedimento, e não de mérito. No mérito, o meu partido fechou questão contra essa matéria, e o governo orienta voto contra”, disse. “A única diferença é que você poderia empurrar com a barriga para fevereiro, ou votar hoje, não muda absolutamente nada […]. Então eu fiz, sem consultar o presidente da República ou a ministra Gleisi [Hoffmann]. Quem está na política tem que se arriscar. Fiz um acordo de procedimento, e não me arrependo”, afirmou.

Renan, por sua vez, reagiu de forma contundente à articulação e disse que não aceitaria participar de qualquer negociação que condicionasse a votação de uma proposta penal à liberação da pauta econômica do governo. Em sua manifestação, o senador classificou a iniciativa como uma farsa. 

“Eu não vou participar aqui de farsa nenhuma para possibilitar a votação dessa matéria, para que o governo aprecie uma outra matéria logo mais à tarde no plenário do Senado Federal. Há pouco veio aqui o líder do governo no Senado Federal dizer a mim que ele concordava em deixar votar a matéria, porque queria votar o PL que elevava as alíquotas de bets e fintechs. Eu não concordo com isso. Isso é uma farsa e eu não concordo com isso”, disse.

A admissão de Wagner ocorreu após a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, negar publicamente a existência de qualquer negociação envolvendo o mérito do PL da Dosimetria. Em declaração nas redes sociais, Gleisi afirmou que o governo orienta voto contrário à proposta por entender que o texto representa um retrocesso e beneficia condenados por crimes contra a democracia.

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