Política

Quem é o miliciano que se infiltrou no PSOL para monitorar passos de Marielle e repassar informações aos assassinos

Laerte Silva de Lima, de 35 anos, é considerado “um dos braços armados” da milícia de Rio de Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro

Foto: Reprodução
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Os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, apontados pela Polícia Federal como mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco, infiltraram um miliciano ligado ao Escritório do Crime no PSOL para monitorar os passos da parlamentar.

A afirmação consta de delação premiada do ex-PM Ronnie Lessa, autor dos disparos que mataram a parlamentar, em março de 2018. De acordo com o relato, o homem tinha a missão de levantar informações sobre Marielle que pudessem ajudar no crime.

Trata-se de Laerte Silva de Lima, de 35 anos, considerado “um dos braços armados” da milícia de Rio de Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ele foi preso em 2019, no âmbito da Operação Intocáveis, que surgiu como um desdobramento das investigações do caso Marielle.

O miliciano Laerte Silva de Lima.
Foto: Reprodução

Laerte, conforme mostra o relatório final da PF sobre a morte de Marielle, filiou-se ao PSOL, partido da vereadora, cerca de vinte dias depois do segundo turno das eleições de 2016.

O miliciano teria vínculo direto com o deputado federal Chiquinho Brazão e o conselheiro do Tribunal de Contas Domingos Brazão. Ambos foram presos neste domingo durante a Operação Munder Inc., que mira os mandantes do crime. O ex-chefe da Polícia Civil fluminense, Rivaldo Barbosa, também foi detido por ser considerado autor do plano do crime.

Na milícia, o homem, segundo as investigações do Ministério Público, atuava como responsável por recolher e repassar taxas cobradas a moradores e comerciantes em área controlada pelo grupo à cúpula da organização.

Sua esposa, Erileide Barbosa da Rocha, presa por envolvimento com a quadrilha, também foi infiltrada no partido para ajudar na coleta de informações sobre a vereadora. Ela chegou ao PSOL um ano antes da morte de Marielle, segundo a PF. Na milícia, “ela ajudava Laerte a tocar os negócios do grupo paramilitar, atuando na área de contabilidade.”

Na delação, o ex-PM disse ter sido informado da atuação de Laerte no partido na primeira reunião com os irmãos Brazão, ocorrida em setembro de 2017. Na ocasião, o grupo passou a discutir a emboscada contra Marielle – foi neste encontro que surgiram as primeiras reclamações contra a atuação parlamentar da psolista contra os interesses na milícia na Zona Oeste.

“Então, mencionou-se que, por conta de alguma animosidade, haveria um interesse especial da vereadora em efetuar este combate nas áreas de influência dos Brazão, dado que seria oriundo das ações de infiltração de Laerte”, diz trecho do relatório da PF.

As investigações concluíram, porém, que a chegada de Laerte ao PSOL indicaria para um interesse mais amplo de monitorar eventuais represálias aos interesses da milícia oriundos de parlamentares da sigla. “Contudo, à época, nada seguiu ou evoluiu para além das pesquisas”, ressalta a Polícia.

Tudo mudou quando, segundo o relato feito aos investigadores por Ronnie Lessa, o miliciano presenciou a parlamentar pedindo à população que não aderisse a loteamentos situados em área de milícia. O fato teria sido a gota d’água para o clã Brazão.

Nas palavras de Lessa, o miliciano poderia “ter enfeitado o pavão”, levando os irmãos ao equivocado superdimensionamento das ações políticas de Marielle sobre o assunto. “Nesse momento, ponderou-se a possibilidade de que este poderia ter sobrevalorizado ou, até mesmo, inventado informações para prestar contas de sua atuação como infiltrado“, acrescenta o documento da PF.

Marielle Franco acabou assassinada a tiros na noite de 14 de março de 2018, no bairro do Estácio, centro da capital fluminense.

Lessa está preso há cinco anos por envolvimento no crime. Atualmente, o ex-PM encontra-se detido na penitenciária federal de Campo Grande (MS) e responde a dez ações penais — entre elas, é réu por dois duplos homicídios e tráfico de armas.

Ele firmou acordo de delação premiada com a PF e apontou os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão como mandantes do crime. O ex-PM também citou o delegado Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Divisão de Homicídios da Polícia Civil como autor intelectual do crime.

Para apontar os mandantes dos homicídios, Lessa concordou em ter uma espécie de unificação de sentenças, com o estabelecimento de uma pena total que fique entre 20 e 30 anos de prisão.

Com a prisão dos autores intelectuais, segundo afirmou o ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, o caso foi encerrado. Mas, na visão dos familiares de Marielle, resta ainda uma explicação mais contundente sobre as motivações do crime.

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