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Prestígio internacional de Lula contrasta com a falta de relevância de Bolsonaro

Enquanto o petista visitou líderes europeus, o presidente prestigiou regimes autoritários de governos ultraconservadores

Lula e o presidente francês Emmanuel Macron. (Reprodução redes sociais)
Lula e o presidente francês Emmanuel Macron. (Reprodução redes sociais)
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As visitas do ex-presidente Lula à Europa e do presidente Jair Bolsonaro a países do Golfo Pérsico nesta semana marcam as diferenças do que se pode esperar de uma política externa do petista, caso vença as eleições de 2022, e a praticada pelo atual governo. Especialistas também veem nas viagens simultâneas dos favoritos na disputa sinais de antecipação do pleito.

Nos últimos dias, Lula esteve em quatro países da União Europeia, discursou no Parlamento do bloco e se reuniu com o presidente da França, Emmanuel Macron, com chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, com o vencedor das últimas eleições parlamentares da Alemanha, Olaf Scholz, e outras lideranças.

Ao contrário do que ocorreu com Bolsonaro na cúpula do G20 em Roma, onde o presidente foi isolado por líderes globais, Lula chegou a ser recebido com honras de chefe de Estado e ser aplaudido de pé por parlamentares europeus.

Ainda que Bolsonaro não seja reeleito, as dificuldades diplomáticas do próximo presidente não serão pequenas

“Isso mostra um prestígio internacional e a importância da diplomacia, que abre portas. As visitas do Lula são um sucesso de uma forma geral”, afirma Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). O PT, avalia, é hábil em estabelecer palcos e cenários onde o ex-presidente será sempre bem vindo. “Ele tem autoridade, principalmente junto à esquerda daquele continente.”

De acordo com Tiago Nery, doutor em ciência política pelo IESP/UERJ e pesquisador do Laboratório de Análise Política Mundial (Labmundo), as relações internacionais podem ser, mais uma vez, determinantes na eleição presidencial. “Cada vez mais, a política externa é vista como política pública”, avalia.

Além do peso do encontro com Macron, Nery destaca as declarações de Lula no Parlamento Europeu em Bruxelas. “O discurso denunciando a volta da fome no Brasil e dizendo que o Mercosul não pode somente exportar produtos primários teve muito peso pela importância dos temas.”

Já o presidente Bolsonaro esteve em países do Golfo Pérsico e participou da Expo 2020 em Dubai, nos Emirados Árabes, inaugurou uma embaixada brasileira no Bahrein e andou de moto e visitou estádios no Catar. “A agenda é pequena e pobre”, observa Nery. “O contraste com Lula é gritante.”

Guimarães lembra que o Oriente Médio é uma das poucas regiões onde Bolsonaro é recebido com status presidencial. “São regimes autoritários de governos ultraconservadores, alianças diplomáticas esdrúxulas que envolvem direitos humanos. É uma visão similar de interesse”, diz. “Para Bolsonaro, ele precisa governar para os seus e a política externa deve reproduzir isso.”

Bolsonaro ao lado do presidente da Fifa Gianni Infantino (Foto: KARIM JAAFAR/AFP)

Os desafios que se impõem

Ainda que Bolsonaro não seja reeleito, os pesquisadores creem que as dificuldades diplomáticas do próximo presidente não serão pequenas. Há um duplo desafio, apontam: reconstruir a imagem do País e colocá-lo de volta ao palco das grandes discussões internacionais.

“O [governo] Bolsonaro é marcado pela retirada do Brasil do palco e pela destruição da imagem. O baixo ativismo internacional e todos os temas que aparecem são negativos. Reconstruir a imagem do País vai além do próximo governo, ela vem sendo destruída desde a Copa de 2014”, opina Guimarães.

Outro grande desafio é decidir qual posição tomar na ‘nova Guerra Fria’ entre EUA e China. Caso vença Lula, espera-se uma postura mais equilibrada do governo brasileiro em relação ao país asiático. “Um governo Lula vai melhorar a relação com a China, mas não vai dar uma guinada porque ele sabe dos riscos”, pondera ele. “Será uma política que contenção de riscos. Esses países vão entrar em guerra nos próximos anos e o Brasil não pode entrar nessa disputa.”

Há ainda a oportunidade para o País voltar a ser protagonista na discussão sobre meio ambiente. Os próximos anos, em sua opinião, trazem a chance de uma política externa mais equilibrada e realista.

Para ilustrar essa percepção, o professor recorre novamente à comparação entre Lula e Bolsonaro. “Há muito tempo se fala que o Brasil não tem poder e não é uma grande potência, mas é. O que o governo Lula talvez tenha feito é ter exacerbado a noção de potência, achado que tinha mais meios do que exatamente tinha. O que o Bolsonaro faz é anular essa ideia.”

Alisson Matos

Alisson Matos
Editor do site de CartaCapital. Twitter: Alisson_Matos

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