Política

PF suspeita que Olavo incentivou desobediência civil, diz revista

Mensagens sugerem que o guru bolsonarista seja o idealizador do grupo ‘300 do Brasil’

Olavo de Carvalho, escritor de extrema-direita. Foto: Reprodução
Olavo de Carvalho, escritor de extrema-direita. Foto: Reprodução
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O escritor e guru bolsonarista Olavo de Carvalho pode ser o idealizador dos ataques ao Supremo Tribunal Federal feitos pela militante Sara Winter e o grupo ‘300 do Brasil’. A suspeita foi levantada a partir de mensagens interceptadas pela Polícia Federal no celular da extremista e indicariam que a ação do grupo foi um pedido de Olavo. As informações são da revista Crusoé nesta sexta-feira 10.

Em abril de 2020, pouco mais de um mês antes das manifestações lideradas por Sara, a militante escreve a um grupo de WhatsApp que passou ‘mais de uma hora ao telefone com Olavo’ e que ele teria feito ‘solicitações SÉRIAS e até ARRISCADAS’, a ênfase nas palavras são da própria mensagem escrita na ocasião.

Após o recado, ela pede conselhos do grupo para organizar um canal mais seguro de comunicação, pois o teor das solicitações de Olavo envolveriam ‘desobediência civil’. Mais tarde, integrantes desse mesmo grupo, que na época reunia digitalmente mais de 100 pessoas, formariam o acampamento ‘300 do Brasil’ para marcar contra o STF.

“Alguém sabe se é seguro planejar coisinhas pelo zap? Melhor Telegram? Sou ANALFABETA DIGITAL. […] Tenho coisas importantes pra falar sobre desobediência civil”, anunciou aos participantes.

Ao que tudo indica, o canal escolhido pelos extremistas para organizar os ataques foi o Discord, conhecido por ser mais reservado que o WhatsApp. O conteúdo das conversas no novo aplicativo não foram reveladas, mas, segundo a revista, dias depois é possível compreender o assunto a partir de novas conversas via WhatsApp.

As novas conversas são travadas entre Sara e outros bolsonaristas conhecidos, alguns presos ou com mandados de prisão abertos por ataques aos ministros da Suprema Corte. A Allan dos Santos, a extremista escreveu: “Queria falar contigo. Passei uma hora com professor Olavo ontem no telefone. Ele me solicitou algumas coisas sérias e preciso de ajuda. Não confio em qualquer um para falar”. Allan está foragido nos Estados Unidos após ter a prisão decretada por Alexandre de Moraes por ameaças aos ministros do Supremo.

Para Oswaldo Eustáquio, também preso recentemente por atos antidemocráticos, Sara vai adiante e sugere uma atuação conjunta entre seu movimento e o organizado pelo blogueiro. Novamente ela indica ter sido orientada por Olavo de Carvalho.

“Boa noite, Oswaldo Eustáquio, eu, Fernando Lisboa e outros youtubers, sob a orientação do professor Olavo de Carvalho estamos organizando um acampamento. Não definimos data ainda. Faremos a primeira reunião HOJE aqui em casa em Brasília. O que acha de somarmos os atos. A Marcha pra Brasília com destino final do Acampamento. Seria fantástico”, escreve.

Ainda nas mensagens apreendidas pela PF, Sara também indica ao grupo de apoiadores que as ideias de Olavo de Carvalho envolveriam, além de formar acampamento em Brasília, ‘técnicas de subversão’. No grupo ela escreveu que o objetivo era “botar medo, humilhar, desmoralizar esse bando de pilantra”, se referindo aos ministros do STF.

Mais tarde, ela também diz que forneceria ‘treinamento gratuito’ para que os manifestantes soubessem se comportar subversivamente nos protestos. “Serão 10 horas de TREINAMENTO gratuito em técnicas de protesto, técnicas de subversão. Dia 30 começaremos atos coordenados com estratégia”, anunciou ela aos manifestantes.

O grupo de fato cumpriu parte do prometido. Em maio de 2020, poucos dias depois das mensagens, os ‘300 do Brasil’ marcharam em direção ao tribunal com tochas, símbolos supremacistas brancos e faixas atacando a atuação dos ministros. Na ocasião, Sara chegou a dizer que seus aliados estariam armados, informação desmentida por ela mesmo horas depois. Na prática, além das tochas, os extremistas dispararam fogos de artifício contra os vidros do STF.

Pelas ações, Sara foi presa e atualmente cumpre regime domiciliar e usa tornozeleira eletrônica. Ela também se diz abandonada por Jair Bolsonaro, a quem o protesto apoiava na ocasião. A extremista chegou a afirmar sentir vergonha do apoio declarado ao presidente nos últimos anos. Olavo segue apoiando a extremista. Recentemente, via redes sociais, ele questionou publicamente o abandono dos bolsonaristas a militante.

Olavo, por sua vez, fugiu do Brasil antes mesmo de ser convocado a depor sobre o caso. Ao sair do País de carro até o Paraguai e depois de avião para os Estados Unidos, Olavo declarou: “Eu não ia ficar sentado esperando que eles me convoquem algum dia. Se apareceu a oportunidade de ir embora, vamos embora”. Dias depois, via videoconferência, de fato foi convocado e prestou depoimento à PF. Ele alega ter conversado apenas ‘três ou quatro vezes’ com Sara, mas nunca sobre os protestos. Segundo disse à polícia, tratou sobre conjuntura política e avaliou uma possível candidatura da militante, mas tudo ainda em 2019. As mensagens apreendidas no celular de Sara estão em posse do Supremo.

Para a revista, Sara negou qualquer envolvimento de Olavo com as manifestações antidemocráticas organizadas por ela. Sobre os contatos com o escritor, no entanto, apresentou uma versão diferente do ‘professor’. Ela diz que os dois ‘trocavam muitas mensagens’ durante o período em que ela liderou os atos. As solicitações ‘sérias e arriscadas’, segundo ela, eram monitorar ‘todas as teses de cunho ideológico produzidas nas universidades brasileiras’ e ‘mapear jornalistas de direita na grande mídia’. Questionada pela revista sobre o teor das mensagens, ela encerrou a conversa.

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