Economia
Petróleo aproxima Lula e Alcolumbre em torno de uma nova bandeira eleitoral
Descoberta na Margem Equatorial une o interesse local do senador ao discurso de soberania que Lula pretende levar à campanha
A reaproximação entre Lula (PT) e Davi Alcolumbre (União-AP) ganhou um novo elemento com a descoberta de indícios de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. O anúncio da Petrobras interessa diretamente ao presidente do Senado, que há anos defende a exploração da Margem Equatorial, mas também oferece ao petista uma pauta para reforçar o discurso de soberania nacional, que tende a ganhar espaço na campanha.
A agenda combina interesses. Para Alcolumbre, a exploração do petróleo é uma bandeira ligada ao desenvolvimento do Amapá e pode fortalecer seu grupo político na disputa estadual. Para Lula, a descoberta permite associar sua presença na região à defesa da exploração das riquezas brasileiras e ao desenvolvimento do País. Os dois estarão juntos nesta segunda-feira 17, em uma visita a um navio-sonda da Petrobras que trabalha na costa do Amapá.
O momento é particularmente conveniente para o petista. A campanha presidencial começa sob uma disputa a respeito da relação do Brasil com os Estados Unidos, e o entorno de Lula avalia que o tema da soberania pode funcionar como contraponto ao discurso entreguista de Flávio Bolsonaro (PL). As articulações com autoridades norte-americanas em torno de interesses brasileiros, incluindo a exploração de recursos naturais, são vistas pela campanha petista como uma oportunidade para apresentar Lula como defensor de uma política externa independente e da capacidade brasileira de decidir sobre suas próprias riquezas.
Nesse contexto, a Margem Equatorial oferece uma imagem concreta para o discurso. A Petrobras passou mais de uma década buscando autorização para perfurar na região, e o Ibama concedeu a licença em outubro do ano passado após exigir medidas de proteção ambiental e de resposta a possíveis acidentes. A exploração, portanto, envolve ao mesmo tempo uma discussão sobre potencial econômico e sobre as condições ambientais para o avanço dos projetos.
A descoberta ainda não significa que o Brasil tenha uma nova reserva comercialmente viável. O material encontrado está no poço Morpho, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, mas a perfuração continua. A Petrobras ainda precisa avaliar o volume de petróleo e gás e verificar se a produção em escala comercial será possível. A estatal também pretende perfurar outros três poços, dependendo de novas autorizações.
Mesmo assim, o anúncio já entrou na disputa eleitoral do Amapá. Alcolumbre foi um dos principais articuladores para que os estudos sobre a exploração avançassem e passou a associar a descoberta à possibilidade de gerar empregos, renda e investimentos no estado. O governador Clécio Luís (União), seu aliado, também transformou a exploração em uma bandeira e tenta garantir que a estrutura inicial da Petrobras seja instalada no Amapá.
Alcolumbre espera que Lula apoie mais explicitamente Clécio na disputa pelo governo estadual. O petista, por sua vez, pode usar a visita para reforçar a imagem de um governo associado à descoberta de novas riquezas e à defesa da exploração dos recursos brasileiros.
A reaproximação entre os dois já havia produzido efeitos no Congresso. Depois de meses de conflito provocado pela rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, Alcolumbre destravou a tramitação da PEC do fim da escala 6×1, da PEC da Segurança Pública e do projeto sobre minerais críticos, três propostas de interesse do governo. A negociação também envolve a sucessão no Senado, já que Alcolumbre busca apoio para permanecer na presidência da Casa em 2027.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
O embate entre Lula e Flávio Bolsonaro em segundo turno, segundo a nova pesquisa BTG/Nexus
Por CartaCapital
Neutro na eleição, “Centrão” ensaia adesão a um governo Lula 4
Por André Barrocal




