Política

Vaivém retórico de Flávio Bolsonaro aprofunda dúvidas sobre destino do dinheiro de Vorcaro

O pré-candidato do PL à Presidência atribui a um suposto ‘acordo de confidencialidade’ a inconsistência de suas declarações sobre o caso

Vaivém retórico de Flávio Bolsonaro aprofunda dúvidas sobre destino do dinheiro de Vorcaro
Vaivém retórico de Flávio Bolsonaro aprofunda dúvidas sobre destino do dinheiro de Vorcaro
Coletiva de imprensa com Flávio Bolsonaro e aliados, em 9 de maio de 2026. Foto: Vitor Souza/AFP
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A pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência permanece em modo de contenção de danos após a revelação de que o senador pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar a produção de um filme de propaganda sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Com reações erráticas, dúvidas e contradições sobre o caso se acumulam.

Depois de negar veementemente a relação com Vorcaro e até tachar de mentira a solicitação de financiamento, Flávio passou a admitir que os 61 milhões de reais transferidos pelo banqueiro para o filme Dark Horse foram parar em um fundo nos Estados Unidos administrado por um advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive no Texas. O senador nega que parte do dinheiro tenha servido para bancar a estadia do ex-deputado em território norte-americano, mas não há qualquer demonstração concreta do destino do aporte.

Ainda assim, Flávio e sua equipe optaram, ao menos por enquanto, por não divulgar o suposto contrato a formalizar os multimilionários repasses de Vorcaro. A decisão reforça os pontos de interrogação em torno do episódio, especialmente depois de o deputado Mário Frias (PL-SP) a produtora GOUP Entertainment rechaçarem haver recursos de Vorcaro na empreitada.

O próprio Frias teve de ajustar sua versão, em nova nota divulgada na quinta-feira 14: “Quando afirmei anteriormente que não há ‘um centavo do Master’ no filme, referia-me ao fato de que Daniel Vorcaro não é e nunca foi signatário de relacionamento jurídico, assim como o Banco Master nunca figurou como empresa investidora”.

Eduardo, também em nota, chamou de “tosca” a sugestão de que ele tenha embolsado dinheiro do fundo abastecido por Vorcaro e disse ter cedido apenas seus direitos de imagem ao filme.

Por que o investimento ocorreu nos Estados Unidos? Segundo o ex-deputado, porque os atores são norte-americanos e o Brasil viveria sob um “estado de exceção”, com risco de perseguição. Não há referências, por outro lado, ao que motivaria o pedido de 134 milhões de reais a Vorcaro, sem contar outras fontes de custeio. Sucessos recentes de crítica e público, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto custaram, respectivamente, 45 milhões e 28 milhões de reais. Valor Sentimental, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional neste ano, teve um orçamento de 7,8 milhões de dólares, equivalente a 39 milhões de reais na cotação atual.

Cerca de 48 horas depois de o site Intercept Brasil revelar sua troca de mensagens com Vorcaro, a quem chamava de “irmão” e prometia lealdade eterna, Flávio aposta na carta da “confidencialidade” para não dar publicidade ao suposto contrato com o banqueiro.

Em entrevista à GloboNews na quinta-feira, também se alinhou a Frias e disse que Vorcaro “não faz parte de nenhuma assinatura de contrato”, razão pela qual a produtora teria afirmado não haver dinheiro do Master no filme.

A “confidencialidade” também seria a razão para Flávio ter mentido reiteradamente sobre sua intimidade com Vorcaro. “Estou falando disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”, admitiu. “Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual? Isso gera multa, isso gera exposição dos investidores.”

Instado a publicar o suposto contrato em nome da transparência, tergiversou: “Tem que falar com o investidor, com o gestor do fundo, para saber se é possível que isso aconteça, até porque é uma relação jurídica nos Estados Unidos”.

Por fim, o senador tornou a falar em “investimento privado” no filme. No caso de Vorcaro, contudo, dinheiro formalmente privado resulta do que a Polícia Federal investiga como um grande esquema de fraude financeira, turbinado com a venda de uma carteira fraudulenta ao Banco Regional de Brasília e com vultosos aportes de fundos de pensão de servidores de diversos estados. Dinheiro público, portanto, viabilizou a ascensão meteórica de um banqueiro que não poupou gastos para dar à luz Dark Horse, às vésperas da eleição presidencial.

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