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O que a vitória de Doria significa para o PSDB paulista?

Política

“A partir de 1° de janeiro, no meu PSDB, acabou o muro. Não tem mais muro. Este será o novo PSDB, um partido que tem lado”, afirmou João Doria em seu primeiro discurso como governador eleito de São Paulo. O ex-prefeito se colocou como dono da legenda, disse que a sigla mudará e pregou aliança com Jair Bolsonaro (PSL).

A declaração pode ter sido o combustível que faltava para rachar um partido que sai fragilizado das eleições e que elegeu o governador do maior estado do País muito mais pela estratégia Bolsodoria do que pela força tucana.

Não foi no PSDB que Doria se apoiou para vencer Márcio França (PSB) na disputa pelo governo paulista. Durante o segundo turno, ele se colou na campanha bolsonarista para conquistar 51% dos votos válidos. Sete dos candidatos que declararam apoio ao presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) venceram as disputas estaduais no domingo 28.

A aproximação de Doria com as posições de Bolsonaro o afastam de seu partido. Apesar de sua eleição reforçar mais um ciclo do tucanato em São Paulo, Doria afirmou, mais de uma vez, que sua gestão não será marcada pela continuidade.

Para Cláudio Couto, professor do departamento de gestão pública da FGV, a vitória de João Doria pode significar uma implosão no PSDB, “com a conquista do principal bastião do partido no País por um político que decidiu devorar a agremiação por dentro”. O cientista político avalia que “a repulsa que Doria causa naquilo que se pode considerar o PSDB histórico torna inevitável uma ruptura”.

Antes do resultado, Couto, acreditava que, caso França vencesse, Doria seria isolado dentro do partido, tendendo a deixar o PSDB. Entretanto, frente à vitória, o partido encontra-se dividido.

Intriga paulista

Desde o início da campanha eleitoral, Doria e Geraldo Alckmin – ex-governador de São Paulo e presidente nacional da sigla até dezembro de 2019 – se estranham. Doria estava disposto a concorrer ao Planalto após seu sucesso eleitoral nas urnas pela Prefeitura de São Paulo. Mas isso causou atritos dentro do PSDB, inclusive com seu próprio padrinho político, que já se preparava para lançar a candidatura.

Em plena campanha eleitoral começaram os elogios de Doria a Bolsonaro, adversário de Alckmin na disputa pela Presidência. No segundo turno, com Alckmin fora do páreo, popularizou-se o “voto Bolsodoria” e a aproximação final de Doria com as ideias de extrema-direita do agora presidente eleito.

Ainda na campanha pelo segundo turno, durante uma reunião com dirigentes do PSDB em Brasília, Alckmin disparou um “traidor” para Doria.

Risco de implosão

Para Couto, Doria, já não tão querido na capital, contou com o apoio tucano angariado no interior durante as gestões passadas. Além disso, segundo Couto, ele tratou de ocupar o espaço de alternativa antipetista em São Paulo, encarnado pelo PSDB por vários anos.

A estratégia funcionou, mas por pouco não perdeu o posto ao governo. Isso porque, de acordo com Couto, boa parte do antigo eleitorado do PSDB percebeu Márcio França como a verdadeira continuidade dessa gestão.

“Doria é a negação disso tudo: traiu o padrinho mais de uma vez, inclusive agora, na eleição presidencial, puxa o partido para a direita radical, bateu de frente com as lideranças históricas da agremiação”, comenta o professor da FGV.

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Após eleito, Doria defendeu uma mudança na executiva nacional do partido, que hoje é formada majoritariamente por políticos que não têm mandato. Ele afirmou que “os que têm voto têm de estar representados na executiva nacional”. O governador eleito defendeu também uma “nova correlação de forças” e disse querer que o partido esteja na base de apoio do presidente eleito Jair Bolsonaro.  

“Eu não mudo de partido. Os que se sentirem incomodados com uma mudança inovadora que devem sair. Nós vencemos aqui. Nós não somos os perdedores”, disse, após a eleição. Para ele, uma mudança no comando do partido, hoje ocupado por Alckmin, seria “razoável”, mas de uma maneira “consensual” e “equilibrada”.

Além das claras divisões internas, entre a ala mais tradicional, representada por Alckmin e Fernando Henrique Cardoso, e a ala que surfa na onda de Doria e das influências bolsonaristas, o partido também sai enfraquecido destas eleições.

A bancada do PSDB na Câmara diminuiu nestas eleições após a onda Bolsonaro. Foram eleitos 29 deputados federais, contra 54 em 2014. No mesmo ano, os tucanos elegeram cinco governadores, contra apenas três em 2018.

Doria e 2022

Em entrevista recente a CartaCapital, o cientista político Fernando Bizzarro havia afirmado que o Estado tem o costume de lançar nomes à presidência. Foi assim com José Serra e Geraldo Alckmin. “São Paulo é sempre uma das disputas principais. É um dos maiores estados da federação, é da onde a maioria dos candidatos à presidência sempre vem. Seja lá quem for eleito governador de São Paulo, vai ser um potencial candidato à presidente”, afirmou.

Já o professor de ciência política da FGV, Marco Antonio Carvalho Teixeira, avaliou recentemente à imprensa que “Doria está construindo a candidatura à Presidência para 2022. Se Bolsonaro realmente não quiser reeleição [ele já declarou não ser favorável a um segundo mandato], pode ser o nome desse grupo. Por isso, Doria, na atual circunstância, não cabe num PSDB social-democrata”.

Para o professor, Doria vai querer comandar o PSDB. “Hoje detém o cargo mais influente, o de governador de SP. Tem cacife para isso [comandar os tucanos], mas o custo será alto”.

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Estagiária de Jornalismo do site de CartaCapital

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