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Novo bloco progressista exclui o PT e quer protagonismo no Congresso

Política

A tão debatida frente de partidos progressistas começa a tomar forma. Mas de uma maneira peculiar: a maior legenda, o PT, está fora do arranjo e corre o risco de ficar isolada tanto no Congresso quanto nos futuros acordos eleitorais. Nesta quinta-feira 20, PDT, PSB e PCdoB anunciaram oficialmente a formação de um bloco na Câmara de Deputados. A iniciativa, discutida há ao menos dois meses, pretende de unificar as ações durante o mandato de Jair Bolsonaro e aumentar a influência parlamentar das agremiações.

Segundo Carlos Lupi, presidente do PDT, o objetivo é formar o segundo ou terceiro maior bloco do Congresso. Os três partidos reúnem ao todo 69 deputados, mas há conversas em andamento com o PV, a Rede e o Solidariedade, o que pode ampliar o alcance da aliança.

A formação do bloco não é assunto novo. Durante a campanha, Ciro Gomes, do PDT, tentou atrair o PSB e o PCdoB, mas acabou atropelado pelo PT. O partido de Lula cedeu a Manuela D’Ávila, do PCdoB, a vice na chapa encabeçada por Fernando Haddad e demoveu a deputada Marília Arraes da ideia de disputar o governo de Pernambuco. A desistência de Arraes abriu as portas para que o PT apoiasse a reeleição de Paulo Câmara, do PSB. Em troca, os pessebistas mantiveram relativa neutralidade durante a disputa presidencial.

A interferência petista provocou a ira de Ciro Gomes, que prometeu nunca mais se aliar à legenda. O pedetista, terceiro colocado nas eleições deste ano, não desistiu, porém, da aliança e sonha em ter os partidos do bloco em sua base de apoio quando venha a disputar a presidência em 2022. Os movimentos de agora miram justamente testar essa base, que teria em Ciro o candidato natural daqui a quatro anos.

Embora a aliança precise ser testada na prática ao longo de 2019, as lideranças do bloco estão otimistas e projetam acordos nas próximas eleições municipais, conforme admite Carlos Siqueira, presidente do PSB. “A convergência programática pode levar a outras alianças no futuro, incluídas as disputas eleitorais em 2020”. Inicialmente, o lançamento de candidatos apoiados pelo bloco ocorreria nas capitais e nas maiores cidades do País.

Contra a hegemonia

O PT não só não foi convidado para compor o bloco, como acabou alijado das conversas que antecederam o anúncio da aliança. Segundo Lupi,  a forma como os petistas exercem a hegemonia, através da sigla, tornou-se um problema para as demais legendas do campo progressista.

Ninguém quer “ser o cão de guarda do PT“, acrescenta Lupi

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Dirigentes petistas rejeitam as críticas e enxergam uma tentativa de diminuir a importância do partido. “Não somos hegemônicos, mas não vamos pedir desculpa por ser um partido maior que os outros, ter uma grande base social”, afirma Emídio de Souza, integrante da executiva nacional e deputado estadual eleito em São Paulo.“Nos diminuir é inaceitável”.

A atitude de fragmentar a oposição, acredita Souza,  não é uma postura condizente com o pensamento progressista. “É uma bobagem acharem que vão fazer oposição no Brasil sem a gente. Isolar o PT não deveria ser o objetivo e não é uma tática de esquerda.”

Natimorto?

Vera Chaia, cientista política e professora da PUC de São Paulo, reforça a visão de Souza. Uma frente de oposição com três partidos, afirma, e que o ignora os petistas é um equívoco. “Não aceitando o PT nem o PSOL, que são os partidos mais combativos, é muito complicado. A própria reação do Bolsonaro mostra os limites dessa oposição”.

Ela lembra que os partidos que compõe a frente afirmaram que não farão oposição a tudo o que o governo Bolsonaro propor, sendo, por isso, limitada.

“Ciro Gomes, que é do PDT e que teria interesse em disputar as eleições em 2022, simplesmente desapareceu. Ele ‘marinou’, não manifesta o que pensa em relação esse futuro governo. Ele pode ser dar mal agindo dessa maneira. Se for pra fazer uma oposição tem de saber fazer composição.”

Experiências internacionais

A composição de frentes progressistas não é novidade. No Uruguai, que testa a fórmula há mais tempo, e em Portugal, cuja experiência é mais recente,  as alianças têm sido bem-sucedidas.

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No país vizinho, a frente ampla, formada pelos partidos de esquerda e organizações da sociedade civil, ocupa o poder há 19 anos. Essa hegemonia raramente foi ameaçada. O Uruguai é um oásis de estabilidade política-econômica no conturbado Cone Sul e está entre as nações mais avançadas em direitos civis – liberou o consumo da maconha, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Em Portugal, a “geringonça”, apelido jocoso para descrever a aliança entre o Bloco de Esquerda e o tradicional Partido Comunista, surpreende até os mais céticos. Unidos desde 2015 por uma agenda mínima e inegociável, a união chegou ao poder, rompeu com a política da austeridade e conseguiu recuperar o crescimento econômicos após a crise de 2008.

Prioridades do bloco

Entre os temas prioritários do bloco PDT-PSB-PCdoB está a discussão sobre a reforma da Previdência, tema que entrou na agenda do Congresso ainda no governo de Michel Temer. “A gente quer aprofundar a discussão”, afirma Lupi. “Ciro Gomes, como candidato à Presidência, tinha feito algumas propostas, mas é importante esperar o governo apresentar a proposta dele.”

Siqueira corrobora a prioridade ao debate sobre a previdência, além de saúde e assistência social. Não menos importante, diz, será a defesa da democracia.

“Primeiro, faremos um guarda-chuva de defesa da democracia porque não se deixa de temer pela sua existência, e segundo pelas pautas sociais cujas as propostas econômicas do futuro governo incide sobre uma política regressiva bastante acentuada. Então nós temos o dever, pela própria natureza dos nossos partidos, tanto de defender como de ampliar os direitos sociais. E esse é nosso papel no âmbito do Parlamento.”

Os dois partidos tinham alinhado a união há algum tempo. Faltava a posição do PCdoB . A adesão do partido comunista foi tomada na quarta-feira 19. A depender do desempenho do bloco nos primeiros meses, a aliança pode ser replicada no Senado.

*Com Carol Scorce

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Repórter do site CartaCapital.com.br

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