Entrevistas

‘No fundo, o Brasil só terá problemas caso contrarie as sanções contra a Rússia’

Para Kai Kenkel, da PUC-Rio, a aposta de Bolsonaro na neutralidade diante da ofensiva russa à Ucrânia pode ter prejuízos ainda maiores que a falta de fertilizantes

"Alguns elementos do alinhamento alt-right do governo o afastam da comunidade de valores ocidental tradicional" (Foto: Divulgação)
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A falta de clareza do governo brasileiro em relação ao ataque da Rússia à Ucrânia tem sido criticada por especialistas que acompanham a crise. É o caso de Kai Kenkel, professor e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação Acadêmica do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, que vê como equivocada a posição de no conflito e defende que o Brasil se posicione contra a invasão, alinhando-se à maioria dos países ocidentais. 

Apesar de votar a favor da condenação dos russos no Conselho de Segurança da ONU, o governo brasileiro evitou assinar declarações da OEA criticando a invasão da Ucrânia e disse não à divulgação de um comunicado do Mercosul contra o ataque. 

“Entender o porquê de Putin adotar uma certa política e reconhecer o papel do Ocidente na crise é bem diferente de se eximir em condenar a invasão de um país soberano”, defende. 

No domingo 27, Bolsonaro disse ter ligado para Putin e reiterou que o Brasil seguirá ‘neutro’ em relação à invasão. “Temos que ter responsabilidade em termos de negócios com a Rússia. O Brasil depende de fertilizantes”, disse.

Embora o país possa ser prejudicado pelas sanções contra a Rússia, pondera, o prejuízo seria maior caso o Brasil agisse em contrariedade a estas determinações. “Se o Brasil não se colocar claramente contra essa violação, pagará um custo na sua relação com os EUA. O mesmo vale para os demais membros da Otan e da União Europeia.”

Confira, a seguir, os destaques da conversa.

CartaCapital: Qual seria, na sua opinião, o melhor caminho para o Brasil diante desta crise?

Kai Kenkel: O Brasil deveria seguir uma combinação das diretrizes históricas da política externa brasileira e das prioridades de cada governo eleito. No caso da invasão da Ucrânia, parece que esses até se cruzam: condenação por causa da violação da soberania e o atual alinhamento com o Ocidente. Ao se posicionar contra a invasão, o país se alinharia com a grande maioria dos países e com as normas fundamentais do sistema internacional como repúdio à guerra, soberania e inviolabilidade de fronteiras. A opção é clara.

CC: Não poderíamos ser prejudicados pelas sanções contra a Rússia?

KK: Pode haver efeitos econômicos sobre o Brasil. O preço do gás, por exemplo, e a queda das bolsas. Mas, no fundo, o Brasil só pode incorrer em problemas se agir em contra às sanções contra a Rússia. 

Se o Brasil não se colocar claramente contra essa violação das normas fundamentais do sistema internacional, pagará um custo na sua relação com os EUA. O mesmo vale para os demais membros da Otan e da União Europeia. Entender o porquê de Putin adotar uma certa política e reconhecer o papel do Ocidente na crise é bem diferente de se eximir na hora de condenar a invasão de um país soberano.

CC: Do ponto de vista ideológico, como explicar a proximidade entre Putin e Bolsonaro?

KK: Nos juízos sobre Putin há uma brecha que se abre entre o Itamaraty e o núcleo ideológico do governo. O governo – que temos que lembrar possui em certo assuntos uma postura inspirada no que podemos chamar de alt-right –, têm se alinhado aos Estados Unidos. O esperado é que o fizesse agora novamente, pois se alinha neste caso a princípios históricos. Talvez tenha uma hesitação por causa das origens do pensamento do Putin no comunismo e nas tradições soviéticas, e o alinhamento de certa ala da alt-right com essa fonte de poder conservadora. Ou seja, do outro lado, o Putin hoje em dia defende pautas sociais conservadores também, no âmbito do gênero, por exemplo. Então haveria, do ponto de vista de um governo com inspiração alt-right, razões para apoiar e razões para se opor.

CC: O vice Mourão se posicionou de forma diferente…

KK: Ele não faz parte da ala alt-right do governo e acho que reagiu seguindo uma vertente mais tradicional das Forças Armadas, que se alinha com o Ocidente, e ainda vê o sucessor da URSS como inimigo. A motivação deve ser menos a preocupação com a democracia ou a soberania e mais com o alinhamento geoestratégico com o Ocidente. O episódio ilustra de forma contundente o fato que alguns elementos do alinhamento alt-right do governo o afastam da comunidade de valores ocidental tradicional. Vários líderes próximos do movimento—Trump, Orbán e outros—possuem uma relação com o Putin que é difícil de conciliar com as responsabilidades inerentes, por exemplo, a quem é membro da OTAN.

CC: Alguns analistas veem nesses acontecimentos sinais de uma mudança na ordem mundial. Nesses cálculos, não faria sentido se manter neutro?

KK: O Brasil se apequenou nos últimos três anos. Se já é pouco provável que uma potência emergente tenha um papel na crise envolvendo grandes potências, fica ainda mais difícil para o Brasil, diante da ruptura na política externa e do compromisso (discursivo, pelo menos) com o multilateralismo dos últimos anos. Talvez sobraria um papel para os BRICS, mas ali também temos a grande vencedora da crise, a China, e um governo indiano de cunho nacionalista que tampouco condena veementemente a atuação da Rússia.   

O Ministério das Relações Exteriores, que tem excelentes diplomatas, tem que equilibrar suas tradições com as diretrizes do governo eleito. Houve, porém, uma subjugação nefasta da política externa a cálculos eleitorais e pautas ideológicas que enfraqueceu o perfil do país, mas isso não é culpa da instituição Itamaraty. A questão é agir para não perder o prestígio adquirido em décadas de excelente atuação para os posicionamentos iconoclastas —no cenário internacional— do governo.

 

Fabíola Mendonça
Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco

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