Mourão sobe o tom contra Gilmar Mendes: “Cruzou a linha da bola”

Ministro do STF disse que 'o Exército está se associando a esse genocídio'

O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão. Foto: Romério Cunha/VPR

O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão. Foto: Romério Cunha/VPR

Política

O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, criticou o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por ter afirmado que “o Exército está se associando a esse genocídio”, ao se referir à gestão interina do Ministério da Saúde pelo general Eduardo Pazuello durante a pandemia do novo coronavírus.

Em transmissão ao vivo realizada pelo banco Genial Investimentos, nesta segunda-feira 13, Mourão disse que Gilmar Mendes passou dos limites.

“O ministro Gilmar Mendes não foi feliz, né? Vou usar uma linguagem do jogo de bola. Cruzou a linha da bola. Querer comparar a genocídio o fato das mortes ocorridas aqui no Brasil na pandemia, atribuir essa culpa ao Exército porque tem um general do exército como ministro interino da Saúde… Ele forçou uma barra aí, e agora ele está criando um incidente com o Ministério da Defesa”, afirmou militar.

O comentário de Mourão ocorre após o Ministério da Defesa anunciar que vai acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Gilmar Mendes. Em nota assinada pelo ministro Fernando Azevedo e comandantes das Forças Armadas, a pasta repudiou veementemente a declaração do magistrado e afirmou que tem compromisso com a preservação de vidas.

“A crítica vai ocorrer, tem que ocorrer, ela é válida. Mas o ministro ultrapassou o limite da crítica nisso aí”, avaliou Mourão. Em outro trecho da entrevista, concordou que uma gestão provisória é ruim para a pandemia. “Eu concordo que termos um ministro interino não é o melhor dos mundos, num momento em que estamos enfrentando uma doença como essa.”

No entanto, Mourão justificou que Pazuello foi nomeado “para solucionar o problema das aquisições e dos insumos e profissionais de saúde”, questões ligadas à logística do Ministério da Saúde.

“É óbvio que ele se cercou nessa questão logística das pessoas que ele conhecia dentro da Força. E trouxe esse número de militares aí, 20, 23 militares, atuando no Ministério da Saúde. Mas a parte técnica específica continua nas mãos de profissionais de saúde, que obviamente não eram aqueles que estavam com o ministro [Luiz Henrique] Mandetta”, disse o vice-presidente.

O general também considerou que não vê problemas no fim das coletivas diárias, como era comum no início da pandemia. Contudo, admitiu que o Ministério da Saúde tem faltado em apresentar conclusões sobre os índices da doença.

“A questão da comunicação, vivemos aquele período de coletivas todo santo dia, mas era o momento do início. Em São Paulo, o próprio governador [João] Doria já meio que cansou daquelas coletivas diárias para falar que morreram tantos, seguraram tanto, vou fechar A, vou fechar B. Na realidade o governo federal tem que procurar transmitir os números fidedignos, e acho que deve, isso sim, fazer uma análise desses números, semanalmente, a cada final da semana epidemiológica, apresentar suas conclusões sobre o que ocorreu no país naquele momento. Acho que isso está faltando realmente”, disse ele.

Na ocasião em que criticou o Exército, o ministro do STF se queixava da decisão do governo do presidente Jair Bolsonaro em manter Pazuello como ministro da Saúde interino, em vez de nomear um chefe definitivo para a pasta. Desde que Nelson Teich se demitiu em 15 de maio, o Ministério da Saúde é comandado por um militar de forma provisória.

A declaração ocorreu durante transmissão ao vivo realizada pela revista IstoÉ, no sábado 11. A frase de Gilmar Mendes foi reforçada pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que acusou o governo de promover “desmanche do Ministério da Saúde” e disse haver “aniquilação” e “ocupação militar” do órgão. Na sequência, o médico Drauzio Varella afirmou que “a entrada dos militares não honra a imagem do Exército”.

O Brasil ultrapassou 70 mil óbitos e 1,8 milhão de contaminações por coronavírus na última semana. O país ocupa a vice-liderança dos rankings mundiais de mortes e de casos confirmados, segundo contagem da Universidade Johns Hopkins. Em 1º lugar, os Estados Unidos acumulam mais de 135 mil vítimas fatais e 3,3 milhões de infectados.

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Repórter do site de CartaCapital

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