“Exército está se associando a esse genocídio”, critica Gilmar Mendes

Ministro do STF criticou gestão da pandemia pelo governo Bolsonaro, que mantém Ministério da Saúde sem chefe definitivo

O ministro Gilmar Mendes. Foto: Nelson Jr./SCO/STF

O ministro Gilmar Mendes. Foto: Nelson Jr./SCO/STF

Política

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), queixou-se da falta de um chefe definitivo para o Ministério da Saúde durante a pandemia do novo coronavírus e afirmou que os militares estão “se associando a esse genocídio” durante o governo do presidente Jair Bolsonaro. A declaração ocorreu no sábado 11.

Gilmar Mendes conversava com o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o médico Drauzio Varella e a infectologista Maria dos Remédios, entre outros participantes, durante transmissão ao vivo da revista IstoÉ. Na ocasião, criticou a decisão do governo em manter o general Eduardo Pazuello no comando interino do Ministério da Saúde, desde que Nelson Teich deixou o cargo de ministro em 15 de maio. Na prática, a pasta está há quase dois meses sem um chefe permanente. Para o ministro do STF, a situação é intolerável.

“Não podemos mais tolerar essa situação que se passa no Ministério da Saúde. Pode se ter estratégia e tática em relação a isso. Não é aceitável que se tenha esse vazio no Ministério da Saúde. Pode até se dizer: a estratégia é tirar o protagonismo do governo federal, é atribuir a responsabilidade a estados e municípios. Se for essa a intenção, é preciso se fazer alguma coisa. Isso é ruim, é péssimo para a imagem das Forças Armadas. É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável. Não é razoável para o Brasil. É preciso pôr fim a isso”, afirmou o magistrado.

O Brasil ultrapassou 70 mil óbitos e 1,8 milhão de contaminações por coronavírus na última semana. O país ocupa a vice-liderança dos rankings mundiais de mortes e de casos confirmados, segundo contagem da Universidade Johns Hopkins. Em 1º lugar, os Estados Unidos acumulam mais de 134 mil vítimas fatais e 3,2 milhões de infectados.

Para Gilmar Mendes, “o Brasil é muito mal visto” no exterior diante do crescimento dos índices da covid-19. O ministro declarou estar em Portugal durante a live. Em resposta, Mandetta também criticou a atuação do militares à frente do Ministério da Saúde. Ele chefiou a pasta até abril deste ano, mas foi demitido após conflitos com o Palácio do Planalto em relação às medidas adotadas contra a pandemia.

“Parece que, na minha sucessão, trocaram metade e, depois, trocaram absolutamente todo o corpo ministerial técnico. Aí é que está o maior problema”, afirmou Mandetta. “O desmanche do Ministério da Saúde na maior pandemia do século. E não é nem uma interferência no Ministério da Saúde. É uma aniquilação do Ministério da Saúde. É uma ocupação militar do Ministério da Saúde.”

Na sequência, Drauzio Varella apontou concordância com as críticas ao Exército.

“A entrada dos militares não honra a imagem do Exército brasileiro, pela qual eu tenho o maior respeito. Nós, infelizmente, não precisávamos ter 70 mil mortos no Brasil até este momento. A situação podia ser muito diferente, se tivesse havido uma coordenação harmoniosa entre o governo federal e os governos estaduais e municipais no combate da epidemia”, afirmou.

O médico avaliou ainda que o Brasil não está em uma situação pior por causa da ação do Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar de “menosprezado” e “subfinanciado” pelo governo, o sistema colabora no gerenciamento da crise sanitária, graças ao atendimento gratuito aos pacientes de coronavírus.

“Ainda bem que nós temos o SUS. Se não fosse o SUS nesse momento, nós estaríamos perdidos. As pessoas mais pobres estariam morrendo no meio das ruas, porque não teriam qualquer tipo de atendimento. O SUS, menosprezado, subfinanciado, desacreditado pela própria população brasileira, deu uma demonstração de agilidade que deixa claro que quando há vontade política, nós temos as ferramentas para fazer o SUS funcionar melhor”,

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Repórter do site de CartaCapital

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