Política

Lula oficializa pré-candidatura à Presidência: ‘Que o fascismo seja devolvido ao esgoto da história’

Em lançamento de sua chapa com Geraldo Alckmin, petista associou o autoritarismo de Bolsonaro à crise econômica

Discurso de Lula teve bandeira do Brasil no palco do evento. Foto: Ricardo Stuckert
Discurso de Lula teve bandeira do Brasil no palco do evento. Foto: Ricardo Stuckert
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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) oficializou a pré-candidatura para a eleição deste ano, junto ao ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSB), durante evento em São Paulo, neste sábado 7.

Em longo discurso, Lula fez uma série de críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PL), seu principal opositor na disputa ao Palácio do Planalto. O petista fez referências ao que chamou de autoritarismo do governo e relacionou a falta de normalidade democrática à crise econômica atual.

“É preciso dizer com toda a clareza. Para sair da crise, crescer e se desenvolver, o Brasil precisa voltar a ser um país normal, no mais alto sentido da palavra. Não somos a terra do faroeste, onde cada um impõe a sua própria lei. Não. Temos a lei maior, a Constituição, que rege a nossa existência coletiva, e ninguém tem o direito de ignorá-la ou de afrontá-la”, disse.

Na sequência, o ex-presidente criticou os atritos entre Bolsonaro e outros poderes, sobretudo o Judiciário.

“Chega de ameaças, chega de suspeições absurdas, chega de chantagens verbais, chega de tensões artificiais. O país precisa de calma e tranquilidade para trabalhar e vencer as dificuldades atuais. E decidirá livremente, no momento que a lei determina, quem deve governá-lo.”

No trecho posterior, associou mais uma vez a preservação da democracia à superação da crise econômica e disse querer retornar ao governo para derrotar o “fascismo”.

“Nós queremos governar para trazer de volta o modelo de crescimento econômico com inclusão social que fez o Brasil progredir de modo acelerado e tirou 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza. Queremos voltar para que ninguém nunca mais ouse desafiar a democracia. E para que o fascismo seja devolvido ao esgoto da história, de onde jamais deveria ter saído.

Em relação à sua aliança com Alckmin, ex-tucano que foi seu adversário na eleição de 2006, Lula fez uma brincadeira e afirmou que o prato “lula com chuchu” ganhará popularidade. Também mencionou uma frase atribuída ao educador Paulo Freire: “É preciso unir os divergentes, para melhor enfrentar os antagônicos”.

Lula dedicou maior parte do seu discurso para criticar o governo federal na condução da economia.

O petista acusou o governo Bolsonaro de promover um desmonte na Petrobras e o culpou pela alta nos preços dos combustíveis, que continuam atingindo níveis recordes nos postos.

“Colocaram à venda as reservas do Pré-Sal, entregaram a BR Distribuidora e os gasodutos, interromperam a construção de algumas refinarias e privatizaram outras. O resultado desse desmonte é que somos autossuficientes em petróleo, mas pagamos por uma das gasolinas mais caras do mundo, cotada em dólar, enquanto os brasileiros recebem os seus salários em real”, afirmou. Na sequência, também citou o encarecimento do botijão de gás de cozinha e do óleo diesel.

Lula também rechaçou a privatização da Eletrobras, geradora de energia que ainda não teve a venda concluída por conta de um julgamento no Tribunal de Contas da União. Segundo o ex-presidente, a operação pode comprometer programas sociais que facilitem o acesso à energia elétrica. Nesse discurso contra as privatizações, Lula incluiu também a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.

O ex-presidente declarou que o seu programa deve combinar “crescimento econômico com inclusão social” e criticou a queda da renda familiar e o aumento da fome.

“Os trabalhadores e a classe média também foram atingidos em cheio pelo aumento descontrolado da gasolina, dos alimentos, dos planos de saúde e das mensalidades escolares, entre tantos outros custos que não param de subir. Viver ficou muito mais caro.”

Na sequência, citou o aumento no endividamento das famílias brasileiras e disse que elas estão evitando comprar bens duráveis, como televisão e geladeira, ou realizar reformas domiciliares.

“Elas estão se endividando para comer. Ou seja: o Brasil voltou a um passado sombrio que havíamos superado.”

Lula não mencionou diretamente que revogará reformas econômicas adotadas desde o governo de Michel Temer (MDB), apesar de já ter feito alguns acenos. A questão previdenciária não foi citada. Em relação à reforma trabalhista, disse que é preciso “estimular a negociação em bases civilizadas e justas”.

“Nós fomos capazes de gerar mais de 20 milhões de empregos com carteira assinada e todos os direitos garantidos, enquanto eles destruíram direitos trabalhistas e geraram mais desemprego e mais sofrimento na vida do povo trabalhador. É preciso avançar numa legislação que garanta todos os direitos dos trabalhadores. Que estimule a negociação em bases civilizadas e justas entre patrões, empregador e empregados, governo e, porque não dizer, até envolvendo as universidades. Que contribua para criar melhores empregos, e faça girar a roda da economia.”

Geraldo Alckmin (PSB) fez discurso virtual. Foto: Reprodução

Pré-candidato tocou em temas sensíveis a Bolsonaro

Lula usou boa parte de sua fala para enumerar temas sensíveis ao governo, como a demarcação de terras indígenas, a preservação do meio ambiente e a valorização dos profissionais da cultura.

Também criticou o que chamou de “irresponsabilidade” da gestão de Bolsonaro na pandemia e o acusou de “descaso” pela falta de investimentos, profissionais e medicamentos no Sistema Único de saúde.

No tema da educação, área em que o governo figurou um dos mais recentes escândalos, Lula criticou a baixa no orçamento do Ministério da Educação e afirmou que as verbas no seu governo eram maiores.

Em um curto trecho, fez referência diretas a populações minoritárias, como mulheres, LGBTs e pessoas negras, embora o conservadorismo de Bolsonaro nesses campos costume atrair mais eleitores, segundo observadores.

“Nenhum país será soberano enquanto mulheres continuarem a ser assassinadas pelo fato de serem mulheres. Enquanto pessoas continuarem a ser espancadas e mortas por conta de sua orientação sexual. Enquanto não forem combatidos com rigor o extermínio da juventude negra e o racismo estrutural que fere, mata e nega direitos e oportunidades”, afirmou.

Geraldo Alckmin discursou em vídeo

Infectado pela Covid-19, Alckmin fez um discurso em vídeo no qual defendeu a candidatura de Lula e prometeu lealdade ao antigo adversário. Além disso, o ex-tucano minimizou as suas diferenças ideológicas com o petista.

“Nenhuma divergência do passado, nenhuma diferença do presente, nem as disputas de ontem, nem as eventuais discordâncias de hoje ou de amanhã, nada servirá de razão para que eu deixe de apoiar e defender com toda a minha convicção a volta de Lula à presidência do Brasil”, declarou.

O evento teve presença de líderes políticos e celebridades, mas não houve outros discursos.

Apesar do evento de formalização da chapa, a candidatura é oficialmente definida após o período das convenções partidárias previsto pelo calendário oficial do TSE, entre 20 de julho e 5 de agosto. As candidaturas podem ser, enfim, registradas, até o dia 15 de agosto, e a propaganda eleitoral.

Victor Ohana

Victor Ohana
Repórter do site de CartaCapital

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