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Lula inspira não apenas o Brasil, mas quem o visita, diz Boaventura

Política

Pouco antes da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra, Portugal, enviou uma carta pessoal a Lula.

Nela, Santos perguntava: “Que magia é a sua para ser hoje o que garante a democracia brasileira, o símbolo de esperança para milhões de brasileiros que gritam o seu nome por todo o pais e em muitas cidades estrangeiras? Que magia é essa para com tanta coragem e no meio de tanto sofrimento pessoal dar essa extraordinária lição de dignidade e de humanidade?”. Nesta quinta feira 30, ele veio a Curitiba rever e visitar o ex-presidente, preso na sede da Superintendência da Policia Federal a quase 150 dias.

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Ao final do encontro, revelou aos jornalistas que saía da carceragem da PF absolutamente inspirado. “O que vi foi a grandeza de um homem que sabe inspirar não só o País, mas todos aqueles que o visitam”, comentou. Para ele, a dimensão política do ex-presidente está no fato de, mesmo preso, ser capaz de influenciar o Brasil com energia, vitalidade e lucidez, algo absolutamente extraordinária, afinal, “é justamente a grandeza do País que este homem quer resgatar”, afirmou.

“Não se trata do Lula pessoa”, disse Santos, “mas do Lula ideia. A ideia de um país com esperança em uma sociedade melhor e inclusiva, mais justa e fraterna”. Incentivou os militantes mais jovens, “os mesmos que resistem na vigília “Lula Livre”, no acampamento Marisia Letícia, nos partidos de esquerda ou movimentos sociais” a permanecer na luta em defesa da democracia. “A resistência de Lula em uma cela de prisão fez o Brasil perder o medo e ganhar a esperança. Essa foi a maior lição que recebi nesta tarde”, concluiu.

Em entrevista a CartaCapital, o sociólogo disse que a prisão de Lula gerou indignação não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, afinal, trata-se de um ato injusto, com motivação política, cujo único objetivo foi impedir sua candidatura à presidência da República. “Mas ele é um político com uma força anímica fora do comum, portanto, não será fácil derrota-lo. Ao contrário, tudo o que fizeram ou disseram contra ele reverteu-se contra seus próprios algozes, que não conseguiram destruir suas obras e muito menos as suas ideias”.

Lembrou que se trata do presidente mais popular da história política brasileira e o reconhecimento da população está nos números das pesquisas que o apontam em primeiro lugar na disputa eleitoral deste ano. Para ele, só mesmo um grande líder é capaz de influenciar a política de um país continental como o Brasil, de dentro de uma cela e ainda suscitar a atenção internacional. “A declaração emitida pelo Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas revelou a extraordinária força política deste homem em todo o mundo” afirmou Santos.

Em sua opinião, a força deste documento mostra que a ONU está interessada no caso. “Trata-se de uma medida preventiva. Qualquer decisão mais grave que venha a ser tomada contra o presidente Lula, certamente terá uma condenação universal”, opinou Santos. “A decisão de prender Lula fez com que a democracia de todo o mundo passasse a ser julgada aqui neste lugar, nesta rua, nesta vigília, nesta prisão”.

Segundo Santos, o foco da história não é apenas a democracia brasileira, mas a democracia de todo o mundo, uma vez que o que vem sendo praticado no Brasil tem impacto internacional. “Estes algozes que querem mostrar que tem poder sobre o Direito ao invés do Direito ter poder sobre eles, como faz o magistrado Sergio Moro, estão apenas criando um estado de exceção. O que pode acontecer é o surgimento de muitos “Moros” para incentivar prática do golpe institucional”.  

Os Estados Unidos, explicou o sociólogo, se tornaram o exemplo clássico da Nação que, ao invés de militares, prefere o Judiciário para destruir ou desestabilizar as democracias pelo mundo afora como forma de torná-las dependentes dos interesses globais ou mesmo regionais dos americanos. “Nos países democráticos não existem presos políticos. E Lula já é considerado internacionalmente um preso político. Aliás, o preso político mais famoso de todo mundo. Isto mostra o grave risco que corre a democracia brasileira”.

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