‘Lamentável na forma, na postura e no conteúdo’, diz Celso Amorim sobre Bolsonaro na ONU

Para o ex-chanceler, uma vitória de Lula nas eleições de 2022 facilitará o caminho de reconstrução da credibilidade do Brasil

Celso Amorim e Jair Bolsonaro. Fotos: AFP e Alan Santos/PR

Celso Amorim e Jair Bolsonaro. Fotos: AFP e Alan Santos/PR

Política

O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na abertura da 76ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, foi lamentável na forma, na postura e no conteúdo. A análise é de Celso Amorim, que chefiou o Ministério das Relações Exteriores nos governos de Lula.

 

 

O discurso foi marcado por mentiras e imprecisões. Primeiro chefe de estado a se manifestar, o ex-capitão voltou a defender, diante das delegações de todo o mundo, o uso de medicamentos ineficazes contra a Covid-19 e a atacar medidas de distanciamento social. Também recorreu a dados questionáveis para anunciar ações de proteção ao meio ambiente e omitiu as investigações sobre corrupção que envolvem o clã Bolsonaro.

Além do pronunciamento, diz Celso Amorim, os episódios protagonizados pela comitiva brasileira em Nova York ilustram as dificuldades que um governo democrático eleito em 2022 terá para reconstruir a imagem do País.

Leia os principais pontos da entrevista:

CartaCapital: Qual é a sua avaliação do discurso de Bolsonaro na ONU?

Celso Amorim: Não diria que é apenas zero, mas negativo. Transmite uma percepção péssima do Brasil. Aquele é o discurso de abertura do debate geral. Todo mundo fala um pouco para o público interno, mas ele só falou para o público interno, para o público dele, uma coisa vergonhosa. Com uma porção de inverdades.

O que era verdadeiro tinha uma mentira implícita, porque estava atribuindo a ele coisas que outros presidentes conseguiram, como a matriz energética limpa na comparação com a de outros países. E os dados sobre clima, falsos, fora de contexto. Vergonhoso na atitude, ao falar de ‘tratamentos precoces’, e mais vergonhoso ainda ao ir até lá sem se vacinar, o que é uma ofensa à ONU e ao país que o recebe. Tudo aí nos enche de vergonha.

CC: A comunidade internacional esperava algo diferente?

CA: Eu não esperava nada. Vi um dos grandes jornais brasileiros dizendo que ele teria uma oportunidade para mudar a imagem. Oportunidade, sim, mas eu não acreditava que fosse acontecer, porque o Bolsonaro é o Bolsonaro.

A única frase que você pode dizer que é razoável em todo o discurso, que parece que alguém do Itamaraty enfiou ali, é aquela em que ele pede a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Uma frase que não tem nada a ver com o resto.

Discurso lamentável na forma, no conteúdo, na postura. Parece, na postura, o discurso de um prefeito de uma pequena cidade falando em uma reunião da Câmara de Comércio local. Não é o discurso do pódio da ONU, falando para o mundo, dizendo como o Brasil pretende ajudar a melhorar o mundo, que é o que todos fazem.

Bolsonaro só falou sobre o Brasil, para enganar sobretudo os brasileiros, porque os estrangeiros ele não engana. Ninguém mais acredita no Bolsonaro, ninguém tem ilusão com o Bolsonaro.

CC: Isso mostra que o Itamaraty pós-Ernesto Araújo teve pouca influência sobre o discurso?

CA: Ele é que está influenciando o chanceler, e o Itamaraty não está tendo nenhuma influência. É cada vez mais esdrúxulo. Porque, quando tinha o Trump, alguém poderia dizer ‘ah, ele forma um eixo com o Trump’. Hoje em dia ele forma um eixo com quem? Com ninguém. Porque mesmo esses países mais de extrema-direita da Europa ficam meio moderados pela União Europeia.

Não falou de América Latina, de Caribe, de África, de nada. Nenhuma alusão a qualquer país, porque agora ele não tem mais amigos. É um aluno esdrúxulo que fica em um canto e com quem ninguém quer falar.

CC: Além do discurso, há as refeições em ‘puxadinhos’ porque Bolsonaro não se vacinou, o constrangimento na reunião com Boris Johnson, os gestos obscenos de Queiroga

CA: A imagem tem de corresponder à realidade. Me lembro de que os governos militares eram obcecados com a imagem. Mas nunca vi um País desprezar a imagem.

Ele consegue não só atuar negativamente na realidade, mas destruir a imagem. Alguém devia explicar a ele o que é a ONU, o que as pessoas falam na ONU. Mesmo na forma. Você acha que alguém está interessado em saber se foi privatizada a empresa de água do Rio de Janeiro? É uma falta de noção absoluta.

CC: A política externa, caso o campo democrático vença as eleições de 2022, terá de receber atenção prioritária a fim de tentar reverter os danos à imagem do País?

CA: A mudança em si já terá um impacto muito grande na imagem, na percepção. Espero que seja o Lula, mas eleita uma pessoa do campo democrático, isso já causará uma mudança.

Agora, a credibilidade foi muito afetada. A gente não pode ignorar isso, a marca fica. Porque o mal que está sendo feito é muito grande. A diplomacia se baseia muito na confiança, na credibilidade, na estabilidade.

O Brasil, desde a redemocratização, sempre foi visto como um País confiável, que procurava respeitar os direitos humanos, que procurava evoluir. Com Bolsonaro, não, é o contrário. Como ele foi eleito, vai pesar sobre o Brasil por algum tempo essa mesma dúvida que se ouve de alguns europeus sobre os Estados Unidos: ‘Olha, o Trump pode voltar, ele foi eleito’. E o Bolsonaro, infelizmente, com fake news, foi eleito.

Então, vai dar muito trabalho para a gente reconquistar a confiança. Se for com Lula, será muito mais fácil, porque ele traz uma carga muito grande, ele é conhecido, amado, estimado, e isso obviamente influirá positivamente. Mas, de qualquer maneira, os diplomatas terão muito trabalho para convencer que Bolsonaro foi um ponto fora da curva.

 

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Editor do site de CartaCapital. Twitter: leomiazzo

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