Itamaraty diz à CPI da Covid não ter qualquer indício de ‘guerra química’ sugerida por Bolsonaro

No início deste mês, o presidente voltou a atacar a China e insinuou, sem provas, que o coronavírus pode ter 'nascido em laboratório'

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: AFP

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: AFP

Política

O ministro das Relações Exteriores, Carlos França, não sustentou as insinuações do presidente Jair Bolsonaro sobre uma suposta “guerra química” que explicaria o ‘surgimento’ do novo coronavírus.

 

 

Em ofício encaminhado nesta sexta-feira 28 à CPI da Covid, o Itamaraty afirma não ter produzido ou fornecido “informação sobre a possibilidade de estar em curso uma guerra não declarada, promovida por nação estrangeira, por meio de guerra, química, bacteriológica e radiológica”.

A manifestação do MRE foi provocada pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), titular da CPI. No dia 5 deste mês, em mais um ataque à China, Bolsonaro sugeriu que o novo coronavírus poderia ter sido criado em um laboratório. Como de praxe, o presidente não apresentou qualquer evidência para sustentar a insinuação.

“É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu porque um ser humano ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês”, declarou o presidente em evento no Palácio do Planalto.

Horas depois, tentou negar ter se referido à China no polêmico discurso.

“Eu falei a palavra ‘China’ hoje de manhã? Eu não falei. Eu sei o que é guerra bacteriológica, guerra química, guerra nuclear. Eu sei porque tenho a formação. Só falei isso, mais nada. Agora, ninguém fala, vocês da imprensa não falam onde nascem os vírus. Falem. Ou então têm medo de alguma coisa? Falem. A palavra ‘China’ não estava no meu discurso de quase 30 minutos de hoje”, disse o ocupante do Palácio do Planalto.

A ofensiva de Bolsonaro contra a China, país fundamental para o fornecimento de insumos dos quais o Brasil depende para produzir vacinas contra a Covid-19, é um dos pontos investigados pela CPI no Senado. Na quinta-feira 27, o depoimento do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, lançou mais luzes sobre o impacto negativo das alegações do presidente.

Um momento significativo na oitiva foi a afirmação, por parte de Covas, de que declarações de Bolsonaro em 2020 levaram à paralisação por três meses do processo de compra da Coronavac.

Segundo o responsável pelo Butantan, se não houvesse a interrupção seria possível ter entregue 100 milhões de doses da vacina até este mês. Covas revelou que a expectativa era de assinatura do contrato pelo governo Bolsonaro em outubro de 2020.

“Todas essas negociações que ocorriam com troca de equipes técnicas, com troca de documentos, a partir desse momento elas foram suspensas. Quer dizer, houve, no dia 19 [de outubro], um dia antes da reunião com o ministro, um documento do ministério que era um compromisso de incorporação, mas, após, esse compromisso ficou em suspenso e, de fato, só foi concretizado em 7 de janeiro”, afirmou.

Após o vice-presidente da CPI, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), reproduzir áudios em que Bolsonaro dizia que a Coronavac não seria adquirida pelo governo, Covas reforçou: “Infelizmente, essas conversações não prosseguiram, porque houve, sim, aí, uma manifestação do presidente da República, naquele momento, dizendo que a vacina não seria, de fato, incorporada, não haveria o progresso desse processo”, disse.

 

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