Política

Factoide pornô de Bolsonaro não convence nem sua milícia virtual

Mais que falta de decoro (ou noção), a questão é de estratégia. Desta vez, porém, o tiro saiu pela culatra

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Alvo preferido de um Carnaval marcado por fantasias de laranja e bordões nada lisonjeiros bradados em blocos de rua de todo o País, o presidente Jair Bolsonaro reagiu aos protestos com uma prova gráfica. Ou melhor: pornográfica.

Para sua principal manifestação pública sobre o Carnaval, o 38º presidente da República do Brasil escolheu o vídeo de um homem dançando sobre um ponto de táxi enquanto toca o próprio ânus. Na sequência, um outro sujeito baixa as calças e urina sobre o cabelo do performer.

Bolsonaro escreveu que, embora não se sentisse “confortável em mostrar”, tinha que “expor a verdade” para que a população “ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades”. E terminou sugerindo que o ato é corriqueiro nas festas de Carnaval.

A cena aconteceu na segunda-feira 4, durante a passagem de um pequeno bloco de música eletrônica no centro de São Paulo, e como testemunhado in loco pela reportagem, foi um ato isolado.

Como na maioria dos factoides criados por Bolsonaro, os rastros digitais sugerem uma ação coordenada. Uma das primeiras aparições do vídeo no Twitter foi na madrugada do dia 5 de março, a partir da conta @EdimilsonPapo10, ligada à militância bolsonarista. A legenda associava as cenas escatológicas à luta contra a homofobia, aos protestos contra Bolsonaro e ao caso da performance do MAM convertida em escândalo em 2017.

Uma das primeiras postagens com o vídeo já associava escatologia ao campo progressista (Foto: Reprodução)

O caminho das postagens sugere mesmo uma tentativa de reciclar o episódio do MAM – quando um evento a portas fechadas virou assunto nacional depois da divulgação de imagens de uma criança que, com a anuência da mãe, tocava os pés de um artista nu. Na época, o Ministério Público abriu inquérito para apurar se houve crime e o performer Wagner Schwartz, acusado de ser “pedófilo”, chegou a ser convocado para dar depoimento no Senado.

Mais que falta de decoro (ou noção), a questão é de estratégia. O professor Pablo Ortellado lembra que, desde antes nas eleições, Bolsonaro rivaliza a defesa de valores familiares à militância feminista e LGBT. “Sem apoio dos meios de comunicação, Bolsonaro precisa de um público em estado de agitação permanente para seguir compartilhando, sem eles, as mensagens não se difundem”, escreveu.

Ao menos desta vez, o tiro saiu pela culatra. Com a adesão de Bolsonaro, o vídeo ultrapassou a marca 3 milhões de visualizações, virou vexame internacional para o presidente e vem rendendo até pedidos de impeachment.

O pesquisador Fábio Malini, do Labic (Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cultura) monitorou as primeiras reações ao post presidencial. Segundo ele, as críticas chegaram primeiro e em volume bem maior que os elogios. “É sinal de que quem levará esse conteúdo a outras redes sociais é a turma que se opõe a ele.”

Ao contrário do caso do MAM, em que o conteúdo do vídeo foi o grande assunto, a postura do presidente chocou mais que as imagens explícitas. E foi o campo progressista, e não o da extrema-direita, que pautou a discussão sobre o tema nas redes sociais.

Outro motivo, aponta Malini, é que o conteúdo pornográfico não duraria muito tempo no Facebook e no Instagram, que têm políticas mais rígidas contra nudez.

O MBL,vetor dos posts mais compartilhados sobre o caso MAM, não se manifestou desta vez. Páginas populares de apoio a Bolsonaro no Facebook, como Exército Bolsonaro, Admiradores de Jair Bolsonaro e Direita Vive, se limitaram a rebater as reações negativas ao post.

As estrelas do MBL, aliás, detonaram o presidente. Fernando Holiday disse no Twitter que o vídeo era “indigno para o cargo”, e Kim Kataguiri afirmou que “nada justifica o presidente compartilhar pornografia”.

Nomes mais destacados do PSL, como Carla Zambelli e Joice Hasselmann, só apareceram depois da confusão já armada, e optaram por criticar a esquerda e desconversar sobre um eventual impeachment. As hashtags #ImpeachmentBolsonaro e #goldenshowerpresident, que lideravam os assuntos mais comentados, foram rebatidas por #BolsonaroTemRazão.

“Essa esquerda que mostra bundas e peitos nas ruas, que usa símbolos religiosos pra cometer atos profanos em praça pública, que apoia exposições com adultos pelados para crianças tocarem, agora está “chocada” com o vídeo compartilhado pelo presidente @jairbolsonaro. Faz-me rir!”, escreveu Joice.

O assessor Filipe Martins tentou contemporizar a postura do chefe. “Roosevelt dizia que a Presidência da República é um ‘bully pulpit’, uma posição pública que permite falar com clareza e com força sobre qualquer problema. Foi o que o presidente @jairbolsonaro fez ao expor o estado de degeneração que tomou nossas ruas nos últimos dias.”

Enquanto isso, Mourão se aquece na beira do gramado.

Cortina de fumaça ou programa de governo?

Mesmo depois de toda a repercussão, Bolsonaro não apenas manteve o vídeo no ar, como continuou falando sobre o assunto. Ele voltou a se manifestar na manhã seguinte, querendo saber o significado da expressão golden shower.

A insistência levantou suspeitas de que ele esteja apelando às táticas de uma teoria chamada Janela de Overton. Essa teoria sugere que há uma “janela” de assuntos e propostas aceitáveis no debate público, e defende que o melhor jeito de ampliar essa janela é discutindo temas extremos — como faz o presidente Donald Trump quando trombeteia mentiras, ofensas e teorias da conspiração.

Trocando em miúdos: mesmo que as pessoas rejeitem a escatologia e a postura do presidente, as ideias associadas ao vídeo (de que a população LGBT é promíscua e o carnaval de rua, uma devassidão que não merece investimento público), por comparação, ficariam mais palatáveis.

Thais Reis Oliveira

Thais Reis Oliveira
Editora-executiva do site de CartaCapital

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