Política
Entre Brasília e a Paraíba, Lula e Motta medem limites da aproximação
Condução de pautas de interesse do Planalto convive com o apoio do presidente a um rival da família Motta; para aliados, o gesto não desmonta a composição estadual
A relação entre Hugo Motta (Republicanos-PB) e o presidente Lula (PT) vive um momento de acomodação em Brasília. À frente da Câmara dos Deputados, Motta tem dado curso a pautas de interesse do Palácio do Planalto e segurado propostas vindas do Senado que preocupam a equipe econômica.
Fora do Congresso, porém, Lula fez questão de reafirmar apoio a Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), adversário direto de Nabor Wanderley (Republicanos), pai de Motta e pré-candidato ao Senado em 2026.
Nas últimas semanas, Motta acumulou movimentos lidos em Brasília como sinais de boa vontade com o governo. Um dos principais exemplos está na tramitação das propostas relacionadas ao fim da escala 6×1. Depois de conduzir a aprovação da PEC que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, o presidente da Câmara decidiu pautar também o projeto de lei enviado pelo Palácio do Planalto sobre o mesmo tema. A proposta tramita em regime de urgência constitucional e vinha travando a pauta da Casa.
Além disso, Motta convocou reunião de líderes nesta terça-feira 16 para discutir o parecer do relator, o deputado Léo Prates (Republicanos-BA), e acelerar a votação da matéria, considerada uma das principais bandeiras do governo neste ano.
Outra pauta alinhada aos interesses do Planalto é o projeto que equipara a misoginia ao racismo. O texto, relatado pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP), também foi incluído entre as prioridades da semana por determinação do presidente da Câmara, apesar da resistência de setores da oposição.
Motta também tem sinalizado cautela em relação a projetos aprovados pelo Senado que ampliam gastos públicos sem previsão clara de compensação orçamentária. Entre eles estão a renegociação de dívidas do setor agropecuário com recursos do Fundo Social do Pré-Sal, medida que, segundo estimativas do Ministério da Fazenda, pode gerar impacto bilionário nas contas públicas.
Nos bastidores, integrantes do governo avaliam que o presidente da Câmara tem funcionado como uma barreira para impedir o avanço acelerado dessas matérias, evitando novos desgastes fiscais para o Executivo.
Lula surpreendeu parte do entorno do presidente da Câmara ao divulgar um vídeo pedindo votos para Veneziano Vital do Rêgo, que buscará a reeleição ao Senado em 2026. Na peça, Lula elogia a atuação do senador em Brasília e afirma que Veneziano foi um dos congressistas mais leais ao governo durante o atual mandato.
Veneziano disputará espaço justamente com Nabor Wanderley, ex-prefeito de Patos, pai de Hugo Motta e nome do Republicanos para o Senado.
Apesar disso, lideranças do Republicanos e do PP ouvidas pela reportagem procuram reduzir o peso do episódio. A avaliação nesses grupos é que o apoio pessoal de Lula a Veneziano não necessariamente desmonta a composição costurada na Paraíba, onde Republicanos, PP e PSB atuam em torno do projeto de continuidade do grupo governista estadual, com Lucas Ribeiro (PP).
A expectativa desses aliados é que o PT permaneça integrado à aliança local, mesmo diante da preferência explícita de Lula por Veneziano. O cálculo é pragmático: para o partido, a prioridade em 2026 será a reeleição presidencial de Lula, e a permanência no bloco que controla o governo estadual pode oferecer mais estrutura política do que uma ruptura em torno da disputa ao Senado.
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