Política
De volta ao bolsonarismo, Moro transforma o Paraná em base para tentar barrar Lula outra vez
Decisivo como juiz para a vitória de Bolsonaro em 2018, o senador também garantirá um palanque competitivo para Flávio
O senador Sergio Moro deve formalizar na próxima terça-feira 24 a troca do União Brasil, legenda pela qual se elegeu senador em 2022, pelo PL, de olho na disputa pelo governo do Paraná em outubro. Com seu ingresso na casa do bolsonarismo, voltará às origens de auxiliar da extrema-direita.
Escanteado devido a entraves com o PP de Ricardo Barros — que forma uma federação com o União Brasil —, o ex-juiz firmou na última quarta-feira 18 o compromisso de se filiar ao Partido Liberal. Na ocasião, esteve com o senador Flávio Bolsonaro (PL), a quem apoiará na corrida presidencial.
O movimento cristaliza o rompimento do PL com o governador Ratinho Junior (PSD), que não recuou do plano de se lançar ao Palácio do Planalto e procura viabilizar um integrante de sua gestão como sucessor.
Marca também a aliança formal entre Moro e Jair Bolsonaro (PL), a quem o então juiz da Lava Jato ajudou decisivamente em 2018 ao dar o pontapé inicial para retirar Lula (PT) daquela eleição. O Tribunal Superior Eleitoral não teria rejeitado a candidatura do petista não fosse a condenação imposta pelo então titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, posteriormente chancelada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região.
Sem surpresas, Moro aceitou ser ministro da Justiça do governo que ajudou a eleger, a partir de 2019. Deixou o cargo em abril de 2020 acusando Bolsonaro de interferir na Polícia Federal, mas ainda assim voltou a apoiar o ex-capitão dois anos depois, quando Lula conquistou seu terceiro mandato.
Para Jorge Chaloub, professor de Ciência Política da UFRJ e colunista de CartaCapital, a opção de Moro pelo PL neste ano consolida sua submissão a Bolsonaro e sua identidade pública como bolsonarista.
“Em certo momento, quando saiu do ministério, parecia apostar em um caminho alternativo na ultradireita, mas não mostrou fôlego”, avalia. “Fez um mandato sem grande destaque no Senado e acabou relegado ao segundo plano da política nacional. Agora, tenta retomar o destaque como liderança local do bolsonarismo no Paraná.”
Chaloub também considera que a escolha de um palanque agressivo no estado de Ratinho Junior reforça a aposta da família Bolsonaro em um confronto aberto com o PSD no primeiro turno, a fim de impedir qualquer crescimento nacional do governador. “Caso seja bem-sucedido, o movimento consolida, em mais uma eleição, a submissão da direita à ultradireita.”
Moro inicia a pré-campanha como favorito ao Palácio Iguaçu. Conforme um levantamento do Paraná Pesquisas divulgado em 12 de março, o senador tem cerca de 20 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, Requião Filho (PDT), em todas as projeções de primeiro turno.
Segundo Mateus de Albuquerque, doutor em Ciência Política pela UFPR e vice-líder do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil, manter a aliança com Ratinho no Paraná significaria também se vincular às contradições do PSD, que abarca bolsonaristas ao mesmo tempo em que acolhe lulistas, a exemplo do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e dos senadores Otto Alencar (BA), Angelo Coronel (BA) e Omar Aziz (AM).
Assim, diz Albuqurque, fazia sentido para o PL correr atrás de uma candidatura própria, mas faltava um expoente com força local. Com Moro deixado de lado pela federação União Progressista, surgiu a oportunidade.
“Moro ainda é uma figura popular, mas estava sem um partido para chamar de seu, porque é uma figura politicamente muito pouco hábil”, explica Albuquerque. “Sempre com muita dificuldade de conseguir converter em força partidária a sua popularidade em alguns setores da sociedade.”
Ele pondera, contudo, que a vitória do senador pode não ser tão garantida quanto as pesquisas sugerem, uma vez que Ratinho acumulou uma força sem precedentes nas prefeituras e na Assembleia Legislativa. “Em eleições como as de governo de estado, ter o palanque nos pequenos municípios faz muita diferença.”
A mesma sondagem do Paraná Pesquisas que apontou o favoritismo de Moro no cenário local ilustrou a força de Ratinho no estado: o governador lidera as intenções de voto para presidente entre os paranaenses, com 38,%, ante 28,1% de Flávio e 20,9% de Lula.
Agora, antes de oficializar sua provável pré-candidatura ao Planalto, o governador trabalha pela definição de seu representante no Paraná. Entre os cotados estão Guto Silva (PSD), secretário de Cidades, e Alexandre Curi (PSD), presidente da Assembleia Legislativa.
Política, com ou sem toga
O trabalho de Moro à frente da 13ª Vara Federal de Curitiba foi fundamental para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018.
Em 31 de agosto daquele ano, o TSE negou o pedido de registro da candidatura de Lula, com base na Lei da Ficha Limpa. Em janeiro de 2018, o TRF-4 havia confirmado a condenação de Lula no caso do triplex em Guarujá (SP), imposta em julho de 2017 por Moro.
Também partiu de Moro, em abril de 2018, a ordem para prender Lula, que permaneceu 580 dias na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. A reviravolta na carreira do então ex-presidente só se tornou possível após a Vaza Jato, que expôs o conluio entre o então juiz da 13ª Vara e a força-tarefa da Lava Jato, chefiada por Deltan Dallagnol.
Em 2021 — quando Moro já havia entrado no governo Bolsonaro e saído dele —, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula na Lava Jato, declarou a incompetência da Justiça Federal em Curitiba e reconheceu a suspeição de Moro. Dois anos depois, ao invalidar as provas obtidas no acordo de leniência da Odebrecht, o ministro Dias Toffoli classificou a prisão de Lula como “um dos maiores erros judiciários da história do País”.
Toffoli escreveu na ocasião que as delações premiadas da Lava Jato, celebradas por “meios ilegítimos”, caíam por terra. “Tal conluio e parcialidade demonstram, a não mais poder, que houve uma verdadeira conspiração com o objetivo de colocar um inocente como tendo cometido crimes jamais por ele praticados.”
É com esse longo histórico de serviços prestados ao bolsonarismo — com fissuras no meio do caminho — que Sergio Moro se lançará ao governo do Paraná, garantirá um palanque competitivo para Flávio Bolsonaro no estado e tentará, pela terceira vez consecutiva, atrapalhar a candidatura de Lula.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.
Leia também
PL define apoio a Sergio Moro na disputa pelo governo do Paraná
Por Wendal Carmo
A alegação de Moro para travar PEC que extingue aposentadoria de juízes como punição
Por CartaCapital
O aceno de Fux apesar de votar por manter Moro como réu no STF
Por CartaCapital


