Política

Com a PF na cola de Ramagem, aliados de Bolsonaro agora temem operação contra Heleno

Esta é a segunda semana consecutiva em que a PF vai às ruas em operações que podem respingar direta ou indiretamente no ex-presidente

Augusto Heleno e Alexandre Ramagem. Fotos: Tânia Rêgo/Agência Brasil - Valter Campanato/Agência Brasil
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A operação da Polícia Federal contra o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) instala mais uma crise na antessala de Jair Bolsonaro (PL) e pode arrastar outros personagens centrais do governo do ex-capitão. Um deles é o general da reserva do Exército Augusto Heleno.

Agentes da PF foram às ruas nesta quinta-feira 25 na Operação Vigilância Aproximada, com o objetivo de investigar uma organização criminosa instalada na Agência Brasileira de Inteligência. O suposto esquema ilegal serviria para monitorar autoridades e desafetos da gestão Bolsonaro, por meio de ferramentas de geolocalização de dispositivos móveis – sem autorização judicial.

Ramagem, ex-delegado da PF, chefiou a Abin de julho de 2019 a abril de 2022, quando deixou o cargo para se candidatar a deputado. Durante esse período de quase três anos, o bolsonarista esteve subordinado a Heleno, então ministro do Gabinete de Segurança Institucional e, portanto, chefe da agência à época. Hoje, a Abin está sob o guarda-chuva da Casa Civil.

Não à toa, aliados de Bolsonaro temem que Augusto Heleno seja um dos próximos alvos da investigação.

Ainda em 2020, também veio à tona a possibilidade de a Abin ter produzido relatórios para embasar a defesa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no caso das “rachadinhas”, o que o senador nega. A relação da agência com outros filhos de Jair Bolsonaro é alvo de apuração da PF.

Além disso, o próprio ex-presidente se vê mais uma vez como “sujeito oculto” de uma ação policial autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Ramagem não era um personagem qualquer no governo anterior e foi peça central nas suspeitas de que Bolsonaro tentou se apropriar da PF para utilizá-la em proveito próprio.

Quando Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça, em abril de 2020, acusou Bolsonaro de tentar interferir na corporação, por meio da demissão de Mauricio Valeixo. O escolhido para chefiar a PF foi exatamente Ramagem, mas a decisão foi barrada por Moraes.

Na famosa reunião ministerial daquele mês, Bolsonaro recorreu a impropérios para dizer que não esperaria a PF “prejudicar” sua família antes de alterar o comando da corporação.

Agora, a investigação tentará determinar a extensão do suposto monitoramento ilegal da Abin sob Ramagem, Heleno e Bolsonaro. Entre os alvos estariam Moraes e Gilmar Mendes, do STF; o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia; e o ministro da Educação, Camilo Santana (PT), à época governador do Ceará.

Esta é a segunda semana consecutiva em que a PF vai às ruas em operações que podem respingar direta ou indiretamente em Jair Bolsonaro. Há sete dias, agentes cumpriram um mandado de busca e apreensão contra o deputado Carlos Jordy (PL-RJ), líder da Oposição, em uma apuração sobre mentores intelectuais e responsáveis por planejar, financiar e incitar os atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023.

O ex-presidente também é investigado no inquérito a mirar a autoria intelectual dos ataques às sedes dos Três Poderes.

Na quarta-feira 24, Bolsonaro usou as redes sociais para afirmar que “as próximas semanas poderão ser decisivas” e que “vivemos momentos difíceis, de muitas dores e incertezas”.

Não se sabe ao certo a que o ex-capitão se refere, mas ele acumula uma série de outras derrotas desde deixou a Presidência: foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral, viu o avanço de investigações sobre fraude em cartões de vacina e apropriação de presentes do Estado e segue em compasso de espera pelas consequências da delação do tenente-coronel Mauro Cid, seu fiel escudeiro nos quatro anos de governo.

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