Política

Após reunião com Baleia Rossi, centrais têm esperança de novo orçamento de guerra

Presidentes de entidades sindicais se reuniram com o candidato à presidência da Câmara para apresentar reivindicações

Presidentes de centrais sindicais encontraram Baleia Rossi (MDB-SP) em São Paulo. Foto: Vitor Imafuku/CSB
Presidentes de centrais sindicais encontraram Baleia Rossi (MDB-SP) em São Paulo. Foto: Vitor Imafuku/CSB

Candidato a presidente da Câmara, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP) sinalizou a centrais sindicais a possibilidade de prorrogar o auxílio emergencial para este ano e até mesmo discutir um novo “orçamento de guerra”, segundo apontaram sindicalistas ouvidos por CartaCapital. O parlamentar se reuniu com presidentes de seis centrais sindicais na manhã desta quinta-feira 14, no diretório do seu partido em São Paulo.

Em uma conversa que durou cerca de uma hora, os líderes apresentaram a Rossi uma agenda de reivindicações divulgada em 5 de janeiro e que também foi entregue a Arthur Lira (PP-AL), o outro postulante ao comando da Câmara. Na “Agenda Prioritária da Classe Trabalhadora para o Brasil”, as centrais apontam como prioridades a prorrogação do auxílio emergencial de 600 reais e a publicação de um plano de vacinação contra a Covid-19.

Segundo Antonio Neto, presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Rossi demonstrou “sensibilidade” para a necessidade de oferecer assistência financeira a desempregados e trabalhadores informais. O benefício, voltado para esse público na pandemia, foi encerrado em dezembro de 2020.

“Não há como estender o auxílio emergencial, porque já foi vencido, então seria preciso fazer uma discussão na Casa para uma nova legislação”, disse o sindicalista. “Há por parte dele a sensibilidade de rediscutir essa possibilidade. E também tentar, talvez, até rediscutir a questão do orçamento de guerra.”

O “orçamento de guerra” foi viabilizado por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) aprovada em abril do ano passado, com recursos extras para atender gastos na pandemia. No entanto, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já se disse contrário à repetição dessa medida neste ano e defendeu que “soluções serão encontradas dentro deste orçamento, com a regulamentação do teto de gastos”. Maia apoia a candidatura de Rossi.

“Vai ter que ter essa discussão”, declarou Miguel Torres, presidente da Força Sindical. “Para fazer alguma coisa emergencial, vai ter que ter um novo orçamento de guerra. A situação que estamos vendo vai piorar. Explicitamente ele não falou, mas vai ter que ter.”

Sindicalistas pedem taxação de fortunas em reforma tributária

Baleia Rossi teria dado ênfase especial à aprovação da reforma tributária. Uma PEC relatada pelo deputado sobre o tema tramita no Congresso e é uma das principais pautas dos parlamentares neste ano.

Os sindicalistas dizem ter cobrado o acréscimo de medidas como a tributação de lucros, dividendos e grandes fortunas. Um dos itens sugeridos, inclusive, teria sido a criação de uma nova Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, imposto que seria aplicado somente a pessoas com salários superiores a 30 mil reais. Rossi não teria dito “nem que sim, nem que não” em relação a essas demandas.

Para Antonio Neto, “a reforma tributária tem de ser solidária e progressiva, ou seja, tributar aqueles que mais têm, privilegiando aqueles que menos têm”. Segundo Miguel Torres, Rossi citou as propostas de que a reforma seja progressiva, e que “ele acha que é o caminho”.

Pauta do encontro não incluiu impeachment

As centrais evitaram falar sobre impeachment do presidente Jair Bolsonaro com Rossi. A questão também não havia entrado na pauta quando se reuniram com Lira. Bolsonaro é alvo de sessenta pedidos de impeachment na Câmara, e o processo só pode ser aberto por decisão do presidente da Casa.

Segundo Antonio Neto, há divergências entre as centrais em relação ao tema. Apesar de se dizer a favor da derrubada de Bolsonaro, o sindicalista afirma que há temor de que haja vitória do presidente da República caso a matéria entre em votação no Congresso. Nesse caso, seria “irresponsabilidade” propor a votação da proposta, com riscos de que o chefe do Palácio do Planalto se fortaleça, diz ele.

“Você tem centrais com visões diferentes, de que não é o momento para puxar o impeachment, de que não há clima. E, ao ser colocado em votação, pode ter uma derrota, e o impeachment não ser aprovado. Isso fortaleceria ainda mais o governo Bolsonaro. Então, queremos trabalhar concretamente com o Congresso dentro daquilo que nós podemos, para minorar as ações nefastas do governo”, avalia.

Centrais temem interferência de Bolsonaro no Congresso

Os sindicalistas dizem ter explicitado ainda, tanto a Rossi, como a Lira, a necessidade de garantir a “independência” do Congresso, para que não seja uma “cadeia de transmissão” do Planalto. Segundo levantamento da consultoria Arko Advice, Rossi votou a favor do governo em 90,24% das votações de 2019, um percentual maior do que os 86,29% marcados por Lira, que é indicado pelo próprio Bolsonaro. Os índices foram divulgados pela CNN Brasil.

Ainda assim, Neto diz se sentir “animado” com as duas reuniões, porque “ambos se comprometeram a deixar o gabinete da presidência da Câmara aberto para o movimento dos trabalhadores”.

“Nós sabemos que nenhum dos dois são oposição ao Planalto. Mas, acima de tudo, estão a democracia, o respeito às minorias e a questão social. E que haja diálogo nas áreas trabalhistas, porque o governo não dialoga com o movimento sindical”, diz o presidente da CSB.

Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), também diz temer a interferência do Planalto na Câmara. Ele afirma que a vitória de Rossi traria um cenário mais favorável às centrais sindicais e que a gestão de Maia pôs “freio” em afrontas do governo às instituições democráticas.

“Ele [Baleia Rossi] é uma pessoa que já está no Congresso há algum tempo, é presidente do partido. Sendo presidente da Câmara, com a aliança que ele está desenvolvendo, em prol de um Brasil mais justo e equitativo, ele demonstrou para nós essa possibilidade muito grande de diálogo”, disse.

Segundo Patah, as centrais articulam para a semana que vem uma reunião com os candidatos à presidência do Senado, Simone Tebet (MDB-MS) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Há ainda a expectativa de que a agenda de reivindicações seja apresentada ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux.

Assine nossa newsletter

Receba conteúdos exclusivos direto na sua caixa de entrada.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fonte confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!